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Ferreira Gullar explica como criou 'Poema sujo'



Publicado originalmente em 1976, Poema sujo transformou a paisagem da poesia brasileira com sua torrente arrebatadora de versos, expressão máxima de uma subjetividade convulsa pela atmosfera sufocante da ditadura.

O poema foi escrito na Argentina, onde o autor se encontrava exilado. “Sentia-me dentro de um cerco que se fechava. Decidi, então, escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”, escreveu Gullar. “Imaginei que poderia vomitar, em escrita automática, sem ordem discursiva, a massa da experiência vivida - lançar o passado em golfadas sobre o papel e, a partir desse magma, construir o poema que encerraria a minha aventura biográfica e literária.” Quarenta anos depois, o poema continua atual como nunca.
Neste vídeo, Ferreira Gullar explica como criou o poema:



*Publicado originalmente no site da editora Companhia das Letras, em 25.10.2016.

Friedrich Nietzsche - poemas

Theo van Rysselberghe - yellow bouquet - 1917
poemas de friedrich nietzsche


ECCHE HOMO
Sim! Eu sei que me resume:
Insaciado como o lume,
Eu brilho e ardo-me inteiro.
Luz se torna quanto eu faço,
Cinza tudo após que eu passo -
O Fogo sou verdadeiro!
- Friedrich Nietzsche, em "Poesia de 26 séculos: De 'Arquíloco a Nietzsche'". [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. Colecção 'Antologias Universais', 1. Porto: ASA, 2001.

***

VENEZA
Na ponte eu estava
Ao moreno anoitecer.
Distante veio um canto:
Douradas gotas corriam
Pela tremente planura.
Gôndolas, luzes, música -
Ébrias vogavam para o crepúsculo...

A minh'alma, uma lira,
Cantava-se, invisivelmente vibrada,
Oculta canção de gondoleiro,
Tremente de irisada beatitude -
Mas alguém ouvia?
.

VENEDIG
An der Brücke stand
jüngst ich in brauner Nacht.
Fernher kam Gesang:
goldener Tropfen quoll's
über die zitternde Fläche weg.
Gondeln, Lichter, Musik -
trunken schwamm's in die Dämmrung hinaus
...
Meine Seele, ein Saitenspiel,
sang sich, unsichtbar berührt,
heimlich ein Gondellied dazu,
zitternd vor bunter Seligkeit.
- Hörte jemand ihr zu? ...
- Friedrich Nietzsche, em "Poesia de 26 séculos: De 'Arquíloco a Nietzsche'". [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. Colecção 'Antologias Universais', 1. Porto: ASA, 2001.

***

OS MAUS
Temeis-me?
Temeis o arco tenso?
Ah, quem pudesse assim dispor a flecha!

Ah, meus amigos!
Onde quem bom era dito?

Onde estão todos os "bons"?
Onde, onde, a inocência das mentiras?

Quem uma vez olha o Homem
A Deus vê como Bode.

O poeta capaz de mentir
Conscientemente, voluntariamente,
Só ele é capaz de dizer a Verdade.

"O Homem é mau",
O que os Mais Sábios disseram -
Para consolar-me.
- Friedrich Nietzsche, em "Poesia de 26 séculos: De 'Arquíloco a Nietzsche'". [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. Colecção 'Antologias Universais', 1. Porto: ASA, 2001.

***

ATENÇÃO: VENENO!
Que não me leia mais quem não se ri aqui!
Porque o diabo leva quem aqui não ri.
- Friedrich Nietzsche, em "Poesia de 26 séculos: De 'Arquíloco a Nietzsche'". [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. Colecção 'Antologias Universais', 1. Porto: ASA, 2001.

***

O CANTO E O PENSAMENTO
Ao Princípio era o Ritmo, a Rima a terminar,
E a Música entra nisto qual seu almo Pio:
A tão divino riquiquio
Chama-se Canto. Mas, para encurtar,
Um Canto, isso é "Palavras para pôr em Música".

O Pensamento é de uma outra esfera.
Se ele troça, ou se exalta, ou se encanta,
Jamais, é claro, um pensamento canta.
É "Sentido sem Canto" o Pensamento.
As duas coisas juntas: minha audácia é tanta?
- Friedrich Nietzsche, em "Poesia de 26 séculos: De 'Arquíloco a Nietzsche'". [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. Colecção 'Antologias Universais', 1. Porto: ASA, 2001.

***

SILS-MARIA
Aqui sentado à espera, sim - de nada,
E além do Mal e do Bem, alma dada

Ora à luz, ora à treva, só brincando,
Ou mar, ou meio dia, ou tempo passando -

De súbito o Uno e o Dois se bipartiu -
E Zaratustra diante de mim surgiu.
- Friedrich Nietzsche, em "Poesia de 26 séculos: De 'Arquíloco a Nietzsche'". [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. Colecção 'Antologias Universais', 1. Porto: ASA, 2001.

***

A MINHA FELICIDADE
Depois que me cansei de procurar,
A descobrir aprendi.
Depois que o vento me foi contrário,
Navego com todo o vento.
- Friedrich Nietzsche, em "Poesia de 26 séculos: De 'Arquíloco a Nietzsche'". [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. 2ª ed., Coimbra: Fora do Texto, 1993.

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Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Cleonice Berardinelli celebrando 100 anos - 'ensinar é preciso'

Cleonice Berardinelli - foto: Fabio Seixo/O Globo
Cleonice Berardinelli uma vida dedicada com paixão e generosidade à literatura portuguesa, os seus estudos a Camões, Gil Vicente, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, tendo sido sobre este último a sua tese de doutoramento: “Poesia e poética de F.P.”. Entre os inumeráveis estudos à crítica literária, saliente-se o volume “Estudos Camonianos” (ed. revista e ampliada, 2000), “Poemas de Álvaro de Campos” (ed. crítica, 1990), “Fernando Pessoa, antologia poética” (2012). Dedicou também a sua atenção a autores contemporâneos, como, por exemplo, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, José Rodrigues Miguéis ou Fernando Namora.

2016 - centenário de cleonice berardinelli

À Cleonice
   Pouco te importe o meu nome.
   Não vale nada.
   E nada que é, se consome
   E apaga. Aqui
   Vale apenas, enlevada,
   A alma que deixo ajoelhada
   E a Deus, lembrando o teu nome,
   Reza por ti

                                                    Alberto de Oliveira
                                                              S. Paulo, 16 de Março de 1926
ENTREVISTA CLEONICE BERARDINELLI
Ensinar é preciso

[entrevista concedida a Alberto da Costa e Silva, Luciano Figueiredo e Marcello Scarrone - Revista de História/Biblioteca Nacional - 2010]

Vira e mexe alguém lhe pergunta: “Por que a senhora continua lecionando?”. A resposta, Cleonice Seroa da Mota Berardinelli, professora emérita da UFRJ e da PUC-Rio, guarda na ponta da língua: “A aula é o começo de tudo. É a raiz de tudo que eu fiz”. E não foi pouco. Afinal, estamos nos referindo à maior lusitanista brasileira, especialista em Camões e Fernando Pessoa, que, do alto de seus (94 anos - hoje 100) bem vividos, já formou gerações e mais gerações de professores e intelectuais – somente na Academia Brasileira de Letras, são quatro ex-alunos de Dona Cléo, como seus discípulos a chamam carinhosamente.  

Carioca de 1916, Cleonice é filha de um oficial do exército apaixonado por Literatura. Tal pai, tal filha. Entre Rio e São Paulo, ainda menina, teve alguns momentos de fama como declamadora de poesias. “Acho que nasci com uma dose de “mostracite” acentuada”, diz ela, arrancando algumas das muitas risadas que pontuam esta conversa. Em 1938, Cleonice se formou, por acaso, em Letras na USP. Viajou pela primeira vez para Portugal em 1959. Sua dissertação sobre Fernando Pessoa é nada mais nada menos que a segunda do mundo.

Cleonice Berardinelli
Simpática, e com uma memória de dar inveja a elefantes, ela conta, com precisão nas datas e nos nomes, sobre os professores que marcaram sua trajetória, como nasceu a paixão por Pessoa e Camões, a amizade com Manuel Bandeira, a entrada na ABL, entre outros causos. Ao fim, agradecendo aos entrevistadores pela “tarde maravilhosa”, Dona Cléo ainda nos ensina que “trabalhar naquilo que se gosta é realizar-se”.

RH – A senhora esperava entrar para a Academia Brasileira de Letras aos 93 anos?

CB - Não. Jamais pensei na Academia. Jamais. O fato é que tenho quatro ex-alunos na Academia. Três da universidade, que são Antonio Carlos Secchin, Domício Proença Filho e Ana Maria Machado. E tenho um ex-aluno dos bancos do Colégio Melo e Souza, o Afonso Arinos. Secchin foi quem telefonou para mim numa tarde e disse: "Cleonice, olhe cá, sabe que a vaga da Zélia Gattai está livre?". Eu não sabia. "Pois é. E há um número considerável de candidatos, mas eu acho que você devia se inscrever". Eu respondi: “Ah, mas não tem a menor possibilidade. Não, nunca pensei nisso. Não, Antonio Carlos. Eu não quero". Ele insistiu, insistiu, insistiu... Falou comigo mais de uma hora sem parar, como uma matraca ligada. Ao fim disso, para me livrar dele, eu disse: "Está bem, Antonio Carlos. Vou me candidatar”. Mandei o pedido para o Cícero Sandroni, que, na época, era o presidente. Mas, no dia seguinte, me arrependi profundamente.

RH – Por quê?

CB - Sabe essa coisa... Você toma conhecimento de que algo qualquer na sua vida está errado ou diferente? Fiquei pensando: “Entrar para a Academia? Mas eu estou doida... Vou entrar para Academia nenhuma”. Saí correndo da cama, fui para a mesa, peguei uma caneta e escrevi outro cartão: "Prezado Presidente etc. Escrevo-lhe para dizer que estou me descandidatando à Academia. Desculpe, mas, como sabe, e os franceses dizem muito expressivamente, souvent les femmes varient [As mulheres frequentemente variam]. E eu, de ontem para hoje, variei e estou desistindo da Academia”. O Cícero Sandroni achou impagável, naturalmente, o meu cartão. O que me disseram é que ele tirou uma cópia e distribuiu na sessão seguinte. E disse que não aceitava a minha rescisão de contrato e tal. E eu acabei entrando, não na vaga da Zélia Gattai, mas na de Antonio Olinto. Quando abriu a vaga, lá veio o Antonio Carlos Secchin. E dessa vez me empurrou mesmo. E eu fui.

RH – E o poeta Alberto de Oliveira, fundador da cadeira que a senhora ocupa, chegou a conhecer?

CB – Contei esta história no dia de minha posse na ABL. Eu conheci o Alberto de Oliveira em março de 1926. Eu tinha 10 anos recém-completados. Nós estávamos em São Lourenço, num hotel com cara de pensão antiga, quando vi chegar uma bagagem alinhadíssima. E atrás da bagagem estava um senhor muito distinto, com grandes bigodes negros e cabeleira branca. Então, eu olhei para aquela bela figura e disse: "Gente, mas é a cara do Alberto de Oliveira." A essa altura, eu declamava versos dele.

RH – E o convidou para conversar, não é?

CB – Sim. Depois do jantar, as moças começaram: "Cleo, você tem coragem de ir lá convidá-lo?”. Eu tinha, e fui, toda pimpolha: "Boa noite, doutor Alberto de Oliveira". "Minha menina, quem lhe disse que eu sou Alberto de Oliveira", ele respondeu. "Ninguém me disse, mas eu li nas suas malas. Não adianta disfarçar porque nós sabemos que é. E eu vim para convidá-lo a não ficar sozinho aqui e ir conversar conosco". "Minha filha, quem quer a conversa de um velho? Não tem graça nenhuma". "Nós achamos que tem muita graça e queremos que o senhor vá. E o senhor não é velho". Aí ele ficou todo satisfeito, com seus bigodões, e veio comigo, sentou-se e ficamos de papo ali. Depois de ter declamado quase todas as poesias que eu sabia, o convenci a dizer alguma. Com uma vozerona, ele declamou um poema de Olavo Bilac: "Se por vinte anos, nesta furna escura,/ deixei dormir a minha maldição,/ hoje, velho e cansado de amargura,/ minha alma se abrirá como um vulcão. E, em torrentes de cólera e loucura,/ sobre a tua cabeça ferverão/ vinte anos de silêncio e de tortura,/ vinte anos de agonia e solidão. /Maldita sejas pelo ideal perdido!”.

RH – Como a senhora adquiriu o gosto pela Literatura?

CB – Meus pais, embora muito cuidadosos, não tinham nenhuma especialização nas áreas pelas quais eu passeei. Meu pai era oficial do Exército. Minha mãe era dona de casa, tinha se casado aos 17 anos. Éramos três crianças em casa. Eu era a mais velha. E fui a que fiquei. Os outros já se foram. Mas meu pai e minha mãe eram apaixonados por poesia. Isto eles nos transmitiram. Eu e meus irmãos tínhamos a mania de sermos sempre os primeiros alunos da classe. Essa foi a formação que eu tive, em que se havia alguma insistência maior era na Literatura, porque nós líamos sempre, e na poesia, porque papai, sobretudo, me dava poemas para decorar. E as visitas para quem eu declamava as poesias diziam que eu levava jeito, que podia fazer parte de uma festinha de caridade... Eu era completamente desinibida. Acho que eu nasci com uma dose de "mostracite" acentuada.  

RH – A senhora chegou a estudar a declamação de poesias?

CB– Sim. Um belo dia, meus pais resolveram procurar uma professora para mim. E eles encontraram uma de declamação cujo nome eu gosto de repetir: Noemia do Nascimento Gama. Uma senhora de uma distinção, de uma inteligência, de uma percepção da poesia... Sob a tutela dela, eu entrei, digamos, em uma vida de declamadorazinha mirim. Em todas as audições da minha professora, eu declamava e era muito aplaudida. E os jornais começaram a dar notícias. Claro, comecei a ficar meio vaidosa. Depois, ainda descobriram que minha irmã Hilda também dizia versos muito bem. Então faziam os confrontos: "A Cleo já tem uma irmãzinha que vai pela mesma senda”.

RH – Então, a senhora entrou na Literatura pelo caminho da menina prodígio.

CB - Da menina prodígio e dos pais encantados (risos). Porque os pais valorizavam muito isso. Ficavam muito vaidosos, muito contentes. Era só chegar visitas em casa que eles me chamavam para declamar. Eu cheguei a saber uns 200 poemas de cor. E tenho o caderno onde meu pai, com uma letra linda, copiava para mim. Isto porque eu tinha uma letra medonha. Era um terror. Aliás, esta é uma história curiosa. Naquele tempo, a nota mais alta no Colégio era 12. Eu tirava 12, 11,9, 11,8 e 5. Cinco em caligrafia. Era uma desgraça. Até o dia em que mudei de colégio. Lá, vi uma menina escrevendo com o papel inclinado para o lado. Eu disse a ela: "Pode?", e ela disse: "Pode o quê?", "Escrever com o papel torto?", "Não está torto. É como eu sei escrever". Eu, então, virei o papel e comecei a escrever. E a minha letra – eu tinha 12 anos – assumiu quase que instantaneamente a cara que tem até hoje.

RH – De onde veio a decisão de cursar Letras?

CB – Foi meio por acaso. Na verdade, eu era completamente apaixonada por Matemática. Mas não existia faculdade de Matemática naquela época. O mais perto disso era a Engenharia. Então, preparei-me para o vestibular de Engenharia. O professor de Língua e Literatura, Antonio Sales Campos, não se conformava com a minha decisão e tentava me convencer. Quando fui aprovada no ginásio, foi ele quem datilografou o meu diploma. "Agora, a senhora vá se matricular na faculdade de Filosofia", ele disse. E eu respondi: "Enganou-se, professor. Eu não tenho uma mente filosófica”. "Ah, mas a faculdade não é só de Filosofia. A faculdade chama-se Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. E é para Letras que a senhora vai". Eu achei graça e saí, vim para casa almoçar. A família já estava sentada. Eu contei para a minha mãe a história toda, e ela me disse: "Está aí, minha filha. Isto é que é profissão para uma menina”. Ela mandou o meu pai me matricular logo depois do almoço. Papai não disse uma, nem duas palavras, e eu não reclamei, sentei, almocei, me arrumei, e o acompanhei até a Faculdade de Letras.

RH – Gostava da faculdade?

CB – Era ótimo. Eu tive professores incríveis, como o Fidelino de Figueiredo. Uma maravilha de sabedoria, de delicadeza, de prudência, de tudo quanto se possa imaginar de bom. A USP já era uma grande universidade. Eu era aluna de Giuseppe Ungaretti e conversava com Lévi-Strauss e Fernand Braudel pelos corredores. Era uma maravilha. Realmente conheci gente da melhor qualidade. E o Fidelino era uma espécie de segundo pai. Ele foi meu professor de Literatura Brasileira e Portuguesa. Naquele tempo, o mesmo professor lecionava um semestre de portuguesa e um de brasileira. Claro que o curso que ele deu de brasileira não atingiu as alturas da portuguesa, mas ele privilegiou Machado de Assis. E disse coisas inteligentíssimas sobre Machado.

RH - Quando foi sua primeira viagem a Portugal?

CB - Em 1959. Foi também a primeira vez que fui à Europa. Fiquei 25 dias em Portugal. Eu tinha uma bolsa portuguesa do Instituto de Alta Cultura, que depois veio a se chamar Instituto Camões. As portas começaram a se abrir a partir desta primeira viagem. E minha tese sobre Fernando Pessoa veio um pouco depois.

RH – Tratava-se de uma das primeiras teses a respeito de Fernando Pessoa, não é?

CB - No Brasil, era a primeira. Mas era a segunda no mundo, depois somente de “Diversidade e unidade em Fernando Pessoa”, de Jacinto do Prado Coelho. Eu tinha lido muito bem esta obra, fiquei impressionada, e fiz a minha. Tentei fugir o máximo possível do que dizia Prado Coelho. Mas é claro que nós coincidíamos em uma porção de julgamentos sobre o Pessoa.

RH – O que a senhora ainda guarda deste seu primeiro trabalho?

CB – O que considerei e considero até hoje como sendo o cerne da poesia de Fernando Pessoa é o que eu chamo "a febre do além". Eu chamei assim porque há um soneto de Fernando Pessoa, um poema, quase soneto, que se chama Febre de além. É um dos primeiros versos do poeta, algo em torno de 1914. Ele fez do poema a fala de Dom Fernando, o Infante Santo, que morreu no exílio na África. O poema dizia: "E essa febre de além que me consome, e este querer grandeza, são seu nome dentro em mim a vibrar". Veja bem: acho que Fernando Pessoa escreveu esses versos não para Dom Fernando, mas para exprimir-se "dessa febre de além que me consome". Pois vamos encontrar por toda a obra de Fernando Pessoa esse desejo de Deus, de transcendência, metafísico. Não fica por aqui, não fica cá embaixo. Procura alçar-se. Isso é o que acontece. E devo esse olhar a Thiers Martins Moreira, de quem fui assistente na Universidade do Distrito Federal, no Rio.

RH – Por quê?

CB – Era admirável o conhecimento que Thiers tinha de Fernando Pessoa. No princípio, minha referência era Fidelino de Figueiredo. Essa é a minha história sagrada. Mas Fidelino só foi até Eça de Queiroz, porque não dava tempo para mais. Um semestre para cada Literatura; era por aí que se parava naquele tempo. Não entrávamos plenamente no século XX. Então, um belo dia, o Thiers se virou para mim com um livrinho na mão e disse: "O que você pensa deste?". Eu olhei e estava escrito Fernando Pessoa, antologia de Casais Monteiro. "Eu não penso nada. Não conheço. Não sei quem é", respondi. Ele olhou para mim e disparou: "Uma falha na sua cultura. Leve esse livro, leia e depois venha conversar comigo". Levei, li e conversei com ele enquanto esteve  vivo.

RH - E suas relações com o Camões?

CB - Ah, essas são mais antigas. O meu amor por Camões começou na Escola Brasileira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Eu tive uma professora de Português que se chamava Fernanda Bastos Casimiro. Ela era portuguesa, formada por Coimbra. Foi quando li pela primeira vez Os Lusíadas. Isso sem contar que, quando eu ainda era menina, já havia decorado alguns sonetos dele. E conhecia também um soneto lindo de Manuel Bandeira dedicado a Camões: "Quando n’alma pesar de tua gente, o vulto da apagada e vil tristeza". Eu cheguei a declamá-lo na faculdade.

RH – A senhora fez um programa de rádio com o Manuel Bandeira, não é?

CB – Sim. Gostava muito dele. Um dia, ele já era meu amigo, cheguei e disse: "Manuel, eu sei que você é amigo de Murilo Miranda, diretor da Rádio MEC. Você não pode dizer a Murilo que fica muito mal que a Rádio MEC do Brasil tenha um programa sobre Shakespeare, outro sobre Dante e não tenha nenhum sobre Camões?". Ele concordou comigo e me perguntou se eu faria o programa. No dia seguinte, ele liga para mim: "Cleonice, Murilo está nos esperando na Rádio MEC. Vamos lá". Combinados tudinho. O programa teria o nome de “Camões, poeta de todos os tempos”, e o primeiro episódio seria uma conversa entre mim e o Bandeira. Eu engatei e fui fazendo os programas. Fiz Os Lusíadas inteiro. Estamos falando de 1962. Perdeu-se esse disco. Eu não me conformo. Não há um poeta de quem eu tenha sido tão amiga como fui do Manuel Bandeira.

RH – Seus alunos se interessam pela Literatura Portuguesa?

CB - Eu acho que consigo injetar nos meus alunos essa minha paixão. Em grande parte deles, né? Afinal, já são 70 anos de magistério. Bom, eu tenho uma ex-aluna, que, para mim, é o meu reflexo. E eu sempre digo a ela que fico muito orgulhosa de dizer isso. Ela se chama Teresa Cristina Cerdeira, uma especialista em Saramago. Ela fez a primeira tese que se escreveu sobre Saramago. E ele veio ao Brasil assistir. Foi uma coisa linda. Ela é uma pessoa excepcional que tem essa capacidade de se apaixonar. Agora, eu entendo a sua pergunta. E vejo um certo perigo hoje.

RH – Qual?

CB - Os mais jovens professores só querem dar atualidade, os contemporâneos, o século XXI e o XX. Eu vejo isso na PUC, por exemplo, que é onde eu continuo dando aulas. Desde 1970, eu só dou cursos de pós-graduação. São cursos monográficos. Eu escolho a matéria que vou dar e me mantenho sempre do começo até o XIX, porque dificilmente há quem dê. Isso é que eu considero triste.

RH - Por quê?

CB - Porque a Literatura Portuguesa antiga é a base de tudo. Nós chegamos até aqui porque existiu lá atrás um sujeito chamado Camões. Ninguém mais conhece Dom Diniz, que escreveu as cantigas de amor mais lindas. Então, tudo isso é o lastro de conquistas seguidas até se chegar ao século XVI, com os artistas já considerados clássicos. Até chegar o Gil Vicente, foi preciso passar antes pelos esboços de teatro de Henrique da Mota, por exemplo.

RH - Nós estaríamos perdendo o sentido da História da Literatura?

CB - Exatamente. Estamos abandonando estes alicerces. É como se fosse possível construir um edifício no ar. E a Literatura Portuguesa antiga tem coisas especialmente bonitas. Vejam estes versos: “Senhora, partem tão tristes / meus olhos por vós, meu bem, / que nunca tão tristes vistes / outros nenhuns por ninguém. / Tão tristes, tão saudosos / Tão doentes da partida / tão cansados, tão chorosos / Da morte mais desejosos / cem mil vezes que da vida. / Partem tão tristes os tristes, / tão fora de esperar bem / que nunca tão tristes vistes / outros nenhuns por ninguém”. É atualíssimo, não é? Pois estamos falando de século XV, de um sujeito que se chamava João Roiz de Castelo Branco. É uma beleza! É a coisa mais linda do Cancioneiro Geral!

Cleonice Berardinelli e Maria Bethania
RH – Como vai a História da Literatura nas universidades?

CB – Vai mal. Vou lhe dar um exemplo. Ainda hoje, recebi, por e-mail, uma dessas brincadeiras que agora se fazem e se mandam. Olha, era uma delícia, feito com toda essa terminologia atual com que se preparam programas de cursos. As interdependências, as inter-relações, as parassínteses não sei de quê. Mas é um repositório de pernosticismos, de coisas complicadas. E quando me pedem para preparar um curso, "faça um programa para isso, assim, assim", eu não sei mais fazer. Aquela história, eu não sei. Claro que eu conheço as palavras, mas eu nunca as poria num programa. Nunca. Então, estamos ficando assim, muito pernósticos, muito pedantes, tecnicistas.

RH - O que significa lecionar?

CB - Tudo. A aula é o começo de tudo. O que eu escrevi foi a partir do que eu estudei para ensinar. Os ensaios que eu escrevi nasceram na sala de aula. A minha atividade como professora, como didata, é a raiz de tudo que eu fiz, de tudo que eu escrevi. Uma pessoa que me entrevistava me perguntou: "Como pode a senhora chegar a esta idade com este entusiasmo, esta paixão pelo que faz?". Eu disse: "Porque nunca parei de dar aulas e nunca parei de fazer exatamente aquilo de que eu gosto". Então, trabalhar naquilo que se gosta é realizar-se. É a impressão que eu tenho. Se me obrigassem a pentear cabelos, eu seria uma desgraçada total. No terceiro cabelo, eu já estaria louca. Eu penso nisso porque sempre detestei me pentear.
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Verbetes

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Poeta italiano, ensinou sua língua materna na Universidade de São Paulo entre 1936 e 1942. É autor, entre outras obras, de Il dolore (1947).

Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
Antropólogo francês, um dos intelectuais mais influentes do século XX, considerado fundador da Antropologia Estruturalista. Foi professor na USP entre 1935 e 1939, e de sua experiência brasileira nasceu o livro Tristes Trópicos (1955).

Fernand Braudel (1902-1985)
Historiador francês, autor do grande clássico O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II (1949). Foi professor na USP entre 1935 e 1937.

Thiers Martins Moreira (1904-1970)
Escritor nascido na cidade de Campos (RJ), foi catedrático de Literatura Portuguesa na Universidade do Rio de Janeiro (mais tarde Universidade do Brasil, atual UFRJ).  Autor, entre outros livros, de O Menino e o Palacete (1954).

Henrique (ou Anrique) da Mota (séculos XV – XVI)
Poeta satírico português, frequentou as cortes de D. João II, D. Manuel e D. João III. Foi também negociante e magistrado.  Entre suas composições está a Farsa do Alfaiate.
:: Fonte: Revista de História


Fernando Pessoa, Camões e Outros, por Cleonice Berardinelli (Bloco 1 de 3).

Bloco 1

Bloco 2

Bloco 1

Breve biografia Cleonice Serôa da Motta Berardinelli nasceu no Rio de Janeiro, em 1916. Formada em Letras Neolatinas pela Universidade de São Paulo (USP), Cleonice é atualmente professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Uma das maiores autoridades em literatura portuguesa do Brasil e pioneira no estudo de Fernando Pessoa (sua dissertação sobre o poeta, defendida em 1959, foi a segunda do mundo), Cleonice destaca-se também por suas publicações sobre Luís de Camões e Gil Vicente. É autora, dentre outras obras, de: Estudos camonianos (1973); Obra em prosa: Fernando Pessoa (1974); Estudos de Literatura Portuguesa (1985); Álvaro de Campos – A passagem das horas (1988); Poemas de Álvaro de Campos (1990) e Fernando Pessoa: outra vez te revejo... (2004). Em 2009, Cleonice Berardinelli foi eleita imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Fonte: Casa da Palavra

Cleonice Berardinelli
Obra da autora
:: Cantigas de trovadores medievais em português moderno.  Rio de Janeiro: Organizações Simões, 1953.
::  Mário de Sá-Carneiro: poesia.  (Antologia, com introdução e notas de Cleonice Berardinelli).  Coleção "Nossos Clássicos". Rio de Janeiro: Agir, 1958. Edição em novo formato, com novos critérios, revista, acrescentada e corrigida e com bibliografia atualizada. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
:: Auto de Vicente Anes Joeira. (Edição crítica com Introdução e notas de Cleonice Berardinelli).  Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1963. 
:: João de Deus: poesia. (Antologia, com introdução e notas de Cleonice Berardinelli).  Coleção "Nossos Clássicos". Rio de Janeiro: Agir, 1967.
:: Autos de António Ribeiro Chiado. (Edição crítica com Introdução e notas de Cleonice Berardinelli  e Ronaldo Menegaz). vol. I., Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1968.
:: Antologia do Teatro de Gil Vicente. (com introdução e notas de Cleonice Berardinelli ).  Rio de Janeiro: Grifo, 1ª ed., 1971.  2ª ed., 1974.
:: Estudos Camonianos.  Rio de Janeiro, MEC - F.C.R.B., 1973. 
:: Gil Vicente: autos.  (Antologia, com introdução e notas de Cleonice Berardinelli).  Coleção "Nossos Clássicos", Rio de Janeiro: Agir, 1974.
:: Fernando Pessoa. Obras em prosa.  (Introdução e notas de Cleonice Berardinelli). Rio de Janeiro: Aguilar, 1975.  Nova Aguilar, 10ª ed., 2004.
:: Fernando Pessoa. Alguma Prosa.  (Seleção, Introdução e notas de Cleonice Berardinelli). Rio de Janeiro: Aguilar, 1976. Nova Fronteira, 6ª ed., 2001.
:: Sonetos de Camões.  (Edição crítica, introdução e notas de Cleonice Berardinelli).  Rio de Janeiro: Centre Culturel Portugais, em convênio com a Fundação Casa de Rui Barbosa, 1980. 
:: Fernando Pessoa. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1ª ed., 1980, 10ª ed., 2002.
:: Antologia do teatro de Gil Vicente. 3ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, 1984. 
:: Estudos de Literatura Portuguesa.  Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985.
:: Antologia da poesia de José Régio.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 2ª ed., 1986.
Cleonice Berardinelli
:: Os melhores poemas de Bocage. (Seleção de Cleonice Berardinelli).  São Paulo: Global Editora, 1987, 3ª ed., 2000.
:: Álvaro de Campos. A passagem das horas.  Edição crítica.   Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988. 
:: Poemas de Álvaro de Campos. (Edição crítica com Introdução, notas e Aparato Genético de Cleonice Berardinelli).  Série Maior. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. 
:: Poemas de Álvaro de Campos.  (Edição de Cleonice Berardinelli).  Série Menor. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda  1992. 
:: Teatro de António Ribeiro Chiado. (Edição de Cleonice Berardinelli e Ronaldo Menegaz).  Porto: Lello & Irmão-Editores, 1994. 
:: Poemas de Álvaro de Campos. (Fixação do texto, Introdução e Notas de Cleonice Berardinelli).  Rio de Janeiro:  Nova Fronteira, 1999. 
:: Estudos Camonianos. (Nova edição revista e ampliada de Cleonice Berardinelli). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
:: Fernando Pessoa: Outra vez te revejo. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004.
:: Mensagem de Fernando Pessoa. (Organização de Cleonice Berardinelli e Maurício Matos). Edição preparada segundo o exemplar de 1934 corrigido pelo punho do poeta. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.
:: Mário de Sá-Carneiro: antologia1ª ed., Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015. 518p.
:: Fernando Pessoa. Mensagem1ª ed., Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014. 176p .
:: Cinco séculos de Sonetos Portugueses - de Camões a Fernando Pessoa. 1ª ed., Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. 367p .
:: Gil Vicente: autos1ª ed., Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012.
:: Fernando Pessoa: antologia poética1ª ed., Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012.
:: Poemas de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. v. 1. 462p .
Capítulos de livros, ensaios, resenhas, prefácios em revistas e obras coletivas, no Brasil e no Exterior.
:: Fonte: ABL

Missa da Terra sem Males - Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra

Pés, Portinari - 1938
"América Ameríndia, 
ainda na Paixão: 
um dia tua Morte 
terá Ressurreição!"


Missa da Terra sem Males

Missa da Terra Sem Males
"A 22 de abril de 1979, na Catedral Metropolitana de São Paulo, 7 mil pessoas assistiram um memorável evento: missa de memória, remorso, denúncia e compromisso. As imagens da missa se mesclam cenas filmadas nas aldeias guaranis do Paraguai. Na mística guarani, a Terra sem males é a Terra Nova, o Novo Céu que o Pai Deus ajudou dar a seus filhos. A utopia possível, construída pela luta de todos os oprimidos." 
Produção: Verbo Filmes -1979 
Material digitalizado pelo Armazém Memória do acervo de VHS da Associação Brasileira de Vídeo Popular - ABVP, pertencente à Escola Nacional Florestan Fernandes.
Fonte: Catálogo Cedefes


Missa da Terra sem Males
(texto integral)

Abertura

Todos (Canto)
Índio com cesta, Portinari - 1937

Em nome do Pai de todos os Povos, 
Maíra de tudo, 
excelso Tupã.

Em nome do Filho, 
que a todos os homens nos faz ser irmãos. 
No sangue mesclado com todos os sangues. 
Em nome da Aliança da Libertação. 

Em nome da Luz de toda Cultura. 
Em nome do Amor que está em todo amor. 

Em nome da Terra-sem-males, 
perdida no lucro, 
ganhada na dor, 
em nome da Morte vencida, 
em nome da Vida, 
cantamos, Senhor!

Memória Penitencial

Todos (Canto)

Herdeiros de um Império de extermínio,
filhos da secular dominação,
queremos reparar nosso pecado, 
viemos celebrar a nova opção: Ressurreição.

Na Ceia da Morte e da Vida,
a antiga memória perdida;

a morte dos Povos do passado
na Festa do Povo esperado: Ressurreição;

a História da América inteira,
nesta Memória de Libertação;

na Páscoa do Ressuscitado,
a Páscoa Ameríndia
ainda sem ressurreição... ressurreição,
sem ressurreição...

Solo indígena, ou recitado (R) ou cantado (C). Todos (Canto)

Eu sou América, 
sou o Povo da Terra, 
da Terra-sem-males, 
o Povo dos Andes, 
o Povo das Selvas, 
o Povo dos Pampas, 
o Povo do Mar...

(R)

Do Colorado, 
de Tenochtitlan, 
do Machu-Pichu, 
da Patagônia, 
do Amazonas, 
dos Sete Povos do Rio Grande...

(Vozes individuais)

Eu sou Apache. 
Eu sou Azteca. 
Eu sou Aymara. 
Eu sou Araucano. 
Eu sou Maia. 
Eu sou Inca. 
Eu sou Tupi. 
Eu sou Tucano. 
Eu sou Yanomani. 
Eu sou Aymore. 
Eu sou Irantxe. 
Eu sou Karaja. 
Eu sou Terena. 
Eu sou Xavante. 
Eu sou Kaingang.

Solo (R)

Eu, Guarani. 
E é com canto Guarani 
que todo o resto do Continente, 
todos os povos do meu Povo, 
cantam agora seu lamento.

(C)

Irmãos, vindos de fora, 
se quereis ser irmãos, 
escutai o meu canto!

Todos

Queremos escutar, 
de coração aberto, 
com a mão do remorso 
sobre a ara do peito. 
Queremos reparar 
a História desta Terra, 
massacre secular.

Solo (R)

Eu tinha uma cultura de milênios, 
antiga como o sol, 
como os Montes e os Rios de gran de Lacta-Mama. 
Eu plantava os filhos e as palavras. 
Eu plantava o milho e a mandioca. 
Eu cantava com a língua das flautas. 
Eu dançava, vestido de luar, 
enfeitado de passaros e palmas. 
Eu era a Cultura em harmonia com a Mãe Natureza.

Todos

E nós a destruímos, 
cheios de prepotência, 
negando a identidade 
dos Povos diferentes, 
todos Família Humana.

Solo (R)

Eu era a Paz comigo e com a Terra...

Todos

E nós te violamos 
ao fio das espadas, 
no fogo do arcabuz 
queimamos teu sossego.

Solo (R)

Eu conhecia o ouro, o diamante, a prata, 
a nobre madeira das matas, 
mas eram para mim os enfeites sagrados 
do corpo da Terra Mãe. 
Eu respeitava a Natureza 
como se respeita a própria esposa. 

Todos

Caravelas do Lucro, 
viemos navegando, 
para vender a Terra 
para explorar lucrando.

Solo (R)

Eu vivia na pura nudez, 
brincando, plantando, amando,
gerando, nascendo, crescendo,
na pura nudez da Vida. 

Todos

E nós te revestimos 
com roupas de malícia. 
Violamos tuas filhas. 
Te demos por Moral 
a nossa Hipocrisia.

Solo (R)

Eu tinha meus pecados, 
eu fiz as minhas guerras... 
Mas eu não conhecia 
a Lei feita Mentira, 
o Lucro feito Deus.

Todos

E nos te revestimos 
com roupas de malícia.

Solo (R)

Eu era a Liberdade 
-não uma estatua apenas-, 
Moara em came humana, 
a Liberdade viva. 
Eu era a Dignidade, 
sem medo e sem orgulho, 
a Dignidade Humana.

Todos

E nós te escravizamos. 
E nós te sepultamos 
na escurião das minas. 
Dobramos o teu corpo
sob os canaviais. 

E te jogamos contra 
as árvores amadas, 
para cortar madeira, 
cortando o teu espírito, 
o cerne do teu Povo.

Solo (R)

Meu tempo era o Dia e a Noite, 
o Sol e a Lua, 
as Chuvas e os Ventos gerais, 
meu tempo era o Tempo, sem horas.

Todos

E nós te amarramos 
ao tempo do relogio, 
no nosso pouco tempo 
de pressas e interesses, 
ao tempo-concorrência.

Solo (C)

Eu adorava a Deus, 
Maíra em toda coisa, 
Tupã de todo gesto, 
Razão de toda hora.

Eu conhecia a Ciência 
do Bem e do Mal primeiros. 
A Vida era meu culto, 
a Dança era meu culto, 
a Terra era meu culto, 
a Morte era meu culto, 
eu era um Culto vivo!

Todos

E nós te missionamos, 
infiéis ao Evangelho, 
cravando em tua vida 
a espada de uma Cruz. 
Sinos de Boa-nova, 
num dobre de finados!

Infiéis ao Evangelho, 
do Verbo Encarnado, 
te demos por mensagem, 
cultura forasteira. 
Partimos em metades 
a paz de tua vida, 
adoradora sempre. 

Solo (R)

O amor do Pai de todos 
me batizou com água da Vida e da Consciência 
e semeou em mim a Graça do seu Verbo, 
Semente universal de Salvação.

Todos

Quando nós te ferramos 
com um Batismo imposto, 
marca de humano gado, 
blasfêmia do Batismo, 
violação da Graca 
e negação do Cristo.

Solo (R )

Eu era um Povo de milhões de vivos, 
de milhões e milhões de Gente Humana, 
milhões de imagens vivas do Deus Vivo.

Todos

E nós te dizimamos, 
portadores da Morte, 
missionários do Nada.

Solo (R)

Eu vos dei a beleza do Mar e suas praias, 
eu vos dei minha Terra e seus segredos, 
os pássaros, os peixes, os animais amigos, 
servidores.

O milho da espiga apertada e repartida, 
o bulbo generoso da mandioca 
o pão de cada dia,
o guaraná cheiroso da floresta, 
o caldo assossegante do chimarrão do Sul. 
O remédio da Terra enfermeira. 
A canoa, voadora nas águas. 
O Pau-brasil de fogo, 
nome do coração do vosso País...

Todos

E nós te depredamos, 
desnudando as florestas, 
calcinando teus campos, 
semeando veneno nos rios e no ar. 
A Terra generosa 
separando, por cercas, 
os homens contra os homens: 
para engordar o gado 
da fome nacional 
para plantar a soja 
da exportacão escrava.

Solo (C)

Eu era a Terra livre, 
eu era a Agua limpa, 
eu era o Vento puro, 
fecundos de abundância, 
repletos de cantigas.

Todos

E nós te dividimos 
em regras e em fronteiras. 
A golpes de ganância 
retalhamos a Terra. 
Invadimos as roças, 
invadimos as tabas, 
invadimos o Homem.

Solo (R)

Eu fazia um caminho a cada vez que passava. 
Era a Terra o caminho. 
O caminho era o Homem.

Todos

Nós abrimos estradas, 
estradas de mentira, 
estradas de miséria, 
estradas sem saída. 
E fizemos do Lucro 
o caminho fechado 
para o Povo da Terra. 

Solo (R)

Eu era a Terra inteira, 
eu era o Homem Livre.

Todos

E nós te reduzimos 
em Vitrina e Reserva, 
em Parque zoológico, 
em Arquivo-poeira.

Solo (R)

Eu era a Saúde dos olhos, 
penetrantes como flechas, 
dos ouvidos atentos, 
dos músculos harmónicos, 
da alma em sossego.

Todos

E nós te mergulhamos 
nos vírus, nos bacilos, 
nas pestes importadas. 
Teu Povo reduzimos 
a um Povo de doentes, 
a um Povo de defuntos.

Solo (R)

Eu vivia embriagado na Alegria. 
A aldeia era uma roda de amizade.

Meus Chefes comandavam, 
servidores do Povo, 
com a sabedoria e o respeito 
de quem se reconhece igual ao outro.

Todos

E nós te embriagamos
de cachaça e desprezo.
Fizemos-te objeto
do Turismo impudente.
Tornamos os teus Povos
uma placa de rua,
e o teu Saber antigo,
Tutela de menores.
Pusemos as algemas
dos nossos Estatutos
na tua Liberdade.
Jogamos tua Língua
nas covas do silêncio,
e os teus Sobreviventes
à beira das estradas,
à beira dos viventes
mão de obra barata
nas fazendas e minas,
nos bordéis e nas fábricas;
mendigos dos suburbios
das cidades sem alma;
restos do Continente
da grande Lacta-Mama

(A música se torna diferente em tom de desafio e esperança) Solo (C)

Eu era toda América,
eu sou ainda América,
eu sou a nova América!

Todos

E nós somos agora, 
ainda e para sempre, 
a herança do teu Sangue, 
os filhos dos teus Mortos, 
a aliança em tua Causa. 
Memória rediviva, 
na Aliança desta Páscoa.


Aleluia

Todos (C)

Aleluia! aleluia! aleluia! 
Todos os Povos da Terra, 
da Terra-sem-males, 
louvem ao Pai!

O Evangelho é a Palavra 
de todas as Culturas. 
Palavra de Deus na Língua dos Homens!

O Evangelho é a chegada 
de todos os caminhos. 
Presença de Deus na marcha dos Homens!

O Evangelho é o destino 
de toda a História. História de Deus na História dos Homens!

Aleluia... etc...


Ofertório

Todos (R)

Erguemos em nossas mãos
a memória dos séculos,
reunimos na carne do pão
a história do Tempo
de Libertação.

Aqui vos entregamos,
a vida banhada de chuva,
o milho plantado na terra,
o amor em pão repartido.

Aqui vos entregamos
a esperança da Terra-sem-males,
a caça-alimento na boca de todos,
0 culto da dança de todas as noites.

Aqui vos entregamos 
a paz da abundância, 
a liberdade dos Homens, 
a vida de Homens iguais.

Todos

Na herança do milho, 
na massa do pão, 
a Páscoa do Cristo 
e a nossa união.

Na sorte do vinho, 
na luta e na morte, 
a Páscoa do Cristo 
e a Libertação.

Todos

Erguemos em nossas mãos 
a memória dos séculos, 
recolhemos no sangue do vinho 
a história de um tempo de escravidão.

Em nossas mãos vos entregamos 
a cinza das aldeias saqueadas, 
o sangue das cidades destruídas, 
a vencida legião dos oprimidos.

Em nossas mãos vos entregamos 
os seios exaustos das minas, 
a água profanada dos rigs, 
as madeiras-em-cruz deste martírio.

Em nossas mãos vos entregamos 
as veias abertas de América, 
a pedra calada dos templos, 
o pranto da memória índia.

Todos (C)

Na herança do milho... etc.


Rito da Paz

Todos (Canto)

Shalom, 
Sauidi, 
a Paz! 
A Paz de Deus, 
na paz dos Homens. 
O amor do Pai 
entre os irmaos.

Todos os Povos num só Povo. 
Porque o Senhor é nossa Paz.

Shalom, 
a paz antiga. 
Sauidi, 
a paz perdida. 
Em Cristo, a nova Paz!

Shalom, Sauidi, a Paz!


Comunhão

Todos (C)

Celebrando a Páscoa do Senhor
cantamos a Vitória
de toda a Humanidade.
Tribos de toda a Terra,
Povos de toda idade.
Na carne do Senhor
revive toda carne.
Por isso comungamos toda luta.
Por isso comungamos todo sangue.
Por isso comungamos toda busca
de uma Terra-sem-males. 

Libertos do primeiro Cativeiro,
cantamos a Passagem.

Cantando atravessamos
o novo Mar Vermelho do teu Sangue.
Cantando comungamos
o Pão da Liberdade.

Cantando caminhamos à procura
de uma Terra-sem-males. 

Celebrando a Páscoa do Senhor... etc.


Compromisso Final

Voz masculina (Voz masculina e voz feminina: recitado. Todos cantado)

Alimentados da Páscoa do Senhor 
e na Esperança da Terra Prometida, 
rejeitamos todas as cadeias e, 
com os pés descalços sobre esta Terra nossa, 
retomamos a marcha dos mortos redivivos. 

Voz feminina

Com as claras estrelas dos Povos exterminados,
iluminamos a rota do ultimo Exodo,
buscando a Terra-sem-males. 

Voz masculina

Como fogueiras ardendo no coração da noite,
a memória dos Povos perdidos
conduz o passo dos seus filhos. 

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz feminina

Pelos Templos sem defesa saqueados,
por todas as Cidades destruídas,
pelos 90 milhões de índios massacrados. 

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz masculina 

Pelas ruínas do Império do Sol, 
pelos Palacios Maias abolidos, 
por todo o Povo Azteca escravizado, 
pela desolação dos Sete Povos...

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz feminina

Pelo silêncio das flautas e tambores na noite,
pela morte da alma destes Povos,
pela palavra "resignação" dita aos escravos...

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz masculina 

Pelo arcabuz dos bandeirantes e bugreiros,
pelos meninos escravizados, 
pelas meninas defloradas, 
pelas caravanas de moribundos rumo a São Paulo...

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz feminina

Pela peste que trouxemos no sangue depurado, 
pelas lanças quebradas na humilhacão,
pelas cabeças cortadas dos Aymoré...

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz masculina 

Pelas cercas farpadas dos novos bandeirantes,
pela cachaça integradora, 
na boca dos guerreiros, 
pelo açúcar servido com cianureto 
no paralelo onze, 
pela prepotência da Tutela e 
o sarcasmo da Emancipação...

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz feminina

Pela cruz inscrita na espada dos saqueadores,
pela devastadora Civilização 
que se pretende cristã, 
pelas catedrais assentadas no coração
dos templos índios
pelo Evangelho da Liberdade, 
feito decreto de cativeiro.

Todos

Memória / Remorso / Compromisso!

Voz feminina (Música de suplica confiada)
Todos (Cantado)

Morena de Guadalupe, 
Maria do Tepeyac: 
Congrega todos os índios 
na estrela do teu olhar; 
convoca os Povos da América 
que querem ressuscitar.

Vozes individuais (recitado)

Montezuma! 
Atau Walpa! 
Tupac Amaru! 
Sepé Tiaraju! 
Toríbio de Mogrovejo! 
Rosa de Lima! 
Bartolomé de las Casas! 
José de Anchieta! 
Roque! 
João! 
Afonso! 
Rodolfo! 
Simão Bororo! 
João Bosco!

Voz masculina

E todos os Patriarcas, Profetas e Mártires 
da Causa Indígena!

Todos (Recitado)

Prosseguiremos vossa caminhada!

Todos (Canto Final)

Unidos na Memória 
da Páscoa do Senhor 
voltamos para a História 
com um dever major. 
Unidos na memória 
da Antiga Escravidão
juramos a Vitória
na nova servidão.

América Amerindia, 
ainda na Paixão: 
um dia tua Morte 
terá Ressurreição!

A Páscoa que comemos 
nos nutre de porvir. 
Seremos nos teus Povos 
o Povo que ha de vir.

Os Pobres desta Terra 
queremos inventar 
essa Terra-sem-males 
que vem cada manhã.

Uirás sempre a procura 
da Terra que vira... 
Maíra, nas origens. 
No fim, Marana-tha!


****
 
Um pequeno grupo de índios, Portinari - 1959

Apresentação

Memória e Compromisso

Os cristãos estamos habituados a reconhecer e a celebrar somente os mártires que outros nos fazem. Ignoramos tranqüilamente os muitos mártires que nós fazemos.
Aquí, no Brasil, 1978 foi "Ano dos Mártires" da Causa Indígena. Celebravam-se trezentos e cinqüenta anos dos tres Mártires Riograndenses, Roque González, Afonso Rodriguez e João Castilho. O CIMI -Conselho Indigenista Missionário- achou que era de justiça que não se celebrasse apenas a morte dos tres missionários jesuítas. Porque os mortos eram muitos mais. Devia-se também celebrar a morte de milhares de índios, sacrificados pelos Impérios Cristãos da Espanha e Portugal.
Uns e outros, Mártires da Causa Indígena. A Cruz, no meio deles todos. Aqueles, morrendo pelo amor do Cristo. Estes, massacrados "em nome" do Cristo e do Imperador:

... mártires indefensos 
pelo Reino de Deus feito Império, 
pelo Evangelho feito decreto de Conquista. 
Vítimas dos massacres que ficaram com nome glorioso 
na mal contada Historia, 
na mal vivida Igreja... 
("Proclama Indígena")

As Ruínas de São Miguel, no Rio Grande do Sul, "monumento-ferida em desafio", são o testemunho central do intento missionário das "Reduções Índias" dos Jesuítas, nos séculos XVII e XVIII. A famosa República dos Guarani, que mereceu os elogios insuspeitos de Voltaire e de Montesquieu. Essas Ruínas são também o testemunho constrangedor da barbárie dos cristianíssimos colonizadores ocidentais, nossos avós espanhóis e portugueses. Sepé Tiaraju, luzeiro na testa, "São Sepé" para a fé do Povo, corregedor da Missão de São Miguel e o mais ilustre chefe guerreiro guarani, foi assassinado, juntamente com outros mil e quinhentos companheiros, pelos Exércitos de Espanha e de Portugal, irmanados na hora da barbárie. Nos campos de Caiboaté, dia 7 de fevereiro de 1756. Nessas Ruínas históricas e nesse Ano dos Mártires da Causa Indígena, nasceu a ideia da Missa da Terra- sem- males.
Pensou-se, primeiro, numa Missa "missioneira" em torno as Missões dos Sete Povos Guarani. Assim me pedia o irmão marista Antônio Cechin, gaúcho "arrependido", revisador da Historia "mal contada", cronista apaixonado da caminhada do Povo, catequista da Libertação, também perseguido "no Templo e no Pretório". 
Eu cultivo a convicção de que América Latina -América Ameríndia, mais na raiz- ou se salva continentalmente ou continentalmente se afunda. Seu passado de cativeiro é um saque continental. Continental deve ser a marcha de seu futuro de libertação.
Os Povos Indígenas do Continente, alem do mais, tão diversificados em sua cultura e em suas realizações, foram reduzidos, pelos Povos Conquistadores, a categoria anônima e arrasada de "Índios". Conhecidos como Índios apenas, como Índios foram depredados e confinados aos manuais e as vitrines. Sua Memória, então, devia ser celebrada numa só Missa, una e comum, um Sangue só e uma igual Esperança: a Missa Ameríndia.

Eu sou América, sou o Povo da Terra, 
da Terra-sem-males, 
o Povo dos Andes, 
o Povo das Selvas, 
o Povo dos Pampas, 
o Povo do Mar...
Do Colorado, 
de Tenochtitlan, 
do Machu-Pichu, 
da Patagônia, 
do Amazonas, 
dos Sete Povos do Rio Grande...

Os Guarani, filhos da grande nostalgia, buscadores incansáveis da "Terra-sem-males", dariam o utópico tom político e também escatológico. A Terra-sem-males, que a mística guarani secularmente vem procurando, num êxodo comovente, é uma Terra possível, o dever fundamental da História Humana, a tensa alegria de nossa Esperança em Jesus Cristo, o Senhor Ressuscitado, o Novo Céu e a Terra Nova que o Pai Deus jurou dar a seus filhos. 
Eu, missionário, espanhol -no caso, ser catalão não fez diferença-, diria minha parte de contrição, em nome da Espanha colonizadora e em nome da Igreja missionária. Pedro Tierra - entranhável pseudônimo de Hamilton Pereira da Silva-, brasileiro telúrico e vítima heroica da Repressão neo-colonizadora, diria sue parte, em nome do Brasil, com a força irada de seus homens novos. E Martín Coplas, argentino, descendente de quechua e aymara -pseudônimo com sabor de alma musical popular e que carrega o respaldo prócero de Martín Fierro- diria, em solfa, em varias músicas aborígenes do Continente, a parte mais profunda. Por Martín falariam outra vez as flautas dos Andes emudecidas e o amedrontado tambor do coração de seu Povo.
O mais, a História ja o contou, bem ou mal. Os Museus exibem-no com sacrílega passividade. E os novos Impérios -nacionais e multinacionais- da cobiça da terra, madeira, minério e mão-de-obra barata- continuam a executá-lo, perante os olhos impassíveis da Civilização Ocidental Cristã.
Verdade é que a última palavra ainda está por dizer:

"América Ameríndia, 
ainda na Paixão: 
um dia tua Morte 
terá Ressurreição!"

Esta Missa ja escandalizou a alguns. E não apenas à TFP, (Tradição, Família e Propriedade) que a tachou de "sacrílega" e "blasfema". (Falando em TFP e Causa Indígena, lembro-me daquela charge que explica tudo. O Índio pergunta ao heraldo da TFP, que pregona pelas ruas, estandarte em alto, sua ordem conservadora: 
"O TFP, tu vai defender também meu Tradição, meu Família e meu Propriedade...?"
Imagino que escandalizará também a alguns dos meus nostálgicos patrícios. Foi cantada tão belamente a epopeia hispânica da Descoberta da América! ("Llevaban la Espiga y la Rosa / y los Mandamientos y el Ave María...").
O etnocentrismo e o lucro capitalista -e todo tipo de egoísmo pessoal, étnico ou econômico-impedem entender e assumir não apenas esta Missa, mas toda Missa. Porque toda Missa verdadeira escandaliza necessariamente. A Missa é sempre uma ruptura, um Sacrifício, uma Passagem libertadora da Morte para a Vida: PASCOA.
Os cristãos primitivos tinham uma consciência mais clara do risco que significava celebrar a Ceia Pascal do Senhor, aquela "memória perigosa". 
Para nós -cristãos menos lúcidos ou menos honestos- a Missa tem sido, por tempo demasiado, um sossegado espetáculo litúrgico a que se assiste passivamente e com o qual se cumpre uma prescrição eclesiástica. Por tempo demasiado viemos passando pela Missa como se passa por um coquetel social, sem nos marcar a vida com o Sangue da Aliança, sem abrir mão da nossa segurança egoísta em favor do Reino da Liberdade. Fechados num clima contraditoriamente "católico", que nega o Ecumenismo e a autêntica Catolicidade, que desconhece, de fato, o valor universal da Encarnação do Filho de Deus e sua Oblação em prol de todos os irmãos dispersos. Neste clima, os Índios, evidentemente, não têm nada a fazer numa Missa... 
A revista missionária "Sem Fronteiras", cenário de uma pequena polêmica em torno a Missa da Terra-sem-males, pediu-me que mediasse no assunto. Isso fiz com uma simples carta, da qual são os parágrafos seguintes:
"Acredito na missão que foi a vocação de Jesus, que e essência da Igreja, no dizer do Vaticano II. E me sinto herdeiro dos missionários de ontem -de seus pecados e de seus méritos. O "nós" da "Memória Penitencial" da Missa e um nós eclesial, coletivo. Que cristão pode negar, que cristão não deve assumir reparadoramente os erros cometidos ontem e hoje pela Igreja de Jesus, às vezes com a melhor boa vontade?
Os homens erram e os cristãos continuam humanos. Paulo repreendeu a Pedro por tentar acobertar a transmissão da cultura judaica na transmissão do Evangelho livre de Jesus Cristo. Foi em nome da Civilização Ocidental, chamada de "cristã", que os Conquistadores, acompanhados dos Evangelizadores, destruíram de fato, não apenas Culturas mas Povos inteiros. Segundo estatísticas sérias, dentro das várias opiniões, o Brasil, na época da conquista, teria cinco milhões de Índios... Hoje tem cento e oitenta mil. Devo julgar o passado pelos olhos que hoje tenho. Antropologicamente, teologicamente. O que não significa culpar as intenções dos homens do passado. Se não pudêssemos julgar assim, nem adiantaria estudar a História nem caminharíamos. O Novo Testamento é um juízo do Testamento Velho, feito pelo próprio Filho de Deus. 
Perder a terra, perder a língua, perder os costumes, é perder o chão da vida, deixar de ser. Deixar de ser aquele Povo e, geralmente, deixar de ser mesmo. Quem não respeita uma Cultura, quem age etnocentricamente, "escraviza", sim. O Evangelho é Fé, não cultura. O Evangelho deve se encarnar em todas as Culturas de todos os Tempos. Todas elas humanas, todas susceptíveis de um aperfeiçoamento superior: a Graça do Verbo, encarnado nelas." 
Acredito que a Missa da Terra-sem-males seja ortodoxa. Os quase quarenta bispos que participaram de sua primeira celebração, na catedral da Sé, de São Paulo, no dia 22 de abril de 1979, não reclamaram, muito pelo contrário. A Missa respeita o esquema litúrgico. Não é um oratório apenas, menos ainda um "show". É um texto musical e recitado, que ambienta e traduz indigenisticamente a Celebração Eucarística real. 
Apaixonadamente, isso sim. Por ser a gente o que é e porque, no dizer do teólogo evangélico francês Georges Casalis, um escrito teológico -ou litúrgico ou pastoral- sem paixão, já não mais refletiria a prática, a morte e a vida de Jesus de Nazaré. 
A Missa tem dois momentos maiores, como textos indigenistas: a "Memória Penitencial" e o "Compromisso Final". A Memória, num diálogo entre América Ameríndia e a coletiva consciência de nossa Civilização -colonizadora, missionária. O Compromisso, alternando trágicas referências históricas, algumas bem recentes, com o grito coletivo e compungido da Comunidade celebrante: "Memória, Remorso, Compromisso!" 
Através da Missa toda, a Morte do Cristo e sua Ressurreição, sua Páscoa pessoal já completa, contrasta-se com a Páscoa Ameríndia, carregada de mortes, mas "ainda sem Ressurreição". Toda a Missa, entretanto, vem traspassada de uma incontida Esperança, contrariamente ao que alguém quis entender. Traspassada também de um inevitável compromisso político, que torne acreditável e eficaz, agora e aquí, essa Esperança, escatológica em última instância.
A Missa invoca seus Santos: do lendário Montezuma até o missionário João Bosco, fuzilado, a meus pés, pela Polícia Militar, na delegacia de Ribeirão Bonito. Um canto emocionado à Mãe Padroeira da América define aquele espírito continental de que antes falei, a vontade de convocar, de congregar todos os Povos do Continente, numa só marcha de Libertação:

Morena de Guadalupe, 
Maria do Tepeyac, 
congrega todos os Indios 
na estrela do teu olhar, 
convoca os Povos da América 
que querem ressuscitar.

No mais, o que importa é celebrar comprometidamente a Missa, toda Missa, comprometendo-se com a Causa dos Povos Indígenas, com a Causa-raíz da América. E viver e se "des-viver" por encontrar a Terra-sem-males e construí-la imediatamente, dia após dia, e espera-la ainda sempre, contra toda esperança, e anunciá-la fidedignamente com o limpo testemunho da própria existência. 
Guarani de Deus todos nós, um dia a alcançaremos.
"Uirás " sempre a procura 
da Terra que virá, 
Maíra nas origens, 
no fim Marana-tha!"


Pedro Casaldáliga
São Félix do Araguaia, MT



A Missa da Resistência Indígena
A Missa da Terra-sem-males começou a brotar sobre a pedra das ruínas de São Miguel, no Rio Grande do Sul. Terra de fronteira entre a América espanhola e portuguesa, estas duas Américas que são uma só. América dividida pelo fogo dos conquistadores. 
O templo semidestruído de São Miguel é um monumento testemunho do massacre do Povo Guarani, testemunho da resistência e da grandeza dos Povos Indígenas de toda a América. As pedras escurecidas pelo fogo e pelos séculos narram com seu terrível silêncio a passagem dos bandeirantes, a devastadora passagem dos exércitos de Portugal e Espanha. 
A própria História da Resistência dos Povos Indígenas aos conquistadores gestou no sangue esta Missa da Terra-sem-males. A marcha dos Povos Indígenas do Continente, buscando seu próprio rosto, sua identidade, arrancou dos massacres sepultados pela história oficial toda a força de sua esperança num Continente libertado. 
Quem busca sua identidade volta-se necessariamente para o passado. Para extrair dele o metal das armas que empunhará na construção do futuro. Neste poema vulcânico, a América mergulha suas raízes na terra-mãe-ameríndia e retira dela a seiva elementar que nutre o sonho e a marcha de seus filhos. 
A Missa da Terra-sem-males é uma missa de memória, remorso, denúncia e compromisso. Ela nos atira no rosto esta realidade fatal: de todos os continentes escravizados -Asia, Africa e América- a América e o único que não retornará a seus filhos. Não se trata de sonhar o impossível sonho de uma América puramente índia. Trata-se de constatar a inenarrável violência com que os conquistadores saquearam este Continente. 
A Asia se levanta e seus filhos a terão um dia. Os povos negros da Africa reconquistam palmo a palmo o Continente devastado pelo colonialismo. A América, contudo, jamais retornará as mãos dos povos indígenas, sepultados pelos massacres de Cortez, Pizzarro, Valdívia, Raposo Tavares. Devorados pelas minas de Potosí, escravizados pelas bandeiras, exterminados em todo o Continente pela peste que o branco trouxe no sangue. Sem retórica, cabe dizer que os conquistadores Ingleses, Espanhóis e Portugueses se lançaram sobre o Continente americano como uma malta de saqueadores, reduzindo a escombros tres impérios riquíssimos e exterminando, num espaço de quatro séculos, cerca de noventa milhões de índios. 
A Missa da Terra-sem-males brotou em terra Guarani, o Povo-aliança da América Índia. No centro do Continente, os Guarani foram duplamente submetidos. O conquistador, português ou espanhol, converteu a terra guarani em campo de batalha até a destruição completa de tudo quanto representasse trabalho humano ou humana aspiração.
Contra toda a violência, contra todo o sangue derramado, o Povo Guarani foi capaz de sonhar a Terra-sem-males. Não foi um "Céu-sem-males", foi uma Terra-sem-males, a utopia possível. A utopia construída pela luta de todos os oprimidos. A pátria libertada de todos os homens. 
Poderia ter sido um poema, uma cantata, mas nasceu missa. Porque é impossível separar a historia dos Povos Indígenas da América da presença da Igreja entre eles. A mesma Igreja que abençoou a espada dos conquistadores e sacramentou o massacre e o extermínio de povos inteiros, nesta missa se cobre de cinza e faz sua própria e profunda penitência. A penitência por si só não conduz a nada, nem sequer alivia a responsabilidade histórica que a Igreja assumiu ao lado do branco colonizador. Contudo, a História marcha e a Igreja mantém um laço profundo com os oprimidos da América. Que esta penitência contribua para que este laço se converta em compromisso com a marcha do Povo a caminho de sua libertação.
A Missa da Terra-sem-males so se apossará de toda a sue dimensão quando alcançar sua vestimenta continental. É profundamente significativo que ela tenha sido escrita em português, idioma deste Brasil-quase-continente, oprimido e instrumento de opressão, gigante e escravizado, historicamente empregado de seus irmãos, vítimas do mesmo saque, combatentes da mesma resistência.
A Missa da Terra-sem-males é uma convocação a todos os oprimidos da América que marcharam durante séculos e marcha hoje em busca da Terra-sem-males libertada.
Pedro Tierra

Goiânia, 8 de outubro de 1979 

MISSA DA TERRA SEM MALES
PEDRO CASALDÁLIGA
Texto: Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra 
Música: Martín Coplas
Gravação em cassete: Edições Paulinas Discos, São Paulo 1980.
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:: Fonte: Serviços Koinonia
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