- enviado pelo autor -
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Aprendi de cor...
Sei tudo de cor...
Como Deus me ensinou à nascença.
Tudo que aprendi depois,
Veio manchado de mentira.
Levei a vida inteira a limpar...
Só agora,
Ao fim de tantos anos,
Voltei a reaver
A limpidez do que aprendi,
Mal acordava
Para nascer.
A partir daí,
Ouvi tanta coisa falsa.
Com que intuito,
Eu não sei.
Tudo é simples, afinal.
Como a água fluente,
Quando nasce
No cimo do monte.
A humanidade é um terror.
Só pensa em destruir.
A riqueza está na nascente.
Nunca a deixem inquinar.
O rio, quando nasce,
Só pensa em chegar ao mar...
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Berlim, 20 de Novembro de 2013)
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Molho de chaves...
Tenho um molho de chaves,
Religiosamente guardado,
Desde os meus verdes anos.
Desde a altura
Em que me senti entregue a mim.
Nos anos de 52...
A primeira foi da mala,
Onde transportei meu enxoval.
Quando entrei no seminário.
Mala em pinho,
De encomenda,
Ao carpinteiro amigo Do meu Pai.
Em ferro forjado.
Uma verdadeira miniatura,
Que a ferrugem come,
Da chave duma casa.
Depois, a da mala de cartão castanho.
Muito minúscula.
Pareceria agora um brinco...
Onde trazia a roupa e livros,
Quando vinha e ia no fim das férias.
A terceira, deu-ma a tropa.
Era singela...
Para um saco em pano,
Em manga d’alpaca
Até à hora solene
Em que me vi oficial.
Mais fidalga...
Luzia a prata.
Viajava em primeira,
Nos comboios
E no paquete luxuoso
Que me levou
Num camarote,
Até ao Funchal.
E dali, até à Guiné...
Muito velhinha,
Só ela sabe o que lá passei...
Depois, a do quarto,
Como dum armário,
Em Lisboa,
Que eu tirei à dona,
Onde fui hóspede,
Até casar.
Fui saltitão,
De casa em casa,
Até assentar.
Do sul ao norte,
Terão sido sete.
As casas onde eu vivi.
E criei os filhos.
Agora, em Berlim,
Onde me trouxe o vento...
Que grande molho!
Com tantas histórias...
Até à derradeira,
Parecerá de oiro...
Que me levará para a cova...
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Berlim, 19 de Novembro de 2013)
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Incontáveis distracções...
Minha casa é um mundo aberto.
Onde cabe o mundo inteiro.
Minhas portas,
Largas,
Estão sempre abertas.
Pode passar alguém cansado,
É só bater e pernoitar.
A lareira tem sempre fogo,
Nem que seja em lume brando.
Sempre à mão,
Há chá e há café.
Há cadeiras junto à lareira,
É só pôr a cafeteira ao lume
E nunca há horas para deitar.
Minhas janelas amplas
Não têm cortinas,
Além da bruma negra
Ou maresia em neblina.
Nas noites longas,
Sem o sono ou companhia.
Oiço o piar das toutinegras,
Conto estrelas ao luar...
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(Ouvindo Hélène Grimaud)
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Berlim, 19 de Novembro de 2013)
- enviado pelo autor -
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Ponto morto...
Nem demais nem de menos.
Nunca o ponto morto.
Já chega o campo santo.
Onde jaz para sempre
O forte e o fraco.
Só o plano, inerte,
Também não presta.
O equilíbrio mora
No sobe desce.
Por ele se alcandora
À felicidade.
Nem sempre alegre,
Nem sempre triste.
Tudo seja em dose certa.
É quando não há
Que se dá valor.
E, se sobrar,
Há sempre quem esteja à espera.
Fartura a mais
Só traz tristeza.
SEmear a tempo
Para colher à hora...
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(dia quente)
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Berlim, 6 de Junho de 2016)
- enviado pelo autor -
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Coro dos pardais…
Vieram em bando
De muito longe,
Do outro lado do mundo.
Pelo amanhecer dum dia,
Poisaram num castelo alto
Onde reinava em paz
Um imperador.
Todos dormiam tranquilamente.
Até as sentinelas.
Se deram as asas,
Postados em linha ao longo das ameias
E, à uma, em coro,
Começaram a cantar
O hino do amanhecer.
Em alvoroço,
Como dum sonho,
Todo o mundo acordou espantado.
Saíram à praça
Para os ouvir melhor.
Deliciados, nunca tal acontecera.
Tanta passarada linda
De lindas cores.
Que bem cantava.
É milagre! É milagre!
Gritaram todos.
Aturdida a passarada,
Fugiu em bando
Para as alturas do céu.
E nunca mais voltou.
De tristeza e silêncio
Se encheu o castelo…
Quase morreu.
Ainda hoje se festeja lá,
O imperador o quis,
Aquela invasão feliz da passarada.
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Ouvindo Rachmaninov, concerto nº 2 por Fedorova ao piano
Lindo dia de sol
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Berlim, 8 de Junho de 2016)
- enviado pelo autor -
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Arado do deserto…
Arado sem raviça
Que lavra e alisa
As areias imensas do deserto.
Desce do ar,
Rugindo forte,
Fustigando as dunas secas,
Sem espuma,
Daquele mar sem fim..
Baloiço feroz
Que vai,
Para trás e para a frente
Até as pedras se escondem
E fingem de mortas,
Como conchas inertes.
Se enfurece,
Buscando as árvores
Que não encontra.
Devorou o sal e a água.
Era vivo, agora é morto.
Vento polar,
Do sul e do norte.
Tufão em brasa,
Vilão da morte,
De leste e de oeste.
Leão rugindo
Com fome e sede.
És tu ...o vento
No deserto imenso…
.
(Dia enevoado)
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Berlim, 9 de Junho de 2016)
- enviado pelo autor -
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Suavemente...
Sem atropelos nem alvoroços,
Suplanto os ermos.
Percorros os vales.
Trepo encostas
E me alcandoro às alturas.
Vejo por cima, um mar de núvens.
E, por entre as frestas,
Miro a Terra ao fundo,
Dormindo serena e inofensiva.
Me dedico ao belo.
Como um gamo ao pasto
Donde colhe puro,
O seu alimento.
Me espanto ouvindo
O mavioso sibilar do vento,
Pelas encostas
E pelas ravinas.
Me espraio ao sol
Duma praia azul,
Sem ondas
Nem sequer areias.
Me reclino à soberba majestade
Das galáxias,
Engalanadas de colares de estrelas
E duma manta infinda enluarada.
Assisto ao nascer do sol,
Como o príncipe encantado
Que espera a sua virgem.
Fico esperando a hora morta do destino
Que me há-de levar feliz
Para o outro mundo...
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ouvindo Heléne Grimaud, tocando Rachmaninov
. dia cinzento
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Berlim, 15 de Junho de 2016)
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O Pescador ...
Partiu pálido,
De muito triste,
Cheio de esperança…
Passou a barra
E fez-se ao mar.
Lá em casa,
Apagou-se o lume.
Acabou-se o pão.
Havia fome
E um mês inteiro
Que o mar bramia.
- Hoje há mar!-
Exclamou o mestre,
Cá de fora,
Em plena madrugada.
- Ainda bem que o patrão chegou.
Parecia mesmo adivinhar.
Vestiu as calças,
O camisolão.
Enfiou o gorro.
Olhou para o berço.
Abraçou a Rosa
E partiu contente.
- Que Nossa Senhora vos proteja
E traga breve!...
- Exclamou a Rosa a soluçar.
De velinha acesa,
A tremeluzir,
nunca apagou.
- Avé Maria!...
Não secou os olhos,
Até ele vir...
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Ovar, 18 de Junho de 2016)
- enviado pelo autor -
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Encontrei em mim
Numa das minhas digressões mentais,
Encontrei em mim,
Um recanto esquecido.
Abri-lhe a porta.
Fiquei espantado.
Surpresa inaudita.
Ali jazia dormente,
A agressividade
Que pensava não tinha.
Toda a vida esperou intervir.
Cansada,
Supôs-se em desprezo,
Deitou-se à sombra
À espera da morte...
- Joaquim Luís Mendes Gomes (Tapada de Mafra, 10 de Agosto de 2016)
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