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Maria, Maria - Marina Colasanti

Berthe Morisot -1887.
Maria, Maria

Manhã de março. E a campainha toca.
- Quem é? - pergunta Maria já ansiosa, na verdade inquirindo ao mundo por que me chamam em casa, o que querem de mim?
- A senhora foi escolhida - responde o rapaz, tão louro atrás da corrente que retém porta e segurança.
Fui escolhida para quê?, pensa Maria, não ouço rádio, não entro em concurso, fui escolhida não, mentira.
- Obrigada, não quero comprar nada - e Maria empurra a porta. Que não se fecha, porque o rapaz botou o pé na fresta.
- Ouça, não é nada para vender.
- Não, obrigada.
- Não é para pagar.
- Nem assim.
Maria faz força. Olha ostensivamente o pé dele, sandália. Depois o rosto, cabelos anelados ao redor.
- Com licença - diz Maria perguntando-se o que será que ele quer, e reparando na beleza dos cachos, que cachos harmoniosos, pensamento que corre sozinho como torneira esquecida aberta, por trás de outros pensamentos mais cortantes, de desconfiança, defesa.
- Quer fazer o favor de tirar o pé? - Maria usa sua voz mais autoritária para sobrepô-la ao medo crescente.
- A senhora não está entendendo. Eu sou um anjo do Senhor.
Um maluco. Era só o que me faltava. Logo hoje que estou sozinha em casa. Essa cidade está virando um hospício. Assim pensa Maria. Mas diz:
- Olha, meu amigo...
Ele repete - Eu sou um anjo do Senhor.
E então, lentamente, sorri.
Maria nem pensa que aquele sorriso é uma primavera. Sente-se apenas trespassar de mansidão, ensolarada. Maria sorri.
- Desculpe - diz. E, por dentro, como fui ser tão ridícula? - Desculpe - repete. - O que é mesmo que você queria?
- Posso entrar? - a pergunta parece tão lógica, tão absolutamente serena, que Maria se apressa a tirar a corrente, abrir a porta.
E o rapaz entra na casa de Maria.
- Você quer um café? - pergunta Maria. - Uma água?
- Quero que você sente aqui ao meu lado, Maria, porque tenho uma coisa importante para te dizer.
Maria nem se pergunta como ele sabe seu nome, esse homem tão lindo. Maria não tem nenhuma interrogação mais, só o desejo de sentar ali no sofá da sala, junto àquele rapaz de camiseta e cachos, e respirar seu hálito.
- Maria - diz ele -, você não vai acreditar, mas eu te trouxe um presente.
Não, Maria não acredita. Mas isso não faz diferença, porque a mão do rapaz é quente na sua coxa e o hálito dele é perfume e flor, e a boca dele, ah! a boca dele é um fruto do Senhor.
Despejada! Logo agora! Logo agora que a barriga retesada e plena como um ovo está prestes a culminar sua tarefa. Maria quase não acredita, não quer acreditar, mas a carta está ali, tinha acertado tudo com o senhorio, mas a carta está na mão dela, é isso, não tem como voltar atrás, não dá mais para ficar só esperando o nenén chegar, agora é preciso arrumar outro apartamento. E depressa.
Maria lê os classificados, recorta anúncios possíveis. E sai. Pega ônibus, pega metrô, anda, anda, sobe escadas, fala com porteiros, entra em elevadores, abre portas. Abre portas sobre apartamentos vazios, cheirando a já habitados, poeira nas frinchas. E a cada um se pergunta, será nesse que quero ficar? Não, lhe responde uma cor de parede. Não, a estreiteza de uma sala. Não, um corredor escuro, uma banheira rachada. Até que um dia, depois de tantas portas inutilmente abertas, sim, lhe diz uma janela sem cortinas aberta sobre árvores, sim, um piso claro, sim sim, o sol derramado nas paredes. Sim, parece dizer-lhe do centro de tudo o seu bebê. E assim Maria sabe que já encontrou uma casa para recebê-lo.
Precisará ainda fazer a mudança, juntar suas coisas, depois acompanhar o caminhão com seu próprio carro, pequena procissão através do trânsito da cidade, durante a qual os cristais mais delicados, que levou consigo num balaio, tilintam como minúsculos sinos.
Está justamente tentando definir lugares para os objetos na casa ainda caótica, quando o corpo moído exige que ela ponha as mãos nos rins e, projetando a barriga para a frente para aliviar o peso, Maria percebe que uma sombra se avoluma por dentro do ventre. Uma sombra que ainda não é dor, mas que cresce e, insistente, chama.
Deitada de lado como o médico mandou, Maria respira pausadamente enquanto a dor maior lhe dá repouso. E uma trégua apenas, ela sabe, logo a onda tentará submergi-la outra vez, vinda do pé, da terra que ela sequer toca, mas que está nela, passado de semeadura e colheita que habita toda mulher. Agora é tempo de colher. Como o Anjo disse que aconteceria, o filho está maduro para a luz.
O médico aproxima-se de Maria, fala com a enfermeira. Maria não lhe presta atenção, como se não o ouvisse. Maria está com a atenção voltada para dentro, ouvindo a conversa sem som do bebê que nela, e com ela, luta para derrubar as muralhas do corpo materno e libertar-se. Maria está ocupada demais em abrir-lhe passagem, para poder conversar com o médico, dizer-lhe como se sente. Pois Maria se sente como o bebê, sem palavras.
Sabe, porém que chegou a hora. Na maca, rumo à sala de parto, Maria pensa apenas no seu desejo de vê-lo, pegá-lo no colo, ela que há tantos meses o traz no regaço.
Frio, luz intensa, o corpo tão doído que quase o desconhece. Força, Maria, é preciso fazer força. Os músculos tensos, os dentes cerrados, o pescoço quase estourando. E de repente aquela sensação líquida, macia, de peixe esgueirando-se, saltando, como se a dor e o sangue e as vísceras de Maria se esvaíssem por entre suas pernas, deixando-a vazia e apaziguada.
- É uma menina - ouve o médico dizer do fundo da luz.
Uma menina?! Então, pensa Maria quase com alívio antes de resvalar para o torpor, então não era verdade, nada do que o Anjo disse era verdade, eu não fui escolhida, sou apenas uma mãe qualquer, mãe da minha filha amada, que bem-vinda seja.
Lá vem Maria com sua filha no colo entrando no apartamento novo. Olha em volta. Que desordem, não repare, querida. E o teu bercinho que não chegou, a loja acabou não entregando; também, com essa confusão toda de Natal... não há de ser nada, mamãe vai dar um jeito.
Maria deita sobre o sofá a nenen enrolada na manta. Vê um caixote vazio, ainda com palha da mudança, arrasta-o para o meio da sala, afofa a palha, põe almofadas por cima e, com gestos de quem quara roupa ao sol, abre sobre as almofadas o lençolzinho branco, bordado, que estava guardado numa gaveta com sachê cheiroso, para o primeiro dia.
- Pronto, querida, está feita a tua caminha, pode dormir sossegada.
Maria tira a manta, deita a nenen no berço improvisado, sem cobri-la sequer, que a tarde é quente.
Miau, faz o gato roçando nas pernas de Maria. E só então ela se lembra que o pobrezinho deve estar morto de fome, ele e o cachorro, sós no apartamento desde que ela foi para a maternidade, aos cuidados apenas do porteiro.
- Desculpem, vou cuidar de vocês também, não precisam ficar com ciúmes.
Na cozinha, Maria despeja a ração na tigela, abre uma lata de sardinhas para o gato, bate de leve com o prato no chão. Chama, psss, psss. Nem gato nem cachorro obedecem. Chama de novo, faz barulho com o prato. Nada. Que será que há com esse bichos, se pergunta Maria. Intrigada, vai até a sala. Não chega a entrar, porém, retida por um instante na porta, em devoção.
Lá está o caixote, onde ela o deixou. Mas o gato de um lado e o cachorro do outro bafejam delicadamente sobre a menina. E acima dela, pairando ofuscante na tarde que se vai, esparge sua fúlgida luz uma estrela.
- Então era verdade! O Anjo não mentiu!
Ajoelha-se Maria perto da filha. Sim, o Anjo disse a verdade. Sagrada é a menina que esperneia entre linhos. Como estava prometido, Ela chegou. Louvor aos céus, pois a Messias está entre nós.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999

Um espinho de marfim - Marina Colasanti

Gustave Courbet - 1862
Um espinho de marfim


Amanhecia o sol e lá estava o unicórnio pastando no jardim da Princesa. Por entre flores olhava a janela do quarto onde ela vinha cumprimentar o dia. Depois esperava vê-la no balcão, e, quando o pezinho pequeno pisava no primeiro degrau da escadaria descendo ao jardim, fugia o unicórnio para o escuro da floresta.
Um dia, indo o Rei de manhã cedo visitar a filha em seus aposentos, viu o unicórnio na moita de lírios.
Quero esse animal para mim. E imediatamente ordenou a caçada.
Durante dias o Rei e seus cavaleiros caçaram o unicórnio nas florestas e nas campinas. Galopavam os cavalos, corriam os cães e, quando todos estavam certos de tê-lo encurralado, perdiam sua pista, confundiam-se no rastro.
Durante noites o rei e seus cavaleiros acamparam ao redor das fogueiras ouvindo no escuro o relincho cristalino do unicórnio.
Um dia, mais nada. Nenhuma pegada, nenhum sinal da sua presença. E silêncio nas noites.
Desapontado, o rei ordenou a volta ao castelo.
E logo ao chegar foi ao quarto da filha contar o acontecido. A princesa, penalizada com a derrota do pai, prometeu que dentro de três luas lhe daria o unicórnio de presente.
Durante três noites trançou com os fios de seus cabelos uma rede de ouro. De manhã vigiava a moita de lírios do jardim. E no nascer do quarto dia, quando o sol encheu com a primeira luz os cálices brancos, ela lançou a rede aprisionando o unicórnio.
Preso nas malhas de ouro, olhava o unicórnio aquela que mais amava, agora sua dona, e que dele nada sabia.
A princesa aproximou-se. Que animal era aquele de olhos tão mansos retido pela artimanha de suas tranças? Veludo do pêlo, lacre dos cascos, e desabrochando no meio da testa, espinho de marfim, o chifre único que apontava ao céu.
Doce língua de unicórnio lambeu a mão que o retinha. A princesa estremeceu, afrouxou os laços da rede, o unicórnio ergueu-se nas patas finas.
Quanto tempo demorou a princesa para conhecer o unicórnio? Quantos dias foram precisos para amá-lo?
Na maré das horas banhavam-se de orvalho, corriam com as borboletas, cavalgavam abraçados. Ou apenas conversavam em silêncio de amor, ela na grama, ele deitado a seus pés, esquecidos do prazo.
As três luas, porém já se esgotavam. Na noite antes da data marcada o rei foi ao quarto da filha lembrar-lhe a promessa. Desconfiado, olhou nos cantos, farejou o ar. Mas o unicórnio que comia lírios tinha cheiro de flor, e escondido entre os vestidos da princesa confundia-se com os veludos, confundia-se com os perfumes.
Amanhã é o dia. Quero sua palavra cumprida, disse o rei - virei buscar o unicórnio ao cair do sol.
Saído o rei, as lágrimas da princesa deslizaram no pêlo do unicórnio. Era preciso obedecer ao pai, era preciso manter a promessa. Salvar o amor era preciso.
Sem saber o que fazer, a princesa pegou o alaúde, e a noite inteira cantou sua tristeza. A lua apagou-se. O sol mais uma vez encheu de luz as corolas. E como no primeiro dia em que se haviam encontrado a princesa aproximou-se do unicórnio. E como no segundo dia olhou-o procurando o fundo dos seus olhos. E como no terceiro dia segurou- lhe a cabeça com as mãos. E nesse último dia aproximou a cabeça do seu peito, com suave força, com força de amor empurrando, cravando o espinho de marfim no coração, enfim florido.
Quando o rei veio em cobrança de promessa, foi isso que o sol morrente lhe entregou, a rosa de sangue e um feixe de lírios.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999.

Amor e morte na página dezessete - Marina Colasanti

Gabriele Munter - 1908
Amor e morte na página dezessete

No dia em que Selena saiu no jornal, não ganhou foto na primeira página. Quinze linhas somente, no canto esquerdo. Mas foi lá dentro, na página dezessete, abaixo do título, que o marido a viu com seu decote, o rosto meio escondido na mão, chorando por outro homem.
A foto havia sido tirada ao lado do picadeiro. Viam-se atrás da cabeça dela um pedaço da lona, o alto das grades. Rodeada de gente, Selena não percebera que estava sendo fotografada, havia tantas luzes ali. Nem pensara que sairia no dia seguinte na página 17 e que o marido a veria. Ou pensara, mas como um problema a resolver em outra hora, envergonhada quase de que esse pensamento surgisse quando só lhe cabia pensar no outro, no outro que ali estava, à seus pés.
"Como conseguem chegar tão depressa?!", perguntara-se admirado o dono do circo, ele que só conseguia deslocar suas gentes lentamente. E correra para alcançar as camionetes de TV, antes mesmo que acabassem de estacionar entre os trailers e abrissem as portas. Apresentou-se ao primeiro que saltou. Um erro. Nem esse nem o segundo que saltou, a quem também se apresentou, tinham qualquer importância, carregadores de equipamentos, nenhum deles se lembraria dele no futuro, na hora de dar uma notícia sobre o Gran Circus; o repórter, cadê o repórter? A repórter já estava lá dentro empurrando o microfone diante do rosto desfeito de Selena, tentando arrancar-lhe qualquer coisa que durasse pelo menos dois minutos, qualquer coisa mais que aquele olhar escondido pelas pálpebras inchadas, que aquele balbuciar quase incoerente.
Assim mesmo a matéria saiu no noticiário do dia seguinte, na hora do almoço. Não deu para jogar no horário nobre, à noite - tivesse acontecido na seção matinê teria caído como uma luva, mas as coisas teimam em acontecer depois das vinte horas e no dia seguinte já parecem frias.
Essa, porém, ainda estava quente quando foi servida com o arroz e o feijão para todo o bairro de Selena.
Ela, Selena, não tinha voltado para casa, não tinha vindo dormir. Tinha passado a noite entre pessoas que não conhecia, rostos que se dirigiam a ela, que faziam perguntas exigindo respostas quando ela nem bem ouvia, vozes e presenças que a conduziam de uma sala a outra. Uma noite sem feitio, sem nada que a ligasse a todas as noites anteriores da sua vida, encharcada de café e copos d'água, sem que a deixassem sozinha por um minuto, embora só disso ela precisasse, ficar sozinha e tomar sua alma entre as mãos. Mas não, a noite inteira sente-se, venha, beba isso que vai lhe fazer bem, data de nascimento, carteira, assine, por favor, outra vez, siga por aqui. E salas e salas e corredores e lâmpadas no alto. Depois um último corredor e um carro, já começava o dia, e ela tinha dito não, não, para a minha casa não, e tinha pedido que a deixassem na casa de uma amiga, porque não podia chegar no bairro àquela hora, com aquele vestido.
"Esse vestido, Selena, só para sair comigo", havia dito o marido no dia em que Selena saíra do quarto com o decote emoldurado na estampa viva, os quadris moldados de vermelho. "Mesmo assim...", e observara seu caminhar até o sofá, à procura de uma restrição possível para opor ao seu desejo. "Mesmo assim, está muito curto."
Selena displicente, afivelando as sandálias altas, "Não tem bainha para descer". E, cruzando as pernas, "Gostou não?"
As pernas de Selena expostas, coxas esmagadas contra o couro sintético do sofá. Estão colando, pensara o marido, imaginando-as úmidas sobre o assento.
Era mentira que tivesse mandado a costureira fazer o vestido com um pano de liquidação, como havia dito ao marido. Mas não podia contar que havia sido dado pelo amante. Como poderia?
Nem ia deixar de receber o presente, um agrado, como dissera ele pagando na caixa a roupa que a havia mandado escolher. Para sair comigo, acrescentara tocando-lhe a cintura.
Pequenas mentiras. Às vezes não pequenas. Às vezes nem mentiras. Palavras, nada mais do que isso, palavras que ela organizava à seu modo. Não era grave. Grave teria sido magoar qualquer dos dois. Pois se gostava de ambos. Grave teria sido magoar a si mesma.
No princípio, talvez, um pouco de mágoa a habitava, uma quase dor, por não poder dizer ao marido "tenho um amor", e partilhar com ele sua emoção, por se sentir obrigada a resistir, embora pouco, quando tudo o que queria era a entrega. E o medo, medo de ser descoberta, medo ainda maior de ser arrastada por seu desejo em alguma direção que não pudesse controlar. Mas tão bom ter o amante todo ardências, que logo qualquer outro sentimento desaparecera. E agora, passados tantos anos, tão assentada ela no querer dos dois, surpreendia-se quase de que não vivessem todos juntos na mesma casa, partilhando a mesa além da cama.
Selena nem se lembrava como havia chegado até a arena, se descendo ou rolando do alto da arquibancada, se passando por cima das pessoas ou se levada por elas. De repente estava ali, na beira do grupo compacto que se havia fechado de imediato ao redor do fato como uma parede de bailarinas, palhaços, espectadores. E logo estava no meio do círculo, ela e o homem dos alamares no casaco, que a segurava pelo braço, que vociferava, que talvez a sacudisse, ou era ela que com seu tremor sacudia a mão dele. Os holofotes acesos. Acesos nos seus olhos, e as lágrimas lascando em estrelas toda aquela luz, todos aqueles rostos. Depois a TV, as rijas serpentes dos cabos pelo chão, ao redor dos pés, a moça insistindo. E a luz ainda mais forte.
Na delegacia, também, havia luz em seus olhos. O que queriam, o que procuravam entre suas pálpebras? Sou uma mulher casada, repetia. Tenho marido. Me deixem ir. Mas não, isso ela dizia para si mesma, isso ela repetia calada pela angústia, como uma ladainha, em busca do seu refúgio, tenho marido, tenho. A eles, em resposta a tanto que queriam saber, só soube dar seu endereço, que nem era preciso dar, estava na bolsa, e como é que a bolsa fora parar na delegacia se ela não se lembrava de carregar bolsa alguma ao atirar-se do alto da arquibancada? Tinha telefone também. E eles ligaram.
O homem atendeu. Alô, disse, e era o mesmo homem de sempre, aquele que os vizinhos conheciam, seu Jonas da casa três, um pouco rude mas respeitador, marido da dona Selena. Atendeu com a voz de dono com que um homem atende ao telefone da própria casa. Alô. E era ainda ele, Jonas, como sempre havia se conhecido. Bastou porém ouvir a resposta do lado de lá, para que a ameaça o alcançasse como um dardo. Delegacia? Não era um presságio, era a realidade do medo que lhe tomava os joelhos, o peito. E, à medida que o outro falava, conciso, indo logo ao essencial, Jonas sentiu que deixava de ser o Jonas que sempre havia acreditado ser, tornando-se alguém que ainda não conhecia. Sem que o interlocutor pudesse perceber, uma metamorfose se operava do lado de cá da linha, e esse homem, Jonas, de fone na mão, via-se despido da sua segurança como a serpente é despida da pele, e nu, com sua branca carne viva, já não era o marido respeitado e invejado pela vizinhança, mas alguém de quem se rir pelas costas; não era o macho que sempre havia esgotado as vontades da sua fêmea, mas apenas um homem que gozava. Expulso da serenidade, Jonas encontrou-se ao desabrigo. Sei, respondeu depois de um longo silêncio que o outro, de lá, tentava quebrar para ter certeza de ter sido entendido. Sei, repetiu. E, pela primeira vez, sabia.
O cara não vem, o policial disse para o outro desligando. Tinha falado com Jonas na frente de Selena sem constrangimento, como se ela não ouvisse ou como se o que tinha a dizer ao marido não fosse constrangedor para ela. Não era. Falassem alto à vontade. A relação dela com Jonas não estava ali. Não estava do outro lado da linha. Seu marido, o companheiro seu, a esperava adiante em algum momento, árduo momento em que teriam que se encontrar. Mas aquela mesma relação que ela projetava para o futuro estava inteira ali, no seu mudo repetir tenho marido, na vontade de que ele viesse, a levasse para casa, a tirasse daquele lugar. Jonas! invocou de novo sufocada em choro, me ajuda.
Seu marido, dona, disse o policial como se tivesse lido seu pensamento, não vem.
Vinte e sete anos de casados, o peso dele afundando a cama de um lado, o suor encardindo os colarinhos. Não é suor, dizia ele, é poeira lá do serviço. Vinte e sete anos de sexo, luz acesa, e carne assada aos domingos. Homem que sentava à mesa para comer e deitava em cima dela para gozar. Tudo com fartura. Um bom marido, Jonas, ciumento, meio bruto, mas bom. E dela.
Jonas botou o fone no gancho e apagou a luz. O nome de Selena subiu por dentro dele como um vômito, esbarrou nos dentes trancados, na boca dura, fez-se insulto, cuspe, soluço. Passou a noite assim, sentado no sofá, de cuecas, chorando no escuro. E falando com Selena, brigando com Selena, sacudindo-a pelos braços, rasgando-lhe a roupa, dando-lhe tapas na cara, fodendo-a como se fode uma prostituta, e implorando, perguntando por que, por que se ele não lhe deixava faltar nada. Chegou a dar tiro, nela, nos dois, a surpreendê-los na cama, a peitá-los na entrada do motel. Passou a noite culpando-os, culpando-se, ferindo-se nas palavras. Sentiu frio, enrolou-se numa toalha do banheiro, os pés continuaram gelados, encolheu os pés sobre o sofá. Aquecido no nicho morno e úmido da toalha abraçou seu próprio corpo, teve pena de si. Por fim, adormeceu.
É bom que durma Jonas, porque sua provação não acabou. Amanhã a foto de Selena sairá no jornal, na página dezessete do jornal que alguém lerá no ônibus, alguém do bairro, e que todos no bairro irão correndo comprar na banca, gulosos da história de Selena, do seu retrato. E antes mesmo que cheguem os repórteres o telefone chamará, tirando-o do limbo quente do sono, e será um amigo, um parente querendo confortá-lo, que ainda estará falando quando a campainha da porta tocar, alertando Jonas para o duro dia que se arma à sua frente. Dia em que, isso ele ainda não sabe, Selena em prantos será atirada pelo noticiário das 12h30 na sua mesa que ninguém pensou em arrumar para o almoço.
Só uma hora, havia dito a amiga, embora a manhã já estivesse clara. Só para relaxar. E Selena, sozinha enfim, esforçava-se para dormir, para livrar-se do peso que a oprimia inteira, esquecer-se de si no corpo estendido. Mas a cama era estreita, o travesseiro hostil, e a luz que entrava pela janela sem cortinas vetava qualquer tentativa de fuga. Continuou deitada, porém, olhos fechados. Pensassem na sala que ela dormia, falassem em voz baixa. Ausente para os outros, sentindo de leve as tábuas do estrado através do colchonete, podia afinal regressar à sua vida, recuperar Daniel, e refazer o percurso daquela noite tentando escapar às suas próprias palavras, tentando impedir que Daniel as ouvisse.
Juntos há vinte e cinco anos. Era isso que estavam comemorando. Um vestido novo, um jantar, e o circo. Assim era Daniel, sempre pronto a se divertir, a comemorar, como um menino. Bodas de prata, a cada ano um presente, uma tarde especial para selar a data do primeiro encontro, para dizer-lhe, uma vez mais, que era dela o seu coração. Sem nunca lhe exigir nada, sobretudo não o fim do seu casamento, e não porque a quisesse casada com outro, ele que solteiro podia acolher uma mulher. Mas porque sabia amá-la como ela era, com Jonas e o seu jeito de querer Jonas, com uma casa que não podiam partilhar, com seus horários apertados, sua necessidade de escamotear os presentes, de inventar histórias para justificar as ausências.
Encontravam-se duas vezes por semana. A princípio só no motel, porque o desejo abrasava, e em qualquer outro lugar temiam ser vistos. Depois, com o tempo, desgastaram-se os temores, parecia tão natural que se amassem. E então um barzinho, uma churrascaria longe do bairro. E um cinema, dançar. Daniel, pensou Selena cobrindo os braços com a colcha, era onde ela remoçava. E mais uma vez o definiu, agora naquilo que seria sua memória, alegre, amoroso, sempre inventando moda. E sentiu seu corpo nas mãos dele, e sentiu os pés dele encostando nos seus debaixo da mesa, das mesas tantas daqueles vinte e cinco anos. E teve vontade de chorar, mas não chorou.
- Foi tudo muito rápido - repetiu o dono do circo ao repórter do tablóide que pelo telefone lhe fazia as mesmas perguntas já feitas anteriormente pelos outros todos. Sentado no trailer da administração, sem casaco de alamares, sem botas, era apenas mais um homem de jeans.
- Não houve tempo de tomar qualquer atitude. A segurança estava atenta, mas não deu para salvar o homem. Ninguém podia imaginar...
- Sim, é claro que estavam armados, num circo contamos com muito imprevisto, nunca uma coisa assim, isso nunca aconteceu em circo nenhum, e com toda aquela gente de pé, aos gritos, os seguranças não podiam atirar, imagine acertar alguém...
- Lá vem o senhor insistindo nisso. Não, eu já lhe disse antes e repito. Não há perigo nenhum para os espectadores, nunca houve.
- Como, nem ontem à noite? Ontem à noite, meu amigo, não foi questão de perigo. Foi uma fatalidade, uma loucura, uma coisa que ninguém podia evitar.
Eu podia ter evitado. Mas como é que eu ia imaginar uma coisa dessas, me diz, como? Na sala da amiga, Selena, sentada, embola o lenço nas mãos enquanto junta forças para voltar para casa, para saltar de um táxi diante da porta e tocar a campainha, para esperar que Jonas abra, que por caridade abra. E isso que Selena quer fazer agora, ir para casa, tomar um banho, trocar de roupa. Mudará de idéia depois, mas por enquanto é o que ela quer. E porque ainda não tem coragem, e porque sabe que depois, com Jonas, terá que se controlar, falar de uma outra maneira sobre o que aconteceu, vai repetindo para a amiga uma vez mais aquilo tudo que lhe contou ao chegar, mais pausadamente agora. Que ela estava tão feliz, Daniel mexendo com ela por causa do decote - a mão de Selena sobe, pousa no colo descoberto mexendo, que aquilo era um perigo, que não a queria na rua sozinha bonitona daquele jeito, bonitona, tinha dito assim mesmo, e ela, naquela idade, tinha se sentido como se fosse verdade, bonitona, os outros homens todos do restaurante reparando. Tinha sido sempre assim com ele, desde a primeira vez, aquele jeito brincalhão de falar...
No início mesmo da frase, Selena percebe, com súbita culpa, que se referiu a Daniel no passado, como se cedo o estivesse abandonando. Hesita, entre trair-lhe a morte ou tentar mantê-lo vivo falando dele no presente. Mas o passado já venceu. Selena parou por instantes. Olha as mãos, as unhas que tinha feito para a ocasião, agora tão sem sentido, unhas vermelhas numa hora dessas. E revê a própria mão sobre a mesa segurando a de Daniel. Tinham tomado cerveja, é verdade, mais que de costume, mas restaurante é assim mesmo, demora para chegar a comida, a pessoa fica bebendo, Daniel nunca tinha sido de muita bebida. E o que tinha demais beber um pouquinho além da conta, se era uma noite de festa e depois ainda iam ao circo?
Falei aquilo com ele, não foi por mal, não foi. Selena abaixa a cabeça, cobre os olhos com o lenço ainda meio embolado, os olhos secos, como se o lenço pudesse atrair as lágrimas e aliviá-la. Estava lindo o circo, aquela gente toda, a música, o barulho, o cheiro quente das feras. Desde menina que ela não ia, e sempre tinha gostado tanto, sempre tinha tido tanta vontade. Mas Jonas não gosta dessas coisas, você sabe o jeito do Jonas, foi por isso que Daniel quis me levar, pra me agradar, ele sempre fez tudo pra me agradar. Agora, as lágrimas vêm e Selena nem se lembra do lenço.
Sempre fez tudo. Tinha o mágico, circo sem mágico nem parece circo, Daniel ficou imitando, fingindo que tirava os papeizinhos do ingresso de dentro da manga, dizendo para Selena que na bolsa dela tinha um pombo. Daniel ria tanto dos palhaços. Teve cavalos, aquela coisa toda de trapézio. E chegou a hora das feras. Demoraram para armar as grades em volta do picadeiro, dois cachorros amestrados distraíam o público, o bater dos ferros encobria a música. E então estava pronto.
O domador entrou primeiro. Chegou esvoaçando uma capa de cetim, parou no meio do picadeiro, um assistente veio por trás, tirou a capa. No instante em que a capa se abriu, o domador estalou o chicote no ar. Selena teve a impressão de que ele estava nu, só o cinto largo rodeando-lhe os quadris e a tira de couro atravessada no peito. A sunga era quase da mesma cor da pele.
Os leões entraram um de cada vez pelo corredor gradeado. De cabeça baixa, os flancos nervosos, as patas macias avançando cautelosas sobre a serragem. Alguns rosnavam, quase correndo, ávidos, debandando na saída ao estalar do chicote. Eram cinco.
No silêncio da sala, que só sua voz interrompe, Selena ouve outra vez os gritos do domador organizando as feras em seus lugares, estalando o chicote quando elas erguem as garras ameaçadoras. Lembra-se do seu olhar, dela, Selena, acariciando as cicatrizes que marcam as coxas dele abaixo da sunga. Mas isso não conta para a amiga. Para a amiga repete o que Daniel disse para ela, que ia comprar pipocas, e ela ainda falou que não, não fazia questão, logo agora, e ele já se esgueirava entre as pessoas, com licença, e ela como podia adivinhar?, ela voltou a olhar para o picadeiro.
Sim, ela tinha dito antes para ele, mas no mesmo jogo de amor e ficção com que ele a tinha chamado de bonitona no restaurante, ela tinha dito para ele, olhando o domador e vendo como as feras lhe obedeciam a contragosto, ferozes, ela tinha dito, em tom faceiro e desafiador tinha sim, tinha perguntado se por amor a ela ele seria capaz de também enfrentar feras.
Olhava para o domador quando ouviu o primeiro grito. As pessoas na frente dela se levantaram de um salto, gritando, tirando-lhe a visão, todos se levantavam, ela também, mais para ver o que acontecia do que por espanto. E foi assim, por entre ombros e cabeças, que ela viu Daniel já no fim do corredor gradeado e inutilmente gritou gritou enquanto ele avançava no picadeiro.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias" . Porto Alegre: L&PM, 1999

Onde os oceanos se encontram - Marina Colasanti

Willard Metcalf - ebbing tide version two
Onde os oceanos se encontram


Onde todos os oceanos se encontram, aflora uma ilha pequena. Ali, desde sempre, viviam Lânia e Lisíope, ninfas irmãs a serviço do mar. Que, no manso regaço da praia, vinha depositar seus afogados.
Cabia a Lânia, a mais forte, tirá-los da arrebentação. Cabia a Lisíope, a mais delicada, lavá-los com água doce de fonte, envolvê-los nos lençóis de linho que ambas haviam tecido. Cabia a ambas devolvê-los ao mar para sempre.
E, na tarefa que nunca se esgotava, passavam as irmãs seus dias de poucas palavras.
Foi num desses dias que Lânia, vendo um corpo emborcado aproximar-se flutuando, entrou nas ondas para buscá-lo, e agarrando-o pelos cabelos o trouxe até a areia. Já estava quase chamando Lisíope, quando, ao virá-lo de rosto para cima, percebeu ser um homem jovem e lindo. Tão lindo como nunca havia visto antes. Tão lindo, que preferiu ela própria buscar água para lavar aquele sal, ela própria, com seu pente de concha, desembaraçar aqueles cachos.
Porém, ao envolvê-lo no lençol ocultando- lhe corpo e rosto, tão grande foi seu sofrimento que, num susto, descobriu-se enamorada.
Não, ela não devolveria aquele moço, pensou com fúria de decisão. E rápida, antes que Lisíope chegasse, correu para uma língua de pedra que estreita e cortante avançava mar adentro.
- Morte! - chamou em voz alta chegando na ponta. - Morte! Venha me ajudar.
Não demorou muito, e sem ruído a Morte saiu de dentro d'água.
- Morte - disse Lânia em ânsia -, desde sempre aceito tudo o que você me traz, e trabalho sem nada pedir. Mas hoje, em troca de tantos que lhe devolvi, peço que seja generosa, e me dê o único que meu coração escolheu.
Tocada por tamanha paixão, concordou a Morte, instruindo Lânia: na maré vazante deveria colocar o corpo do moço sobre a areia, com a cabeça voltada para o mar. Quando a maré subisse, tocando seus cabelos com a primeira espuma, ele voltaria à vida.
Assim fez Lânia. E assim aconteceu que o moço abriu os olhos e o sorriso.
Mas, em vez de sorrir só para ela que o amava tanto, desde logo sorriu mais para Lisíope, e só para Lisíope parecia ter olhos.
De nada adiantavam as insistências de Lânia, as desculpas com que tentava afastá-lo da irmã. De nada adiantava enfeitar-se, cantar mais alto que as ondas. Quanto mais exigia, menos conseguia. Quanto mais o buscava para si, mais à outra ele pertencia.
Então um dia, antes do amanhecer, ajoelhada sobre a ponta da pedra, Lânia chamou novamente:
- Morte! Morte! Venha me atender.
E, quando a Silenciosa chegou, em pranto e raiva pediu-lhe que atendesse só ao último de seus pedidos. Levasse a irmã. E mais nada quereria.
Seduzida por tamanho ódio, concordou a Morte. E instruiu: deveria deitar a irmã sobre a areia lisa da maré vazante, com os pés voltados para o mar. Quando, subindo a água, o primeiro beijo de sal a aflorasse, Ela a levaria.
E assim foi que Lânia esperou uma noite de luar, quente e perfumada, e chegando perto de Lisíope lhe disse:
- Está tão linda a noite, minha irmã, que preparei tua cama junto à brisa, lá onde a areia da praia é mais fina e mais lisa.
E, conduzindo-a até o lugar onde já havia posto seu travesseiro, ajudou-a a deitar-se, cobriu-a com o linho do lençol.
Em seguida, sorrateira, esgueirou-se até uma árvore que crescia na beira da praia, e subiu até o primeiro galho, escondendo-se entre as folhas. De olhos bem abertos, esperaria para ver cumprir-se a promessa.
Mas a noite era longa, na brisa vinha cheiro de jasmim, o mar apenas murmurava. E aos poucos, agarrada ao tronco, Lânia adormeceu.
Dorme Lânia na árvore, dorme Lisíope perto d'água, quando um raio de luar vem despertar o moço que dorme, quase a chamá-lo lá fora com todo o seu encanto. E ele se levanta e sai. E estonteado de perfumes caminha, vagueia lentamente pela ilha, até chegar à praia, e parar junto a Lisíope. No sono, o rosto dela parece fazer-se ainda mais doce, boca entreaberta num sorriso.
Sem ousar despertá-la, o jovem se deita ao seu lado. Depois, bem devagar, estende a mão, até tocar a mão delicada que emerge do lençol.
Sobe o amor no seu peito. Na noite, a maré sobe.
Já era dia quando Lânia, empoleirada no galho, despertou. Luz nos olhos, procurou na claridade. Viu o travesseiro abandonado. Viu o lençol flutuando ao longe. Da irmã, nenhum vestígio.
- A Morte fez o combinado - pensou, descendo para correr ao encontro do moço.
Mas não correu muito. Diante de seus passos, estampada na areia, deparou-se com a forma de dois corpos deitados lado a lado. A maré já havia apagado os pés, breve chegaria à cintura. Mas na areia molhada a marca das mãos se mantinha unida, como se à espera das ondas que subiam.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999

História mais longa para quebrar o ritmo - Marina Colasanti

Paul Gauguin - a breton landscape david-s mill - 1894
História mais longa para quebrar o ritmo


Chove.
Os primeiros bichos chegam ao celeiro da montanha. E já a água sobe nas planícies e os rios abandonam seus leitos. Mas o celeiro é úmido e quente, madeira podre, cheiro de toca, e os animais se sentem protegidos. Chegam, farejam na porta escura, e logo entram misturando-se a seus pares.
Chove.
Poucos nos primeiros dias, se aquecem uns contra os outros, pêlo, pena, couro, escama. Mas a chuva continua e mais bichos chegam, enchendo o celeiro que estala debaixo da tempestade e da pressão.
Ninguém ouve quando o gato come o rato. Na noite seguinte, quando o gato é morto pelo cão, os outros animais, entretidos com a luta do tigre e do elefante, nada percebem. No alarido que acompanha a vitória do tigre, a jibóia fecha suas espirais sobre o coelho, sem que o estalar dos ossos seja notado pelos demais.
Chove.
A água sobe ao redor do celeiro, imenso lago. O ronco do trovão abafa o rosnar da pantera que salta sobre a gazela. Esquivo, o chacal bebe o sangue. Na escuridão do celeiro a coruja abre os olhos fechando a garra sobre o dorso do esquilo, o javali enterra as presas no flanco da raposa, o morcego se espoja na jugular do boi.
Chove. Mas as nuvens se esgarçam no horizonte, e uma luz distante ilumina as águas.
Lá fora o silêncio. Cá dentro balidos, gemidos, rosnados, latidos. Ágil, o macaco escapa da onça. Rápido, o condor se abate sobre ele. O veneno da tarântula mergulha a marmota em sono definitivo, a picada da lacraia paralisa o cavalo, e o escorpião ameaçado pelo tatu volta contra si o próprio ferrão. O chifre do búfalo afunda na maciez do carneiro. A girafa dobra-se ao peso do lince. A garça desfolha-se sob a fúria do lobo. A hiena ri seu longo pranto.
Perdida a violência, a chuva se faz fina e lenta garoa.
E lentamente o urso aperta o tamanduá prenhe de formigas, o rinoceronte esmaga o crocodilo farto de pássaros, a lagartixa engole o grilo devorador de mosquitos. Na palha, o quati não pressente o aproximar-se do falcão, nem vê a cobra que lhe disputa a presa.
Fina e espaçada, a chuva pára. Aos poucos a água baixa, o primeiro verde surge na lama. Então a pomba desabrocha súbitas asas em farfalhar de vôo, para logo voltar com um raminho no bico, à procura de um lugar entre as telhas, para o ninho. Embaixo, no celeiro, o leão ferido de morte estraçalha as carnes do último adversário.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999.

No dorso da funda duna - Marina Colasanti

Paul Gauguin - tropical conversation - 1887
No dorso da funda duna

O sol atravessava lentamente o céu. E abaixo dele, bem abaixo, um emir com sua caravana atravessava o deserto. A claridade era envolvente como um sono. Mas de repente, pelas frestas dos olhos apertados, o emir viu a figura escura de um homem recortar-se no dorso de uma duna. De um homem e de uma cabra.
Que parasse a caravana, ordenou o emir. Um homem sozinho no deserto é um homem morto.
- Mas não estou sozinho, nobre senhor - respondeu o homem levado à presença do emir.
E este, tendo logo pensado que uma cabra não é companhia suficiente em meio às areias, penitenciou-se no segredo da sua mente. Certamente aquele era um homem santo que vagava em penitência, e tinha a companhia da sua fé.
Assim mesmo, convidou-o a seguir viagem com eles. E, diante da recusa, ordenou que se lhe dessem alguns pães e um odre de água. Em breve, a caravana partia.
O homem apertou as espirais do turbante, puxou uma ponta do pano sobre a boca e, acompanhado pela cabra, recomeçou a andar.
O sol tinha refeito seu percurso muitas vezes e estava do outro lado da terra, quando um tropel de cavaleiros quase pisoteou o homem que dormia com a cabeça encostada na barriga da cabra. O primeiro cavaleiro puxou as rédeas, saltou na areia. O homem acordou num susto. O tropel parou.
- Um homem sozinho entre as dunas é um homem inútil - disse o cavaleiro, que chefiava aqueles piratas do deserto. E o convidou para que se juntasse ao bando.
Mas, quando o homem recusou a oferta, acrescentando que certamente era um inútil embora não estivesse sozinho, o chefe dos piratas achou que debochava dele, e mandou que o surrassem. Sem demora e sem ruído, pois cascos não ecoam na areia, o tropel partiu.
Os ferimentos da surra há muito haviam cicatrizado, no dia em que uma caravana de peregrinos passou no seu caminho. E, assim como ele a viu chegar com prazer, também os peregrinos consideraram a presença daquele homem e daquela cabra como um sinal propício, e decidiram acampar ao seu lado no dorso da duna.
Armadas as tendas, acesos os fogos, o chefe da caravana convidou o homem a comer. Os peregrinos sentaram-se ao redor, a comida passou de mão em mão. Só quando ela acabou, o velho perguntou ao homem o que estava fazendo no deserto.
E o sol ainda não havia se posto, e a lua ainda não havia surgido, quando o homem começou a contar.
Havia sido um homem próspero de uma próspera cidade, uma cidade que com seus minaretes e muros surgia em meio ao deserto. Marido de uma boa esposa, justo pai dos seus filhos, tinha sempre grãos na despensa, e a figueira junto à porta da sua casa a cada ano dava frutos. Um dia, chamado pelos negócios, havia partido em longa viagem. E, ao regressar, não mais havia encontrado sua cidade. Só depois de muito indagar entendera que o deserto, soprado pelo vento, havia passado por cima dos muros, engolindo os minaretes, as casas e a figueira. Toda a sua vida estava debaixo da areia. Mas onde, na areia? E havia começado a procurar.
- É por isso que até hoje anda no deserto? - perguntou o velho chefe da caravana.
Os dentes do homem brilharam à luz da lua que já se havia levantado.
- Ando porque ainda sou morador da minha cidade - respondeu. Inclinou-se, encostou o ouvido na areia, quedou-se atento por alguns minutos. - Há muito os encontrei - disse, erguendo-se.
Sorriu novamente. No ventre daquela duna, debaixo da caravana acampada, estavam os minaretes, as casas, a figueira. Estavam seus filhos e sua mulher. E ele podia ouvi-los a distância. Através da areia que os separava, podia ouvir os gritos dos pregões, as preces dos muezins, o riso da mulher e das crianças que certamente agora haviam crescido.
- Caminho para isso. Para estar sempre acima deles. Para escutar sua vida. - As dunas - acrescentou - vagueiam pelo deserto. E eu vou, acompanhando a minha.
Pouco faltava para a manhã. Ao alvorecer, os peregrinos partiram. Mas o vento tinha ouvido o relato do homem. E a próxima caravana que por ali passou já não o encontrou. A duna soprada grão a grão havia eriçado sua crista, cobrindo o homem e sua cabra como antes cobrira muros e minaretes. E abrindo caminho para eles, lentamente, até seu ventre.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999

No silêncio que o sol queima - Marina Colasanti

Vincent van Gogh - wheat field with cornflowers - 1890

No silêncio que o sol queima

No meio do trigal, pernas abertas, abrigava pássaros. Era sempre assim. Com a chegada do verão sentia-se fértil, ensolarada de desejo, mãe da terra.
E deitava-se entre as hastes rígidas, as espigas túrgidas, à espera. Logo, pardais vinham aninhar-se entre suas coxas, fazendo-a suspirar com a doce carícia das asas. Esmagava entre os lábios pétalas de papoulas, e gemia. Fremir de plumas, pequenos bicos, breves pios, delícias. E as línguas do sol sobre seus seios.
Mas era só ao entardecer, quando o gavião em vôo desenhava círculos de sombra sobre o ouro, lançando-se como pedra entre suas carnes para colher o mais tonto dos pardais, que as hastes estremeciam enfim, inclinando as espigas ao supremo grito.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999.

Para que ninguém a quisesse - Marina Colasanti


Berthe Morisot - the-fable.
Para que ninguém a quisesse

Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, das gavetas tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos.
Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.
Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.
Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.
Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.
Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999.

Desertificação - Marina Colasanti

Paul Cezanne - 1870
Desertificação

O deserto começou a infiltrar-se na casa por baixo da porta, areia tangida por invisível sopro. Abriram, espiaram o elevador, examinaram as escadas. Nada. Nem areia nem vento. Em casa, porta fechada, halitava o siroco.
Abrasiva debaixo dos pés, suave concha nos cantos, a areia acumulava-se. Desapareceram as flores do tapete, secaram as folhagens do sofá. Quando o deserto sufocou os pássaros da tapeçaria, nenhum verde restava na sala. Sem chuva, breve morreria também o oásis do quarto.
Formada a primeira duna, o pai trouxe a cabra e o cabritinho amarrados de corda. Garantiriam o leite. A mãe, arrancando cortinas, providenciou panos, folgadas roupas, turbantes que protegiam a cabeça e a boca. Os olhos, na claridade, trabalhavam para descobrir entre frestas algum alimento para as cabras. E à noite acendiam em fogueiras o que restava dos móveis.
Mas logo a duna começou a mover-se. Desfaziam-se as ondas do cimo para ondularem mais adiante. Era hora de partir. Desmontaram a tenda, amarraram as cabras, ergueram nos ombros os odres de leite. E em fila pelo corredor seguiram a maré da duna. Acampariam onde ela parasse. Tornariam a partir com ela, viajantes no ritmo de luas e sóis. Assim para sempre, acompanhados pelo balido das cabras e pela urgência do vento, vida nômade que apenas começava.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999.

Nunca descuidando do dever - Marina Colasanti

Hibiscus and Sparrow, by Katsushika Hokusai


Nunca descuidando do dever

Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E, a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo da sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.
Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou sub-repticiamente a marcar seu avanço na pele do rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar- se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos.
Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz até a boca tornou-se inegável. Sem nada dizer, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias" . Porto Alegre: L&PM, 1999.

De água nem tão doce - Marina Colasanti

© Gaëlle Boissonnard

De água nem tão doce


Criava uma sereia na banheira. Trabalho, não dava nenhum, só a aquisição dos peixes com que se alimentava. Mansa desde pequena, quando colhida em rede de camarão, já estava treinada para o cotidiano da vida entre azulejos.
Cantava. Melopéias, a princípio. Que aos poucos, por influência do rádio que ele ouvia na sala, foi trocando por músicas de Roberto Carlos. Baixinho, porém, para não incomodar os vizinhos.
Assim se ocupava. E com os cabelos, agora pálido ouro, que trançava e destrançava sem fim. "Sempre achei que sereia era loura", dissera ele um dia trazendo tinta e água oxigenada. E ela, sem sequer despedir-se dos negros cachos no reflexo da água da banheira, começara dócil a passar o pincel.
Só uma vez, nos anos todos em que viveram juntos, ele a levou até a praia. De carro, as escamas da cauda escondidas debaixo de uma manta, no pescoço a coleira que havia comprado para prevenir um recrudescer do instinto. Baixou um pouco o vidro, que entrasse ar de maresia. Mas ela nem tentou fugir. Ligou o rádio e ficou olhando as ondas, enquanto flocos de espuma caíam dos seus olhos.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias" . Porto Alegre: L&PM, 1999.

Bela, das brancas mãos - Marina Colasanti

© Berthe Morisot

Bela, das brancas mãos


Era bonita e jovem como um amanhecer. E os homens da aldeia, todos, suspiravam por ela. Os solteiros a olhavam de frente, tentando apoderar-se do seu olhar. Os casados a olhavam de viés, escondendo o brilho dos olhos sob as pálpebras abaixadas. Os velhos e os meninos a olhavam à noite em seus sonhos.
Ela, porém, não olhava ninguém. Cuidava do seu fazer com alegria, cantava, caminhava leve com pés descalços. Pouco conversava com as outras mulheres da aldeia.
Essas também a olhavam. Mas com olhos escuros. Viam a mocinha fazer-se mulher. Viam seus homens cada vez mais atraídos. E viam-se mais feias, porque o espelho era ela.
Depois aconteceu que um moço largasse a junta de bois no meio do campo para segui-la até o rio. Houve a noite em que um marido não voltou para casa, suspirando a noite toda debaixo da sua janela. Dois jovens brigaram a faca e se disse que havia sido por ela. O louco da aldeia enforcou-se e todos só pensaram em um motivo.
À noite, as mulheres reuniram-se enquanto ela dormia. E decidiram seu destino. No escuro ainda, a arrancaram da cama e a expulsaram da aldeia, que nunca mais voltasse. Aos homens, no dia seguinte, disseram que havia partido com um viajante.
E não houve mais bois abandonados no meio do campo, os maridos todos regressaram para suas casas à noite, as brigas passaram a ser por causa da terra. E um dia um homem perdeu a razão e a aldeia voltou a ter o seu louco.
Tudo era tranqüilidade. Até o dia em que um dos homens saiu para caçar e não voltou.
Procuraram por ele no bosque, procuraram por ele no rio. E nada encontraram. Só sua arma, debaixo de um arbusto.
Passados muitos meses, quando já ninguém falava no desaparecimento, outro foi cortar lenha. E não voltou.
Dessa vez só procuraram entre as árvores. Encontraram o machado. Mas dele, nem sinal.
Durante muito tempo falou-se no homem que havia sumido. Muitos evitaram ir ao bosque. Depois, aos poucos, o fato foi se afastando na memória da aldeia, e as coisas voltaram a ser como antes.
E como antes um homem foi ao bosque, e como antes desapareceu, e como antes nada dele se encontrou.
Era o terceiro a desaparecer na aldeia. Haveria outro depois. E mais um.
As mulheres choravam com seus negros olhos.
Ninguém mais queria ir ao bosque. Porém, estando por acabar as provisões de suas casas, dois homens decidiram que juntos o perigo seria menor. E saíram para caçar.
Muitas vezes haviam percorrido aquelas trilhas. Mas, por mais que conhecessem todos os ninhos e tocas, naquele dia nenhuma criatura de pêlo ou pena cruzou seu caminho. E, procurando, embrenharam-se mais do que pretendiam.
Um deles ia na frente. O outro, o acompanhava. Sem que o primeiro percebesse, o segundo foi ficando para trás e, atraído por um ruído, meteu-se entre as folhagens.
Seu grito não demorou. Correu o primeiro para ajudá-lo. Mas, chegando ao lugar de onde vinham os chamados, viu a metade superior do amigo, que agitava os braços e gritava por socorro, enquanto a outra metade desaparecia na boca de uma enorme serpente.
Pensou em atirar, mas temeu atingir o companheiro ou atiçar a fúria da serpente, que poderia cortá-lo ao meio. Então agarrou-o pelas mãos e, cravando os pés no chão, começou a puxar.
Puxou, puxou, puxou. E aos poucos viu a cintura do amigo sair da verde moldura daquela boca, depois apareceram os quadris, as coxas, as pernas.
Extenuado, deixou-se cair, enquanto o amigo acabava de se libertar.
Mas, ao levantar a cabeça, viu que este, embora fora da serpente, sacudia os pés e lutava tentando soltar-se de alguma coisa mais.
Aproximou-se. Saindo da boca da cobra, duas mãos prendiam-se aos tornozelos do amigo.
Agora eram dois a puxar. Puxava uma mão o primeiro, puxava a outra mão o segundo. E palmo a palmo um terceiro homem foi saindo como o outro havia saído. Era aquele que por último desaparecera da aldeia.
Limpavam-se os dois de suor e poeira, quando viram que o homem também sacudia os pés, presos os tornozelos por duas mãos que despontavam da boca da serpente.
Agora que eram três a puxar, nem parecia necessário fazer tanta força. Mas era. E afinal caíram os três exaustos, e o homem que acabava de sair viu que seus tornozelos estavam presos, e os quatro começaram a puxar.
Cinco homens vieram à luz dessa forma. Na mesma ordem em que ao longo dos meses haviam desaparecido da aldeia. E, quando o quinto saiu, viu que ao redor dos seus tornozelos, como pulseiras de marfim, duas mãos delicadas e brancas se apertavam.
Foram sete a puxar. E surpresos perceberam que, à medida que os pálidos braços saíam da boca escura, encolhia-se, tragada para dentro dela mesma, a cauda da serpente.
Os braços nem haviam surgido inteiros, e já despontava uma cabeça de longa cabeleira, revelava-se um doce rosto de mulher. Nova delicadeza movia os sete homens. Quando a mulher enfim foi liberada, reconheceram a moça da aldeia, que acreditavam ter partido com um viajante. E, estando ela nua, procuraram no chão algo com que cobri-la. Mas no chão não havia nada. Nem mesmo a longa pele da serpente.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999. 

A moça tecelã - Marina Colasanti

A redendeira, de Aldemir Martins -1983
A moça tecelã


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas, se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas, tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.
Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
- Uma casa melhor é necessária - disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas, pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.
- Para que ter casa, se podemos ter palácio? - perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E, entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
- E para que ninguém saiba do tapete - disse. E, antes de trancar a porta a chave, advertiu:
- Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E, tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias". Porto Alegre: L&PM, 1999.

Menina de vermelho a caminho da Lua - Marina Colasanti


© Gaëlle Boissonnard
Menina de vermelho a caminho da Lua


Esta é uma história que não quero contar, uma pequena história sem fatos, espessa como um mênstruo, que não pretendo assumir. Tentei livrar-me dela, afundá-la e ao fastio que me causa. Não consegui. Desnecessária como é, ainda assim insiste em existir. Foi por isso que botei um anúncio no jornal. Dizia: "Procura-se narrador. Exigem-se modéstia e prazer descritivo. Pagamento a combinar. Procurar... endereço... etcétera".
Só um apresentou-se. Teria preferido, me caberia melhor, fosse mulher. Mas não tive escolha, fiquei com ele. Homem e um pouco inexperiente, me vi obrigada a insistir na minha vontade, concisão de estilo e docilidade nos ramos. E a vesti-lo com nova roupagem. É assim, pois, de saia rosa e lenço nos cabelos, que o apresento: mãe de duas filhas pequenas que pouco irão agir, levando-as para brincar num parquinho de diversões, sábado à tarde, naquela exata tarde, naquele exato momento em que a história quer acontecer, e onde ele se torna, por contrato e escolha, seu responsável.
O parque, instruo meu sócio, é pequeno, nem se poderia a rigor chamá-lo de diversões, porque lhe faltam cores e aquela mínima alegria necessária ao divertir. Tem poucos jogos. Um carrossel movido a hélice, espécie de ventilador gigante instalado ao alto em armação precária. E a grande bolha de plástico. Não quero que descreva como a luminosidade batia, se de chapa ou de lado, e não precisa perder-se em considerações românticas sobre a decadência dos parques. Quero apenas que dê a entender, através da hélice, talvez, a pobreza algo sórdida do lugar. E, por favor, não comece com referências temporais.
"Pena ter vindo de sandálias de salto alto, pensei sentindo a poeira infiltrar-se entre os dedos, viscosa pasta de suor sobre a sola. E inutilmente sacudi o pé. As meninas corriam adiante, indecisas entre os brinquedos, prontas para pedir um e outro, excitadas com a possibilidade de ganhar mais do que o previsto. Não havia muito na verdade. No espaço espremido entre dois muros, terreno baldio que aos cantos abrigava capim e cheiro de urina, girava um carrossel sem cavalos, tocando a hélice assentos de caixote. Canoas, pêndulo de correntes, cortavam o ar em foice. No stand de tiro, os alvos picotados lembravam fome de ratos. E, ao redor de um cercado, caniços com barbante esperavam pescadores da sorte para fisgar chaveiros e canecas de plástico. Ao fundo, porém, a grande bolha inflada era atração que valia seus três reais."
Não valorize demais a bolha. Ela é velha e suja como tudo mais ali, visivelmente comprada já gasta, de outro parque maior. E cuidado com os lugares-comuns, "cortar o ar" não é bom, você poderia ter usado uma forma mais nova. Nem precisa de tanta delicadeza. E melhor dizer mijo do que urina, sobretudo nesta história. Mas vamos em frente. Você, a mãe, quer pagar para que as filhas possam entrar na bolha e pular, é para isso que a bolha serve. Procura, não vê bilheteria, chama, bate palmas. Vem um homem. Eu sei que você gostaria de descrevê-lo, um velho, ou um homem assim e assado, de olhar meio enviesado, e baixinho. Mas eu não quero. Por enquanto permito apenas que diga que tinha as calças amarradas de corda. E o quanto basta.
"Branca e amarela, com visores transparentes. Ou sujamente branca, com remendos. Assim seria a superfície lunar, imenso colchão inflado onde a perna afunda, debaixo da redoma de uma bolha. Porque assim estava escrito: 'Pise na Lua por R$ 3,00'. E eu, querendo pagar a viagem das minhas duas astronautas, procurei a bilheteria, falso quiosque em meio àquele nada, e não encontrando ninguém voltei tentando atrair a atenção pela simples presença. Havia tão pouca gente no parque. Pensei em chamar, bater palmas, mas constrangida com a idéia do meu próprio alarido fiquei ali parada junto às meninas, olhando em volta com ar que pretendia autoritário, mas que sabia apenas desamparado. Seria do parque o homem que vinha sem me olhar, mais preocupado em segurar as calças?"
Não sei por que você omitiu o detalhe da corda. É forte, marca bem a personagem. Esse seu "segurar as calças" diz pouco, dilui. E não se alongue tanto. O leitor quer clima, pressão. Esqueça as descrições. Vamos, agora ponha suas filhas na bolha.
"Cabeça enviesada como um ovo no ninho dos ombros, recebeu meu dinheiro sem sorrir. E empurrando um plástico..." Pára, pára. Não quero ele sério. De jeito nenhum. Troque isso. E fundamental. O homem sorri, ri estranhamente o tempo todo, de uma forma adulcorada. E diz coisas que você não entende. Tem um ar maligno, matreiro, ou talvez servil, escolha você a palavra melhor, mas sorri sempre, com falsa bonomia. "Cabeça enviesada como um ovo no ninho dos ombros, estendeu a mão sorrindo em busca do dinheiro. Levantou um plástico mais solto, branca língua sobreposta, e forçando com os braços abriu o talho da bolha."
"Bufido, siroco pesado de suor. Este era o hálito da Lua. Escapava pelos lábios exangues da fenda, encobria em uivo as palavras que o homem dizia gesticulando, expondo a boca, nariz encrespado. Queria as horas? Apontei para o relógio. E estava aos berros tentando responder naquele corredor de vento, quando a mão, seca, agarrou de repente o braço da minha menina." Muito bem, gostei dessa mão introduzindo o desejo. Só não sei o que você vai fazer com ela, o que ela pretende. Resolva, mas lembre-se de que suas filhas não são personagens.
"Menina que já entrava. E puxando-a de volta deslizou para a perna, fechou-se no joelho, a outra mão já pronta em garra alcançando o tornozelo. "É para tirar os sapatos - ouvi enfim enquanto ele desafivelava as sandálias, e empurrando a pequena para dentro vedava talho e vento - só pode entrar descalça, senão rasga o plástico."
Ótimo, as duas estão afinal brincando, isoladas na bolha, seguras. Pode deixá-las lá, por enquanto. Não vamos precisar delas. Mas, atenção, você não tinha reparado, a teu lado, olhando pelo visor as tuas filhas que pulam, está uma menina. De vermelho, um tom carmim, vestida com uma malha, descalça. E dentes cariados. Tem 10 anos. Cuidado com essa idade, porque o olhar dela tem mais. Pequenos seios. Ela quer entrar na bolha. Quer muito. E não tem dinheiro. Mas quer, e vai ter que pagar de outro jeito. Ela sabe disso. Você, não.
"Rolam, afundam rindo as duas na pouca gravidade do colchão ondeante, braços abertos, passos embriagados, gritos presos em curva na redoma. Mas não sou só eu, mãos espalmadas sobre o visor fosco, que acompanho a viagem das meninas. A meu lado ela também olha gulosa."
"Já estava no parque quando cheguei, figurinha vermelha brincando com outras crianças nas canoas volantes. Dez anos talvez, de longe mais. O carmim do batom pesa nos lábios, mas os seios ainda não são seios, e a cintura no alto espera crescimentos. Por que tem uma máscara vermelha levantada sobre a testa, se o carnaval já passou? A tela encerada, recortada em folhas, esmaga mechas úmidas, e como uma borboleta pousada ao acaso se contrapõe ao rasgado dos olhos. Não parece sentir frio, exposta na malha curta. Olha levantada sobre a ponta dos pés, o corpo todo encostado à superfície curva, as coxas nuas coladas contra a bolha, enquanto a boca se abre amolecida de vontade."
Está ali ao teu lado, e vocês duas não têm nada a ver uma com a outra. Mas é uma criança. Não esqueça disso, ela vai ser criança o tempo todo, apesar do que vier a acontecer. E como criança se aproxima da mãe que você é, procura apoio, ou quem sabe, uma possibilidade de conseguir dinheiro. "Uma menina, como as minhas. Que me olha e sorri corada, ou maquilada? dizendo pequenas coisas sem peso, coisas a que respondo mais com a atenção do que com palavras, porque não temos muito a nos dizer. Uma menina que não é minha, e que logo abandono à carência de assunto, caladas as duas, prolongando o sorriso e desviando aos poucos a cabeça, fingindo que já não nos olhamos mais." Você não a olha diretamente para não se envolver, para não ter que incluí-la no teu sábado, elemento estranho, fora das previsões. Mas também não a larga. Debruçada sobre a esquina do teu próprio olho, sorrateira e voraz, você a acompanha sorvendo aos poucos, em lento entendimento, a metamorfose sem saltos em que um novo jogo se inicia.
Comece a movimentá-la. Afaste-a, traga-a de volta. Não a deixe ficar parada. Menina, ela vai ao espaço do parque, ao encontro dos brinquedos. Mulher, vem para junto do seu desejo, forjando a chave que irá satisfazê-lo.
"Eu a vejo, porém, quando esquecida da bolha corre breve. Vai ao carrossel, que gira sem crianças. E não podendo entrar o acompanha por fora, mão encostada apenas no rendado da cerca, rosto erguido em perfil. Os pés em trote, volteia lentamente ao compasso gritante, cavalinho mais gracioso do que aqueles enfeitados de espelhos, que o carrossel já teve em dias melhores. Mas não demora muito. Seu corpo tem urgências, tempos mais rápidos que o um-dois-três da valsa. Corre, debanda, sacode a leve crina. E, olhando a Lua de longe, se abaixa, cata uma tala de pau esquecida e a atira com violência contra o muro." Isso, ela está mordendo o freio. O corpo dela relincha, se empina, se estica. Ela galopa ao redor, preparando-se. E logo, abaixada a cabeça, manso o passo, vem buscar sua grama mais verde. "E a pressinto de volta, trazida devagar pelo desejo, chegando-se em rodeios, como se por acaso. Pôs o rosto mais manso, o olhar lavado, fez infantil o queixo."
"Vem ao visor primeiro. Como antes, levanta o corpo sobre a curva dos pés, e só agora percebo que não é necessário, baixo o olho transparente que devassa o interior da bolha. Mas encostada assim, tão debruçada, não se interessa pelo jogo infantil das duas meninas. Olha através, de lado, para o homem." É a hora da primeira tentativa. Ela não tem muita esperança de conseguir, mas vai tentar. E a maneira de testar o velho, de dizer eu quero. Invente um diálogo. Breve, porque não é com palavras que eles se entendem. Mas o quanto baste para marcar o primeiro toque. "E logo, lenta, fingindo indiferença, enroscando nas pernas cada avanço, se aproxima da entrada. A mão se esgueira por baixo da língua de plástico." Se esgueira não, se enfia, se mete, se introduz. "A mão se enfia por baixo da língua de plástico, a coxa avança devagar trazendo os quadris, o corpo todo força disfarçado as beiras do talho, tentativa de varar."
"- Não pode - diz o homem em voz baixa, sem sair do lugar. E ela se sobressalta estendendo-lhe um riso."
"- Só no próximo giro - diz ele, e mostra dentes. - Depois das outras duas que estão lá dentro."
Tudo é muito tênue ainda, muito impreciso. E difícil ver aquilo que, por proibido, se esconde. Mas aos poucos, seduzida, você vê. Na maneira que eles têm de quase não se olharem, no jeito espiralado dela, você vê. Seja bem claro agora. Não é hora de ficar rebordando estilo. A coisa é simples: um homem e uma menina enovelando um desejo. Empine os dois, dê linha a eles. Têm bem com que se enrolar. Mas trabalhe mais a menina. Quero que seja ela a primeira, a mais forte, a doce aranha.
"Vem a menina em passos lentos, fiando ao redor do homem a seda com que prenderá seu olhar. Pára, estica uma perna, arqueia a linha descalça do pé, e com unhas de esmalte traça espirais na poeira do chão. Fincada como um compasso, a outra perna é eixo do corpo macio. Não o encara. Ajeita a máscara com dedos em ponta, afofa cachos inexistentes. Depois, num repente, baixa a viseira rubra sobre o rosto, e entre frestas conduz o brilho verde dos olhos até cravar o alvo, atenção do homem que a ela se ata. É agora, bem segura a ponta da meada, que ela desce o queixo no peito marcando de leve um sorriso, e lentamente começa a girar." Não, não era você que eu queria para contar esta história. Quisesse assim tão delicada, eu mesma escrevia. Procurei, porque precisava de alguém que quisesse fermentar esterco, adubar um fato vil. E vem você aí com essa tapeçaria medieval, se esgueirando entre palavras, mascarando com imagens. E vergonha? E incompetência? O que é isso que você tem? Um narrador profissional com medo de uma menina. Mas a menina está seduzindo um velho porque quer pisar na Lua. Vê se põe isso na tua cabeça. E se passa isso para o texto. "Firme, desenhando seu próprio movimento em vinco fundo no chão, roda sobre si mesma e fecha o círculo. Até dar-lhe as costas."
"E de costas, empinados quadris, que espera a gula dele depositar-se em visgo sobre as pernas. Não tem pressa. Chupa o dedo, finge roer as unhas, quati de dentinhos cariados. Deixa que ele lhe estude bem a pele, que afunde o olhar na concha rosa, reverso do joelho, que suba denso, palmilhando as coxas, que se embrenhe um instante. Só então, súbita e recatada, puxa para baixo o cós vermelho da malha, em defesa de pudores. E levantando a cabeça me sorri, rostinho aberto."
Pronto, agora você pode ficar com vergonha. A mãe está vendo, e não faz nada. Poderia chamar a menina, conversar, pagar a entrada dela. Mas isso seria reconhecer que sabe o que está se passando, que o tempo todo, enquanto ela se jogava no perigo, você desenhava atenta aos detalhes, afiava a ponta do seu lápis na linha dos olhos, na pose do pé, mais interessada em roubar o fato do que em evitá-lo. Agora ela sorri para você, bem criança. Não quer te agradar. Quer teu álibi. Sorrindo de volta você está assinando seu atestado de inocência, afirmando que sim, ela é uma criança igual às outras, uma boa menina que merece teu carinho. E nada do que você viu aconteceu. E você, sem forças, sorri. "Uma menina como as minhas, brincando sábado à tarde no parque de diversões. Uma menina de coxas gordas que pede o meu sorriso. É isso que estou vendo, só isso. Não há por que esta secura na boca, este anotar." Ela não está com secura. Está úmida, seivando secreta ao sol do parque, presa com o homem na teia viscosa. Sua nas axilas. Ponha isso, esta palavra axilas, não, melhor, sovacos, que você odeia ainda mais, que acha tão óbvia. Eu sei que você não quer escrever como eu mando, que já se acha dono da história. Mas o fato, quem tem o fato sou eu. E sem mim você não tem nada para contar, sem mim, você não existe. "Este anotar desenhado de máscaras e pés. Nada, não há nada sobre o que fantasiar. Nenhum gesto concreto. Só uma malha vermelha esticada de leve sobre seios, e duas flores de pano amarradas ao pulso com uma fita. Pulso que o homem agora segura, sem forçar, firme apenas, debruçando-se sobre o ouvido encoberto pelas mechas. E que ela lhe entrega, dócil por momentos, logo puxando o braço e o corpo em riso de recusa, sacudindo do ouvido as suas palavras, mas trazendo no gesto a mão escura que, rápida, se encaixa na curva da cintura."
Leve ela embora, não a deixe ficar muito tempo junto dele. E por etapas que se insinua, avançando um pouco mais a cada vez, quase não concedendo, mas deixando crer. Ele não. Fica parado. E o centro, o poder. Não se move, não se apressa. Sabe que ela vai voltar até conseguir o que quer. E tem seu preço.
"Um momento, e ela já se afasta dançante, coçando na nuca o cabelo louro, vincado pela auréola do elástico. No stand de tiro, o único cliente encostou a carabina, e concentra sua atenção no alvo moreno da moça do parque, encarregada das armas. É para lá que ela vai. Eu a olho quando se aproxima, e agatanhada se dirige ao rapaz. Não sei o que se dizem. Vejo que o rapaz a segura debaixo dos braços, levantando-a devagar por trás. Até que ela, espremida entre o corpo dele e o balcão, alcance a carabina, e encostando-a no ombro possa dar seu tiro."
"Percebe o homem? Não parece. Sem virar a cabeça, sem procurá-la no olhar, move seus passos achatados recebendo dinheiro dos pais que aos poucos chegam, desafivela sandálias sorrindo, bondoso porteiro daquela Lua que ela quer acima de todos os brinquedos do parque, e que, ele sabe, a trará de volta."
"De volta vem ela, cortando em diagonal a distância. Traz na corrida outra menina, que a segue, que a segura um instante e logo foge, perseguida também. Não vão longe. No espaço junto à bolha, que agora com pais e crianças ficou subitamente apertado, se procuram em voltas, se oferecem torcendo o corpo para escapar à mão que avança, se tocam entre gritos, tentando vencer na garantia do pique. E esbarram, e tropeçam tumultuando a ordem da pequena fila já formada, até que o homem abandona seu posto junto à entrada, e exercendo publicamente seu papel de bom guardião expulsa a brincadeira."
"Afasta-se a outra menina, enquanto ela, serena e quieta, entra, como se de direito, entre as crianças descalças que, bilhete na mão, esperam bem-comportadas a vez de penetrar no cosmos. Não pede, não olha para ele. Balança de leve a cabeça acompanhando a música do parque. Depois se aquieta, a máscara vermelha já levantada em coroa. E devagar, chamando por ele em silencioso silvo, o brilho da língua descola os lábios, hesita no canto, e segue acariciante lambendo restos de batom, passando, forçando, insistindo, sugando em seu próprio sumo escamas de carmim."
"Esgotou-se o tempo lunar das minhas meninas, que paridas entre ventos pelo talho vêm a mim afogueadas. Avança ordenada a fila. Entre as outras crianças que, cabeça à frente, mergulham no bafo quente, o homem deixará enfim que ela entre. Mas será a última, retida até o fim, para que ele possa meter o braço na fenda fingindo ajuda, e alcançá-la entre plásticos. Depois deixará que pule seus vinte minutos no macio da bolha, grito afogado, sem sequer olhar no visor."
Agora saia você do parque. Mãe de dever cumprido, a caminho de casa, com as filhas pela mão. A menina vai sozinha. Para ela também o sábado acabou. Voltará no domingo, para colher mais onde plantou.
Acabou, se eu quiser. Agüentei até aqui calado, engolindo teus desaforos. Mas o fim chegou, dono da história. E não é mais uma história, é um conto. O que é que você tinha? Um fato? Mas fato todo mundo tem, acontece a toda hora na cara da gente. O que você não tem é voz para contar. E isso quem tem sou eu. Está aí teu fato, como você viu ou inventou. Mas agora é meu conto, história das minhas palavras, que eu acabo como quiser.
"É tarde quando saio, levando minhas filhas pela mão. Ela fica. Lá longe, na canoa que sobe esticando correntes, sua figura vermelha sangra o ar."

— Marina Colasanti, no livro "Um espinho de marfim e outras histórias" . Porto Alegre: L&PM, 1999