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Não há sombra no espelho - Mario Benedetti

The false mirror, ©Rene Magritte


Não há sombra no espelho

Não é a primeira vez que escrevo meu nome, Renato Valenzuela, e o vejo como se fosse de outra pessoa, de alguém distante com quem perdi contato faz tempo. Em outras ocasiões, diante do espelho, quando acabo de me barbear, vejo um rosto que mal reconheço, como se fosse o esboço ou a caricatura de outro rosto, com que estou mais ou menos acostumado. Então acho que esse olhar não é o meu, que essas pupilas de rancor não me dizem respeito, que essas rugas pertencem a outra máscara, que esses fiordes de calvície não correspondem à minha geografia capilar. É verdade que tais divagações costumam ser momentâneas, metamorfoses que duram o tempo de um suspiro, mas sempre me deixam instável, desassossegado, indefeso. É por isso, Renato Valenzuela, que talvez tenha chegado a hora de acertar as nossas contas. Com o tempo, com o passado, com as feridas, com as promessas, contigo/comigo. Todas.
Não vamos cair na vulgaridade de atribuir tudo que há de ultrajante à vaga infância. Lá ficou ela, atrás da neblina. Minhas lembranças se deixam ver através de um vidro esmerilhado chamado memória. Eu te vejo nu no campo, sob uma chuva que não discriminava, os magros braços para o alto, usufruindo dessa felicidade inaugural, que por certo não se repetiria, ao menos com essa intensidade.
Eu te vejo criança, espantado diante do estranho espetáculo do peãozinho que fornicava (você achava que brincava) com alguma ovelha, passiva e inerte, decerto ausente daquela violação não regulamentar. Sua adolescência foi um sonho. Você sonhava incansavelmente, e quando afinal eu acordava, você continuava sonhando. Com bosques, com ondas, com seios, com sóis, com fomes, com mãos, com coxas. Seus sonhos eram de desejo, e minhas vigílias, de censura.
Volta e meia aparece algum sábio da arraia-miúda para garantir que o espelho é sempre honesto. Honesto porra nenhuma. O espelho é um farsante, um traidor, um pilantra. Esse Renato Valenzuela que aí está, olhando-me com sarcasmo, pálido de tanta insônia, é um frágil arremedo de mim mesmo, um fac-símile sem sangue, uma coisa. Onde está, por exemplo, a palpitação das minhas têmporas, o coração transbordante de conquistas e fracassos, as mãos que não são garras, mas provedoras de carícias?
A imagem do espelho é o que eu não quis ser: um fantoche gasto convocando a morte. Por esses falsos olhos circulam escombros de desejos, que já não consigo sequer vislumbrar, que dirá rememorar. Esse Renato Valenzuela é um epílogo do Renato Valenzuela que digo ser. Que sou. Ou não? Ou será, então, este eu de carne e osso o pobre duplo do que se move nesse espelho? Disse o poeta: “O mar como um vasto cristal azougado/ reflete a lâmina de um céu de zinco.” Esse Renato de cristal azougado refletirá o nada do meu céu de zinco? Ou estará mais próximo do que se diz na estrofe seguinte: “O sol como um vidro redondo e opaco/ com passo de doente caminha para o zênite”?
Onde está, nessa cópia servil que é o espelho, aquele rapaz que seduziu Irene, ou melhor, que foi seduzido por Irene, o que tremeu como uma vara quando ela o enlaçou com seus braços de enigma? Onde ficou aquele que beijou e tornou a beijar seu corpo indescritível, mergulhou cândido nele, feliz sem perceber, tonto de amor?
Não há sombra no espelho. A sombra é dos corpos, não das imagens. Meu filho Braulio tem seis anos de sombra. Nunca o ponho diante do espelho, para que não a perca. Irene, em compensação, não tem mais imagem. Nem sombra. O horror a levou. Há finais de paz, de dor, de inércia, também de horror. O dela foi de horror. Contudo, nos olhos do espelho não está sua morte. Nos olhos de mim mesmo está, sim. É impossível desalojá-la, omiti-la, extraviá-la.
Meu filho me olha com os olhos de Irene. Um rio de tristeza circula por minhas veias, mas me esqueci de chorar. Com meus olhos e com os do espelho. Não trago o Braulio para o espelho para que não se gaste, para que não comece, tão criança, a envelhecer, para que continue a olhar com os olhos de Irene.
Devo esclarecer que tudo isso pertence ao passado. Um passado recente, mas passado. Reconheço que hoje tive uma surpresa. Como todas as manhãs, encarei o espelho e falei com ele. Falei muito. Acho que até gritei com ele. De repente percebi que a boca do espelho permanecia fechada. Tornei a falar, o insultei. E nada. Seus lábios não se moveram. Curiosamente, seu olhar era de retrocesso.
Então me senti tomado por um estranho contentamento, um esboço de felicidade.
E não era para menos. Pela primeira vez eu o deixava mudo. Pela primeira vez o derrotara. Inapelavelmente.

- Mario Benedetti, no livro "Correio do tempo".. [tradução Rubia Prates Goldoni]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Sonhou que estava preso - Mario Benedetti

© Alberto Macone
Sonhou que estava preso

Um preso sonhou que estava preso. Com nuances, claro, com diferenças. Por exemplo, na parede do sonho havia um pôster de Paris; na parede real havia apenas uma mancha escura de umidade. No chão do sonho corria uma lagartixa; no chão de verdade um rato o fitava.
O preso sonhou que estava preso. Alguém massageava suas costas e ele começava a se sentir melhor. Não conseguia ver a pessoa, mas tinha certeza de que era sua mãe, uma especialista no assunto. Pela ampla janela entrava o sol da manhã, e ele o recebia como um sinal de liberdade. Quando abriu os olhos, não havia sol. A janeleta gradeada (três palmos por dois) dava para um poço de ventilação, para outro muro de sombras.
O preso sonhou que estava preso. Que tinha sede e bebia muita água gelada. E a água logo brotava por seus olhos sob forma de choro. Sabia por que chorava, mas não o confessava nem a si mesmo. Fitava as mãos ociosas que antes construíam torsos, rostos de gesso, pernas, corpos enlaçados, mulheres de mármore. Quando acordou, seus olhos estavam secos, as mãos sujas, as juntas enferrujadas, o pulso acelerado, os brônquios sem ar, o teto com goteiras.
Então o preso decidiu que era melhor sonhar que estava preso. Fechou os olhos e se viu com um retrato de Milagros nas mãos. Mas ele não se contentava com a foto. Queria Milagros em pessoa, e ela apareceu, com um sorriso largo e uma camisola azul. Aproximou-se para que ele a tirasse, e ele, claro, a tirou. A nudez de Milagros era sem dúvida milagrosa, e ele a percorreu com toda sua memória, com todo seu prazer. Não queria acordar, mas acordou, alguns segundos antes do orgasmo onírico e virtual. E não havia ninguém. Nem foto, nem Milagros, nem camisola azul. Reconheceu que a solidão podia ser insuportável.
O preso sonhou que estava preso. Sua mãe já não o massageava, entre outras coisas, porque fazia anos que tinha morrido. Foi invadido pela saudade do seu olhar, do seu canto, do seu regaço, dos seus carinhos, das suas acusações, dos seus perdões. Abraçou a si mesmo, mas não valia. Milagros lhe dava adeus, de muito longe. Ele achou que de um cemitério. Mas não podia ser. Era um parque.
Mas na cela não havia parque, portanto, mesmo no sonho, sabia que era apenas isso: um sonho. Ergueu o braço para também dar seu adeus. Mas sua mão era só um punho, e, como se sabe, os punhos não aprenderam a dizer adeus.
Quando abriu os olhos, o catre de sempre lhe transmitiu um frio impertinente. Trêmulo, intumescido, tentou aquecer as mãos com o hálito. Mas não conseguia respirar. Lá no canto, o rato, tão congelado quanto ele, o fitava. Mexeu uma das mãos, e o rato adiantou uma pata. Eram velhos conhecidos. Às vezes lhe jogava um pouco da sua horrível, mísera comida. O rato era grato.
Mesmo assim, o preso sentiu falta da verde, agilíssima lagartixa dos seus sonhos e adormeceu para recuperá-la. Descobriu que a lagartixa tinha perdido o rabo. Um sonho assim já não valia a pena ser sonhado. E no entanto. No entanto, começou a contar com os dedos os anos que lhe faltavam. Um dois três quatro, e acordou. Eram seis no total, e ele já cumprira três. Contou de novo, mas agora com os dedos acordados.
Não tinha rádio, nem relógio, nem livros, nem lápis, nem caderno. Às vezes cantava baixinho para preencher precariamente o vazio. Mas cada vez recordava menos músicas. Quando era criança, também aprendera algumas orações que sua avó lhe ensinara. Mas agora para quem iria rezar? Sentia-se enganado por Deus, mas ele também não queria enganar a Deus.
O preso sonhou que estava preso e que Deus chegava e confessava que estava cansado, que sofria de insônia e que isso o esgotava, e que às vezes, quando enfim conseguia conciliar o sono, tinha pesadelos com Jesus na cruz pedindo-lhe ajuda, que Ele, por capricho, não dava.
O pior de tudo, dizia Deus, é que Eu não tenho Deus a quem recorrer. Sou como um Órfão com O maiúsculo. O preso sentiu pena desse Deus tão só e abandonado. Entendeu que, em todo caso, o mal de Deus era a solidão, já que sua fama de supremo, imutável e eterno afugentava os santos, tanto os titulares quanto os reservas. Quando acordou e se lembrou de que era ateu, não teve mais pena de Deus, ao contrário, sentiu pena de si mesmo, que estava enclausurado, solitário, mergulhado na imundície e no tédio.
Depois de incontáveis sonhos e vigílias, chegou uma tarde em que, dormindo, foi sacudido sem a brutalidade habitual, e um guarda o mandou levantar porque lhe haviam concedido a liberdade. O preso só se convenceu de que não estava sonhando quando sentiu o frio do catre e constatou a eterna presença do rato. Despediu-se dele com pesar e saiu com o guarda para receber a roupa, algum dinheiro, o relógio, uma esferográfica, uma carteira de couro, as poucas coisas que tomaram dele ao prendê-lo.
Na rua ninguém o esperava. Começou a andar. Andou por dois dias, dormindo à beira da estrada ou entre as árvores. Num bar de subúrbio, comeu dois sanduíches e tomou uma cerveja em que reconheceu um sabor antigo. Quando por fim chegou à casa da irmã, ela quase desmaiou com a surpresa. Ficaram abraçados uns dez minutos. Depois de chorar um pouco, ela perguntou o que estava pensando fazer. Agora, tomar um banho e dormir, estou completamente arrebentado. Depois do banho, ela o levou até um desvão onde havia uma cama. Não um catre imundo, mas uma cama limpa, macia e decente. Dormiu mais de 12 horas seguidas. Curiosamente, durante esse longo descanso, o ex-preso sonhou que estava preso. Com lagartixa e tudo.


- Mario Benedetti, no livro "Correio do tempo".  [tradução Rubia Prates Goldoni]. Rio de Janeiro : Objetiva, 2011.

Conciliar o sono - Mario Benedetti

© Sorin Dumitrescu Mihaesti (detalhe)
Conciliar o sono

Acontece, doutor, que no meu caso os sonhos têm ciclos temáticos. Houve um tempo em que eu sonhava com enchentes. De repente, os rios transbordavam e inundavam os campos, as ruas, as casas e até minha própria cama. Aliás, foi em sonhos que aprendi a nadar, e graças a isso consegui sobreviver às catástrofes naturais. Pena a duração dessa habilidade ter sido apenas onírica, pois mais tarde tentei exercê-la, completamente acordado, na piscina de um hotel e quase morri afogado.
Depois veio um período em que sonhei com aviões. Ou melhor, com um avião, porque era sempre o mesmo. A aeromoça era feiosa e me tratava mal. Dava champanhe para todo mundo, menos para mim. Quando perguntei por quê, ela me olhou com um rancor longamente programado e respondeu: “Você sabe muito bem por quê.” Fiquei tão surpreso com aquela intimidade, que quase acordei. Além disso, não imaginava do que ela estava falando. Ainda me debatia nessa dúvida quando o avião entrou numa turbulência e a aeromoça feiosa se estatelou no corredor, de um jeito que a minissaia levantou e pude constatar que não usava nada por baixo. Justo nessa hora acordei e, para minha surpresa, não estava na minha cama, mas num avião, fileira 7, poltrona D, e uma aeromoça parecida com a Gioconda me oferecia em inglês básico uma taça de champanhe.
Como vê, doutor, às vezes os sonhos são melhores que a realidade, e vice-versa também. O senhor se lembra do que Kant disse? “O sonho é uma arte poética involuntária.”
Em outra fase, tive sonhos recorrentes com filhos. Filhos que eram meus. Eu, que sou solteiro e não tenho nem sequer filhos naturais. Com o mundo do jeito que está, acho uma irresponsabilidade conceber novos seres. O senhor tem filhos? Cinco? Desculpe. Às vezes digo cada bobagem.
As crianças do meu sonho eram muito pequenas. Algumas engatinhavam e outras passavam a vida no banheiro. Parece que eram órfãos de mãe, pois ela nunca aparecia, e as crianças não tinham aprendido a dizer mamãe. Na verdade, também não diziam papai, mas em sua meia-língua me chamavam de “turco”. Justo eu, que tenho avós corunheses e bisavós lucenses. “Turco, vem cá”, “Turco, quero a papa”, “Turco, fiz xixi”. Num desses sonhos, eu ia descendo por uma escada meio quebrada quando, pimba, levei um tombo. Aí o maiorzinho dos meus nenês me olhou sem dó e disse: “Se fodeu, Turco.”
Assim já era demais, portanto tratei logo de acordar da aflição para minha realidade sem anjinhos.
Num ciclo posterior de futebol sonhado, eu sempre jogava de guarda-meta, ou arqueiro, ou porteiro, ou goalkeeper, ou goleiro. Quantos nomes para a mesma calamidade! Sempre chovia antes do jogo, por isso o campo estava molhado e fatalmente se formava uma grande poça na frente do gol. Aí aparecia um atacante e metia uma bomba que eu de primeira defendia, mas no rebote a bola molhada escapava das minhas luvas e passava redondinha a linha do gol. Nessa altura do campeonato (literalmente), o que eu mais queria era acordar, mas ainda tinha que ouvir a arquibancada inteira gritar atrás de mim: traidor!, vendido!, quanto você levou?, e outras coisinhas mais.
Nos últimos tempos, minhas aventuras noturnas foram invadidas pelo cinema. Não pelo cinema de hoje, tão ruim, mas pelo de antigamente, que nos comovia e tomava conta da nossa vida com rostos e atitudes que eram modelos. Eu me dedico a sonhar com atrizes. E que atrizes! Nada menos que Marilyn Monroe, Claudia Cardinale, Harriet Andersson, Sonia Braga, Catherine Deneuve, Anouk Aimée, Liv Ullmann, Glenda Jackson e outras maravilhas. (Aos atores, meu Morfeu não concede visto.) Como vê, doutor, a maioria são veteranas ou já se foram, mas sonho com elas como apareciam nos filmes daquela época. Por exemplo, quando digo Claudia Cardinale, não me refiro à de agora (que não está nada mal), e sim àquela de La ragazza con la valiglia, aos 21. Marilyn, por exemplo, se aproxima de mim e me diz num tom carinhosamente confidencial: “I don’t love Kennedy. I love you. Only you.” Vale esclarecer que nos meus sonhos as atrizes às vezes falam em versão legendada e às vezes dubladas em castelhano. Eu prefiro com legendas, pois uma voz como a de Glenda Jackson ou a de Catherine Deneuve é insubstituível.
Bom, na verdade vim consultá-lo porque ontem sonhei com a Anouk Aimée, não a de agora (que também não está mal) mas a de Montparnasse 19, quando tinha fabulosos 26 anos. Não pense mal de mim. Eu não a toquei nem ela me tocou. Simplesmente apareceu numa janela do meu estúdio e disse apenas (versão dublada): “Amanhã à noite venho te ver, não no teu estúdio, mas na tua cama. Não esquece.” Como é que eu vou esquecer? O que eu queria saber, doutor, é se os preservativos que compro na farmácia servem nos sonhos. Porque, sabe como é, não gostaria de engravidá-la.

- Mario Benedetti, no livro "Correio do tempo".  [tradução Rubia Prates Goldoni]. Rio de Janeiro : Objetiva, 2011.

Fim de semana - Mario Benedetti


© Joanna Concejo
Fim de semana

Esperou o pai na porta da escola. Como toda sexta-feira. Desde o divórcio, Fernando morava com a mãe, mas os fins de semana eram do pai. Tinham resolvido a questão de maneira amigável, antecipando-se a qualquer imposição, sobretudo para o filho não sofrer com confrontos inúteis. Ele nunca chegava na hora, mas dessa vez demorou mais que de costume. Enquanto dividiu a espera com os outros garotos, Fernando não se preocupou, mas foram apanhando um por um, até que restaram só ele e o porteiro, um sujeito que, além do mais, detestava os alunos.
Finalmente Marcelo apareceu, meio esbaforido. Fernando se resignou a beijar o rosto paterno e suado. Não gostava disso, porque ficava com a boca úmida e tinha aprendido que era feio se limpar com a manga.
— Você estava nervoso?
— Não.
— Por favor, não conta para sua mãe que eu demorei. Só para ela não se preocupar. É que eu não conseguia me livrar de um cliente chato.
Não conta para sua mãe. Fernando não entendia por que ele não dizia: Não conta para a Luisa.
Pegaram um táxi até o restaurante de todas as sextas-feiras. Fernando nem precisava ler o cardápio. Permanecia sempre fiel ao bife com salada.
— Você não quer pedir outro prato?
— Não.
— Eu enjoaria de pedir sempre a mesma coisa.
— Mas eu gosto. Por isso não enjôo.
Marcelo cumpriu a obrigação paterna de perguntar sobre as aulas, as professoras, os colegas. Como eram as perguntas de sempre, Fernando apelou às respostas de sempre.
— De tudo que está aprendendo, do que você gosta mais?
— Das contas e dos contos.
Como acompanhamento para um humor tão primário, Fernando esboçou o primeiro sorriso daquela sexta-feira, e o pai não teve outro remédio senão rir.
A sobremesa também não teve novidades: sorvete de creme.
— E sua mãe, como está?
— Sozinha. Ela está sozinha.
— Bom, sozinha ela não está. Está com você, não é?
— É, claro.
Chegaram ao belo apartamento da Rambla, e Fernando foi para seu quarto. Marcelo lhe reservara esse espaço, onde, além da cama e outros móveis, havia brinquedos (um jogo de armar, um trenzinho elétrico) de uso e desfrute solitários. E uma pequena televisão. Na casa da mãe, ele também tinha um lugar só dele, com outros brinquedos, claro. Fernando gostava dessa faixa dupla no seu divertimento. Era como pular de uma região a outra, e vice-versa.
Brincou por algum tempo com o jogo de armar (montou uma coisa que, com boa vontade, lembrava um moinho), assistiu a um documentário sobre esquilos, cochilou um pouco, até que Marcelo o chamou do terraço.
Lá o aguardava uma novidade: uma moça, alta, loira, com o cabelo solto e de jeans, que Fernando achou bonita e simpática.
— Fernando — disse o pai —, esta é a Inés, uma boa amiga minha que também vai ser uma boa amiga sua.
A boa amiga disse apenas “oi!”, mas o puxou pelo braço para junto de sua cadeira de balanço. Deu-lhe um beijo suave, e Fernando notou com alívio que aquele rosto não estava suado. Gostou de que Inés não lhe perguntasse nada sobre a escola, as aulas, as professoras e os outros alunos. Em compensação, falou de filmes e de futebol. Ele achou incrível uma mulher entender tanto de futebol. Além disso, como quem não quer nada, disse que torcia para o Nacional. Ele também era bolsiyudo. Um bom começo. Marcelo, em compensação, era Peñarol, mas assistia àquela estréia satisfeito, como o autor clandestino de um bom libreto.
Inés trouxera uns pacotes de comida, portanto jantaram em casa. Depois viram um pouco de televisão (notícias sobre fome, enchentes e atentados), mas, como Fernando não conseguia ficar de olhos abertos, o pai o mandou para a cama, não sem antes recomendar que escovasse os dentes.
À meia-noite foi acordado por um barulho vindo do banheiro. Alguém tinha dado a descarga. Como a porta do quarto estava entreaberta, Fernando espiou pela fresta. Inés, de camisola, saiu do banheiro e entrou no quarto de Marcelo.
Fernando voltou para a cama e não pregou o olho por um bom tempo. Inés era bonita e simpática, e além disso torcia para o Nacional. Mas antes de pegar no sono Fernando decidiu reafirmar sua lealdade a Luisa. A mãe dele não ligava para futebol, mas mesmo assim era mais bonita e mais simpática.
No sábado e no domingo, Fernando se divertiu com o pai e este com Fernando. Não era hora de fazer um balanço da situação. Como se o roteiro do filme tivesse acabado, Inés não falou mais de futebol. Estava tão calada, que no domingo à tarde Marcelo se aproximou dela, acariciou seu lindo cabelo e lhe perguntou se ela tinha alguma coisa.
— Nada de mais — disse ela. — Só preciso me acostumar.
Falou num sussurro, só para Marcelo, mas Fernando ouviu (sua avó sempre dizia: “esse menino tem ouvido de tísico”) e chegou à conclusão de que ele também precisava se acostumar. Mas se acostumaria?
No domingo à noite, Marcelo devolveu o menino ao domínio materno. Chamou pelo porteiro eletrônico e, quando ouviu algo parecido à voz de sua ex-mulher, disse: “Luisa, eu trouxe o Fernando. Tchau.” “Obrigada. Tchau”, respondeu o interfone, mais afônico que de costume.
Fernando subiu de elevador até o sexto andar. Lá, Luisa o esperava. Deu-lhe um beijo, tinha um pouco de maquiagem no rosto, mas ele não se importou.
Pouco depois ela fez um suco de laranja para Fernando. De repente, olhou para ele intrigada. Pensou que era absurdo, mas lhe pareceu que de certo modo o filho tinha crescido naquelas 48 horas.
Só para dizer alguma coisa, Luisa lhe perguntou:
— E seu pai como está?
Fernando pensou: ela também não disse “Marcelo”, mas “seu pai”. Engoliu em seco e respondeu:
— Sozinho. Ele está sozinho.


- Mario Benedetti, no livro "Correio do tempo".. [tradução Rubia Prates Goldoni]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Mario Benedetti - poemas

mario benedetti - poemas

Por que cantamos
Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha
você perguntará por que cantamos
se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro
você perguntará por que cantamos
cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino
.

Por que cantamos

Si cada hora viene con su muerte
si el tiempo es una cueva de ladrones
los aires ya no son los buenos aires
la vida es nada más que un blanco móvil

usted preguntará por qué cantamos
si nuestros bravos quedan sin abrazo
la patria se nos muere de tristeza
y el corazón del hombre se hace añicos
antes aún que explote la vergüenza
usted preguntará por qué cantamos
si estamos lejos como un horizonte
si allá quedaron árbores y cielo
si cada noche es siempre alguna ausencia
y cada despertar un desencuentro
usted preguntará por qué cantamos
cantamos porque el río está sonando
y cuando suena el río / suena el río
cantamos porque el cruel no tiene nombre
y en cambio tiene nombre su destino
- Mario Benedetti, no livro "Antologia poética". [tradução de Julio Luís Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.
- Mario Benedetti.'Retratos y canciones'.

§


Amor de tarde

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.
.

Amor de tarde

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cuatro
y acabo la planilla y pienso diez minutos
y estiro las piernas como todas las tardes
y hago así con los hombros para aflojar la espalda
y me doblo los dedos y les saco mentiras.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cinco
y soy una manija que calcula intereses
o dos manos que saltan sobre cuarenta teclas
o un oído que escucha como ladra el teléfono
o un tipo que hace números y les saca verdades.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las seis.
Podrías acercarte de sorpresa
y decirme «¿Qué tal?» y quedaríamos
yo con la mancha roja de tus labios
tú con el tizne azul de mi carbónico.
- Mario Benedetti "Antologia poética". [tradução Julio Luiz Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.
Mario Benedetti, en "Poemas de la oficina" (1953-1956).

§


Em pé 
Continuo em pé
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera

continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória

não é um mérito
outros desafiam
a claridade
o caos
ou a tortura

continuar em pé
quer dizer coragem

ou não ter
onde cair
morto
.

En pie
Sigo en pie
por latido
por costumbre
por no abrir la ventana decisiva
y mirar de una vez a la insolente

muerte
esa mansa
dueña de la espera 

sigo en pie
por pereza en los adioses
cierre y demolición
de la memória 

no es un mérito
otros desafían
la claridad
el caos
o la tortura 

seguir en pie
quiere decir coraje 

o no tener
donde caerse
muerto
- Mario Benedetti "Antologia poética". [tradução Julio Luiz Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.
- Mario Benedetti.'A ras de sueño'. 1967.

§

Sou meu hóspede
Sou meu hóspede noturno
em doses mínimas
e uso a noite
para despojar-me
da modéstia
e outras vaidades
procuro ser tratado
sem os prejuízos
das boas-vindas
e com as cortesias
do silêncio
não coleciono padeceres
nem os sarcasmos
que deixam marca
sou tão-só
meu hóspede
e trago uma pomba
que não é sinal de paz
mas sim pomba
como hóspede
estritamente meu
no quadro-negro da noite
traço uma linha
branca
.

Soy mi huésped
Soy mi huésped nocturno
en dosis mínimas
y uso la noche
para despojarme
de la modestia
y otras vanidades

aspiro a ser tratado
sin los prejuicios
de la bienvenida
y con las cortesías
del silencio

no colecciono padeceres
ni los sarcasmos
que hacen mella

soy tan solo
mi huésped
y traigo una paloma
que no es prenda de paz
sino paloma

como huésped
estrictamente mío
en la pizarra de la noche
trazo una línea
blanca 
- Mario Benedetti "Antologia poética". [tradução Julio Luiz Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.
- Mario Benedetti. 'La vida ese parentesis'.

§

Só enquanto isso
Você volta, dia de sempre, 
rompendo o ar justamente onde
o ar tinha crescido feito muros.

Você porém nos ilumina brutalmente
e na simples náusea da sua claridade
sabemos quando nos cairão os olhos,
o coração, a pele das recordações.

Claro, enquanto isso
há frases, há pétalas, há rios,
há a ternura como um vento úmido.
Só enquanto isso.
.

Sólo mientras tanto
Vuelves, día de siempre,
rompiendo el aire justamente donde
el aire había crecido como muros.

Pero nos iluminas brutalmente
y en la sencilla náusea de tu claridad
sabemos cuándo se nos caerán los ojos,
el corazón, la piel de los recuerdos.

Claro, mientras tanto
hay oraciones, hay pétalos, hay ríos,
hay la ternura como un viento húmedo.
Sólo mientras tanto. 
- Mario Benedetti "Antologia poética". [tradução Julio Luiz Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.

§

A ponte
Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um pais

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar 
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país
.

El puente
Para cruzarlo o para no cruzarlo
ahí está el puente

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país

traigo conmigo ofrendas desusadas
entre ellas un paraguas de ombligo de madera
un libro con los pánicos en blanco
y una guitarra que no sé abrazar

vengo con las mejillas del insomnio
los pañuelos del mar y de las paces
las tímidas pancartas del dolor
las liturgias del beso y de la sombra

nunca he traído tantas cosas
nunca he venido con tan poco

ahí está el puente
para cruzarlo o para no cruzarlo
yo lo voy a cruzar
sin prevenciones

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país.
- Mario Benedetti "Antologia poética". [tradução Julio Luiz Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.
- Mario Benedetti. 'Preguntas al azar'. 1984-1985.

§

Virar a página
É meu lugar 
meu céu 
meu travesseiro 
meus insultos

sou quem sou porque os outros são
há uma história em cada amanhecer 
e em cada transparência do crepúsculo

estive doze anos sem virar esta página
esperando sua letra suas estampas
imaginando coisas que não diz
mas que eram igualmente certas

sem virar esta página
ninguém pode ser alguém

pode somar paisagens
espigões torrentes
multidões fronteiras
pode colecionar amores e sabores
aplausos e vaias
manjares e esmolas
os rumos os atalhos 
as diferenças as indiferenças
a solidariedade e o exorcismo
as ofertas saborosas os escândalos
os dedos que assinalam e os braços abertos
as decepções e as recompensas
as recusas e as convocatórias
e no entanto é verdade
sem virar esta página, 
ninguém pode ser alguém.
.

Volver lá página
Es mi lugar
mi cielo
mi almohada
mis insultos

soy el que soy porque los otros son
hay una historia en cada amanecer
y en cada transparencia del crepúsculo

estuve doce años sin volver esta página
esperando su letra sus estampas
imaginando cosas que no dice
pero que eran igualmente ciertas

sin volver esta página
nadie puede ser alguien

puede sumar paisajes
rascacielos torrentes
muchedumbres fronteras
puede coleccionar amores y sabores
aplausos y abucheos
manjares y limosnas
los rumbos los atajos
las diferencias las indiferencias
la solidaridad y el exorcismo
las ofertas sabrosas los escándalos
los dedos que señalan y los brazos abiertos
los escarmientos y las recompensas
los portazos y las convocatorias
y sin embargo es cierto
sin volver esta página
nadie puede ser alguien
- Mario Benedetti "Antologia poética". [tradução Julio Luiz Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.

§

Lento mas vem 
Lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme

demorando-se vem 
qual flor desconfiada 
que vigila ao sol 
sem perguntar-lhe nada

iluminando vem 
as últimas janelas 

lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

já se vai aproximando 
nunca tem pressa 
vem com projetos 
e sacos de sementes

com anjos maltratados 
e fiéis andorinhas

devagar mas vem 
sem fazer muito ruído 
cuidando sobretudo 
os sonhos proibidos

as recordações dormidas 
e as recém-nascidas

lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia 
com punhos com olheiras 
com noites e com dias

com uma estrela pobre 
sem nome ainda 

lento mas vem
o futuro real 
o mesmo que inventamos 
nós mesmos e o acaso

cada vez mais nós mesmos 
e menos o acaso

lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

lento mas vem 
lento mas vem 
lento mas vem
.

Lento pero viene
Lento viene el futuro
lento
         pero viene

ahora está más allá
de las nubes ramplonas
y de unas cimas ágiles
que aún no se distinguen
y mas allá del trueno
y de la araña

demorándose viene
como una flor porfiada
que vigilara al sol

a lo mejor es eso
la vida cotidiana
prepara bienvenidas
cierra caldos de usura
abre memorias vírgenes

pero él
no tiene prisa
lento
         viene
por fin como su respuesta
su pan para la hambruna
sus magullados ángeles
sus fieles golondrinas

lento
pero no lánguido

ni ufano
ni aguafiestas
sencillamente
viene
con su afilada hoja
y su balanza
preguntando ante todo
por los sueños
y luego por las patrias
los recuerdos yacentes
y los recién nacidos

lento
viene el futuro
con sus lunes y sus marzos
con sus puños y ojeras y propuestas
lento y no obstante raudo
como estrella pobre
sin nombre todavía
convaleciente y lento
remordido
soberbio
modestísimo
ese experto futuro que nos inventamos
nosotros
y el azar
cada vez más nosotros
y menos el azar.
- Mario Benedetti "Antologia poética". [tradução Julio Luiz Gehlen]. Rio de Janeiro: Record, 1988.
- Mario Benedetti. 'Cotidianas'. 1978-1979.

§

Um chegar e incorporar-se o dia
Dois respirar para subir a ladeira
Três não jogar-se em uma só aposta
Quatro escapar da melancolia
Cinco aprender a nova geografia
Seis não ficar-se nunca sem a sesta
Sete o futuro não será uma festa e
Oito não assustar-se ainda
Nove vai a saber quem é o forte
Dez não deixar que a paciência ceda
Onze cuidar-se da boa sorte
Doze guardar a última moeda
Treze não tratar-se com a morte
Catorze desfrutar enquanto se pode.
.

Uno llegar e incorporarse el día
Dos respirar para subir la cuesta
Tres no jugarse en una sola apuesta
Cuatro escapar de la melancolía
Cinco aprender la nueva geografía
Seis no quedarse nunca sin la siesta
Siete el futuro no será una fiesta
Y ocho no amilanarse todavía
Nueve vaya a saber quién es el fuerte
Diez no dejar que la paciencia ceda
Once cuidarse de la buena suerte
Doce guardar la última moneda
Trece no tutearse con la muerte
Catorce disfrutar mientras se pueda. 
- Mário Benedetti. tradução de Maria Teresa Almeida Pina.

§

Minha tática é...
Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és

minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti

minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois

não haja cortinas
nem abismos

minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.
.

Mi táctica es...
Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos

no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.
- Mario Benedetti. tradução de Maria Teresa Almeida Pina.

§

Façamos um trato
Companheira
você sabe
que pode contar
comigo
não até dois
ou até dez
senão contar
comigo

se alguma vez
percebe
que a olho nos olhos
e um brilho de amor
reconheces nos meus
não alerte seus fuzis
nem pense que deliro
apesar do brilho
ou talvez porque existe
você pode contar
comigo

se outras vezes
me encontra
intratável sem motivo
não pense que fraquejara
igual pode contar
comigo

porém façamos um trato
eu quisera contar
com você
é tão lindo
saber que você existe
um se sente vivo
e quando digo isto
quero dizer contar
embora seja até dois
embora seja até cinco
não já para que acuda
pressurosa em meu auxílio
senão para saber
a ciência certa
que você sabe que pode
conta comigo.
.

Hagamos un trato 
Compañera
usted sabe
que puede contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo

si alguna vez
advierte
que la miro a los ojos
y una veta de amor
reconoce en los míos
no alerte sus fusiles
ni piense qué delirio
a pesar de la veta
o tal vez porque existe
usted puede contar
conmigo

si otras veces
me encuentra
huraño sin motivo
no piense qué flojera
igual puede contar
conmigo

pero hagamos un trato
yo quisiera contar
con usted
es tan lindo
saber que usted existe
uno se siente vivo
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos
aunque sea hasta cinco
no ya para que acuda
presurosa en mi auxilio
sino para saber
a ciencia cierta
que usted sabe que puede

contar conmigo.
- Mario Benedetti. tradução de Maria Teresa Almeida Pina.

§

Ah as primícias
Ah as primícias / como envelheceram
como o azar se converteu em castigo
como o futuro se esvaziou de pobres
como os prêmios colheram prêmios
como desamoraram os amores
como a façanha terminou em suspeita
e os oráculos emudeceram

tudo afunda na névoa do esquecimento
porém quando essa névoa se dissipa
o esquecimento está cheio de memória
.

Ah las primicias
Ah las primicias / cómo envejecieron
cómo el azar se convirtió en castigo
cómo el futuro se vació de humildes
cómo los premios cosecharon premios
cómo desamoraron los amores
cómo la hazaña terminó en sospecha
e los oráculos enmudecieron

todo se hunde en la niebla del olvido
pero cuando la niebla se despeja

el olvido está lleno de memoria
- Mario Benedetti, poema "Ah as primícias/Ah las primicias". [tradução Dalila Teles Veras]. publicado 'A Cigarra' - revista literária, Santo André|SP, n. 35, junho 2000.

§

Esse grande simulacro
Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma
ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento
.

Ese gran simulacro
Cada vez que nos dan clases de amnesia
como si nunca hubieran existido
los combustibles ojos del alma
o los labios de la pena huérfana
cada vez que nos dan clases de amnesia
y nos conminan a borrar
la ebriedad del sufrimiento
me convenzo de que mi región
no es la farándula de otros

en mi región hay calvarios de ausencia
muñones de porvenir / arrabales de duelo
pero también candores de mosqueta
pianos que arrancan lágrimas
cadáveres que miran aún desde sus huertos
nostalgias inmóviles en um pozo de otoño
sentimientos insoportablemente actuales
que se niegan a morir allá en lo oscuro

el olvido está tan lleno de memoria
que a veces no caben las remembranzas
y hay que tirar rencores por la borda
en el fondo el olvido es un gran simulacro
nadie sabe ni puede / aunque quiera / olvidar
un gran simulacro repleto de fantasmas
esos romeros que peregrinan por el olvido
como si fuese el camino de santiago

el día o la noche en que el olvido estalle
salte en pedazos o crepite /
los recuerdos atroces y los de maravilla
quebrarán los barrotes de fuego
arrastrarán por fin la verdad por el mundo
y esa verdad será que no hay olvido
- Mario Benedetti, poema "Esse grande simulacro/Ese gran simulacro". [tradução Dalila Teles Veras]. publicado 'A Cigarra' - revista literária, Santo André|SP, n. 35, junho 2000.

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Breve biografia
Mario Benedetti, o poeta uruguaio do compromisso e cronista dos sentimentos, morreu em Montevidéu aos 88 anos. Romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e crítico, foi um resistente que viveu e lutou contra o exílio e a doença. Os seus livros de contos, novelas e poemas são uma referência para os leitores da América do Sul e da Europa, sobretudo Espanha. Benedetti foi o mais prolífico expoente da literatura uruguaia, com obras traduzidas em vários idiomas.
Deixou mais de 80 livros. A juventude para quem escrevia era também um dos seus temas preferidos. “Tinha a esperança que os jovens se lembrassem de mim. A juventude atual sempre esteve presente. Quando leio poemas nos teatros metade da sala é ocupada por jovens”, declarou numa entrevista antiga.
Iniciou a carreira literária em 1949. Durante anos dividiu a sua vida entre Montevidéu, Maiorca e Madri para escapar do úmido inverno uruguaio que afetava sua asma crônica. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu. No ano passado, o escritor foi hospitalizado quatro vezes em Montevidéu devido a diversos problemas físicos.
O autor ficou famoso em 1956 a sua obra poética mais conhecida o livro “Poemas de escritório”.
:: Fonte: USP.
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Obra poética de Mário Benedetti em português
:: Antologia poética. Mario Benedetti. [seleção, apresentação e tradução de Julio Luís Gehlen]. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.

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:: Mario Benedetti - Poesia Latina
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