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Tarde de sábado, manhã de domingo - José J. Veiga

Pescadores, de Damião Martins
Tarde de sábado, manhã de domingo

O erro começou quando aceitamos o convite de Josias. Mas também pode ser que aceitar era o papel estipulado para nós naquele dia. Quem diz que tudo o que vai acontecendo na vida das pessoas não já aconteceu para elas muito tempo antes, e elas só têm que ir cumprindo as passagens marcadas, sem poderem desobedecer? Pode ser que seja como no cinema: a fita já foi feita, não adianta torcer por um lado nem por outro; a torcida não altera o fim. Mesmo assim, penso que o erro começou quando aceitamos o convite de Josias.
Depois do almoço eu preparei a vara de anzol e a latinha das minhocas e fiquei atento. Quando ouvi o assovio combinado avisei minha mãe e fui encontrar Rosendo e Dorico na esquina. Dessa vez a gente ia experimentar o Poço da Manjerona, lugar fundo, perigoso, mas muito carregado de peixe. Merenda não era preciso, lá não faltava juá, veludinho, amora; mesmo assim passei na venda de Horacinho Conde e comprei seis garrafinhas de cacau com licor dentro, duas para cada um, porque na certa Rosendo e Dorico iam levar doces, biscoitos, e eu não queria ficar só no venha-a-nós.
A areia fina do caminho parece que tinha acabado de sair do forno, era a gente erguer um pé e o outro já estava ardendo pedindo socorro, íamos pulando e catando os poucos tufos de capim que apareciam aqui e ali. Mas foi bom porque ninguém parou para olhar passarinho, jogar pedra em calango, pegar borboletas, essas bobagens que só servem para atrasar pescaria.
A água funda parada, fresca na sombra das folhagens, não era para ser desperdiçada naquele calor. Eu dei a ideia de uma caída, Dorico aprovou e foi tirando a roupa; Rosendo falou em perigo de congestão, mas ele estava era com medo do poço que já tinha matado a Manjerona, isso eu percebi e fiquei meio com medo também. Olhei Dorico marcando pulo e pulando, acabei de tirar a roupa e pulei atrás sem pensar. Por ter medo de doença, quarto escuro e outras coisas Rosendo até que era chamado de Rosinha, e eu não queria que mudassem o meu nome, que era fácil de amulherar.
Demos só uma caída para não espantar os peixes, pulando um pouco para ajudar o corpo a secar e vestimos a roupa, cada um iscou o seu anzol e começamos a pescaria. A bandeja formada na água pela queda do meu anzol ainda não tinha se desmanchado e um peixe já mordia a isca. Fisguei depressa, puxei um lambari, mas tão pequeno que soltei de novo.
— Jogou fora? Tudo serve! — disse Rosendo penalizado. Eu disse que se aquele lambarizinho fosse pegado no meio da pescaria eu não me incomodava de ficar com ele, mas para o primeiro só servia um grande.
Daí a pouco a linha de Rosendo esticou, ele fez força, a vara amolgou. Seria matrinxã?
— Dá um arranco! Está esperando o quê? — disse Dorico nervoso.
Rosendo obedeceu, a vara quase quebrou. Ele pegou pela linha, puxou, saiu uma bainha de facão fisgada pela alça. Eu e Dorico rimos, Rosendo fechou a cara, jogou a bainha no mato atrás dele.
Ficamos ali tirando e jogando o anzol, nenhum peixe mordia. Rosendo disse que a culpa era minha e de Dorico, com a nossa mania de tomar banho tínhamos espantado os peixes. Dorico resmungou que pescaria é assim mesmo, quem não tem paciência não deve se aventurar; pescar não é apanhar jabuticaba.
Eu já estava com vontade de mudar de lugar, mas com essa crítica de Dorico resolvi aguentar um pouco mais. Mudei a minhoca, que já estava branquela de tanto ficar n’água, esperei. De repente a linha de Dorico retesou, ele fez força, e pelo jeito que a linha ia e vinha quando ele puxava e afrouxava eu vi que aquilo não era peixe. Dorico puxou devagar e seguido, com tato para não arrebentar a linha, e tirou uma maçaroca de gravetos.
— É. Os peixes estão ariscos mesmo. Vamos ver noutro lugar — disse ele.
Recolhemos os anzóis, enrolamos a linha e fomos procurar outro poço. Para não entrar no mato fechado da beira do rio voltamos à estrada, me atrasei apanhando uns veludinhos, estava limpando um para comer quando ouvi trote de animal atrás. Dei caminho sem olhar, levei uma chicotada no ombro. Me virei, era Josias montado na besta de sela deles.
— Aí, peba! — disse ele rindo, antes que eu xingasse. — Pensou que era o quê? — Pensei nada. Me assustei.
— Se doeu me desculpe. Pescando? Pegou muito? Expliquei a falta de sorte, a mudança de lugar. Pedi garupa para alcançar os outros. Dei a vara para ele segurar, e quando ia montando Dorico e Rosendo apareceram voltando.
— Ih, rapaz! Você subiu aí sozinho? Não vai poder descer — disse Dorico.
Rosendo caiu na risada, ele achava graça em tudo. Josias vingou-se perguntando se eu e Dorico tínhamos agora um bobo para carregar nosso peixe. Rosendo desmanchou o riso de repente, ele era meio lerdo para arranjar resposta na hora. Josias derrubou uma abelha com uma chicotada e propôs: — Sabem o quê? Vamos comigo no sítio. Vou dar uma olhada ligeira lá e volto logo. É légua e meia só.
Rosendo disse que não podia, não saía para longe sem licença da mãe.
— Então vamos só nós três — disse Dorico. Vendo que Rosendo estava em dúvida, manobrei: -— É mesmo. Rosendo fica aí pescando.
Pois sim que Rosendo tinha coragem de ficar sozinho na beira do rio, e muito menos perto do Poço da Manjerona. Ele olhava para um, para outro, consultando, acuado. Por fim, entregou-se: — Vamos. Mas nada de inventar dormir lá.
— Nem se quisesse — disse Josias. A casa está vazia, não tem ninguém lá.
— Quem é que vai a pé e quem é que vai montado? — Dorico quis saber.
— Vamos revezando — disse Josias. — Um na garupa, outro na sela.
Escondemos as varas numa moita, marcamos o lugar quebrando um pé de caité. Josias encostou a mula num barranco, Dorico subiu para a garupa, Josias picou a mula.
Quando chegou a minha vez de montar com Rosendo eu vi que ele era ainda mais mole do que a gente pensava. Para ele subir na garupa foi um custo, fazia menção de subir, ficava com medo, não ia. A mula percebeu e se mexia quando ele ia montando, até parecia brincadeira. Propus que ele montasse na sela e me desse a garupa, Josias proibiu, disse que a mula podia disparar quando sentisse mão mole na rédea. Finalmente Josias segurou a mula pelo freio, Dorico ajudou Rosendo, só assim ele montou.
Se pra montar Rosendo foi mole, montado piorou. Ele não se firmava na garupa, parecia uma abóbora solta, estava sempre escorregando para um lado ou para o outro, com isso me puxava também, duas vezes quase caímos os dois, outra vez eu tive que catar ele já quase no vazio da mula.
No córrego perto do sítio a mula parou para beber água, afundou o queixo no remanso e parecia que não ia tirar mais. Vendo o gosto dela em chupar a água pelo pescoço acima, fazendo dois pilõezinhos no lugar onde batia o vento da respiração, eu também deitei na beira do córrego e bebi como animal. Os outros fizeram o mesmo, depois molhamos a cabeça para refrescar e deitamos na sombra. Com tanta água balançando na barriga quando a gente mexia o corpo na grama, ninguém tinha vontade de andar nem de conversar. O assovio do rabo da mula espantando mosquito dava vontade de dormir, eu pelo menos cheguei a cochilar. De repente Josias deu aquele grito: — Uma cobra! Me mordeu! Bem aqui no pescoço! Me levantei de um pulo, eu tinha tanto medo de cobra como de assombração. Olhei e ainda vi o resto de uma cobrinha parda sumindo atrás de uma pedra. Procurei um pau para matá-la, Josias falou gemendo: — Deixe a cobra e me acode que ela me pegou feio. Cheguei perto, olhei o lugar que ele mostrava no pescoço, vi os buraquinhos, — dois vermelhos em cima; dois mais apagados embaixo. Rosendo e Dorico vieram correndo afivelando o cinto, cada um saindo de detrás de uma moita.
— Se vocês chuparem o lugar depressa, o veneno sai — disse Josias gemendo. — Mas tem que ser depressa, senão não adianta mais.
Olhei para Dorico, para Rosendo, esperando que um deles chupasse. Ouvi dizer que para chupar veneno de cobra é preciso forrar a boca com fumo, ninguém ali tinha fumo. Josias rolava para um lado e para o outro no capim, chorando, pedindo: — Façam essa caridade, senão eu morro! Camilo! Dorico! Chupem o sangue, pelo amor de Deus! Eu não quero morrer! Não me deixem morrer! — Quem sabe se espremendo o lugar... — disse Dorico. Me abaixei para espremer, Josias gritou que deixasse, estava doendo demais e não ia adiantar. O pescoço dele estava vermelho, o avermelhado se espalhando, para cima já tomava a orelha.
— Não estou enxergando direito. Parece que tem uma peneira na minha frente. Quero beber água — disse Josias com dificuldade, como se tivesse o queixo preso.
Dorico apanhou uma folha grande de inhame, fez cumbuca, trouxe pingando. Josias quis beber, a água escorreu pelo queixo, molhou todo o peito. Eu apanhei uma folha menor, a cumbuca chegou com um tiquinho de nada, nem isso ele bebeu. A testa, o queixo, o lugar do bigode nele porejavam de suor, e notei que os olhos estavam vidrados. Lembrei dos índios, que dizem que conhecem ervas milagrosas; eu não conhecia nenhuma, peguei uma qualquer desejando que fosse milagrosa, esfreguei na palma da mão para tirar o sumo, não saiu sumo nenhum; mastiguei para fazer papa, fiquei com a língua queimando, parecia que eu tinha chupado brasa. Ajoelhei perto de Josias, perguntei se ele podia continuar viagem, ele não respondeu, só gemia.
Perguntei a Dorico o que era que a gente podia fazer, não adiantava consultar Rosendo, ele estava fincado no chão como estaca desde o princípio, os olhos arregalados, olhando para um e para outro.
— Temos que levar para o sítio. Aqui não adianta ficar — disse Dorico. — Um de nós dois monta e leva ele na frente da sela.
Passei a rédea por cima do pescoço da mula, montei. Dorico ergueu Josias e me ajudou a enganchar ele na cabeceira da sela, ele estava molengo como menino dormindo.
Deitamos Josias na mesa da sala, foi mais fácil porque os colchões das camas estavam enrolados e amarrados. Com muito custo encontramos uma caixa de fósforo debaixo de uma panela na prateleira da cozinha, gastamos quase todos os paus e não conseguimos acender fogo. Dorico achou melhor desistir, íamos precisar de fósforo para acender a luz de noite. Josias não gemia mais, só roncava, de vez em quando engrolava umas palavras que ninguém entendia.
Dorico desarreou a mula e mandou Rosendo arranjar milho, Rosendo rodou, rodou e não achou; eu fui ao paiol, tinha milho para uma tropa, descasquei umas espigas e pus no cocho. Rosendo era mesmo um dois-de-paus.
Ficamos sentados no banco da sala vigiando Josias, espantando os mosquitos que queriam pousar na cara dele. Dorico já estava ficando nervoso, disse que era melhor um de nós ir na cidade chamar o pai de Josias com remédio. Rosendo apoiou e pediu que eu fosse, eu entendi que era porque ele não queria ficar sozinho no sítio comigo, Dorico tinha mais paciência com ele.
Arreei a mula, montei — e quem disse que ela saía? Fiz tudo o que eu sabia para forçar um animal a andar, ela levantava a cabeça, dava uns passos de lado, como se aquilo fosse hora de dançar, fungava mas não atendia. Dorico rodou em volta da casa, achou uma vara pontuda, cutucou a mula com ela na anca, nas virilhas, na barriga, ela encolhia o corpo, dava coice de lado, andava para trás, para diante não ia.
— Você bate e eu puxo — disse Dorico.
Ele agarrou as duas bandas da rédea por baixo do queixo da mula, ela fincou as duas mãos no chão e esticava o queixo para diante ao máximo, como quem diz leva-o-queixo-se-quiser, e não dava um passo.
Dorico deu um safanão forte para baixo, largou a rédea, cocou a cabeça.
— Vai não. A desgramada empacou mesmo. Pode descer. Já estava escurecendo e Josias não melhorava, cada vez que eu olhava ele parecia pior, mais largado. Acendemos o candeeiro com os últimos paus de fósforo e ficamos sentados no banco sem saber o que fazer. A nossa esperança era que alguém sentisse a nossa falta, a de Josias principalmente, e se lembrasse de procurar no sítio.
Nas conversas que conversamos, mais eu e Dorico porque Rosendo não abria a boca, descobri que nós dois estávamos ficando com raiva de Josias por ele ter metido na nossa cabeça a ideia daquele passeio. A gente podia estar em casa, ou brincando no largo da igreja, e estava ali naquela situação.
Uma hora eu olhei para Josias e achei ele diferente, assim muito parado, como um boneco de massa que eu vi uma vez jogado num monte de cisco. Senti um arrepio por dentro mas não disse nada, eu não queria ser o primeiro a descobrir.
Dorico levantou para beber água, encheu o copo no pote, enquanto bebia olhou para Josias, parou no meio. Chegou perto da mesa, com a mão esquerda apalpou a testa de Josias. Largou o copo, escutou Josias no peito. Olhou para mim com medo e disse: — Será que ele morreu? Eu acho que ele morreu.
Eu não me assustei muito porque mais ou menos já sabia, mas Rosendo soltou um grito e pulou do banco, olhou para mim, para Dorico, segurou o braço de Josias, falou baixo: — Josia. Josia. Não. Morre não, Josia.
Vendo que Josias não ouvia mais, ele largou o braço de repente e recuou soluçando. O braço caiu largado, a mão bateu na mesa com as costas e fez um barulho fofo. Esse barulho vindo do corpo de Josias como que me acordou, eu sabia que ele estava morto mas ainda não tinha compreendido, ouvindo o barulho compreendi. Olhei para Dorico já sentado no banco, ele chorava baixinho diferente de Rosendo que estava de bueiro aberto. Sentei perto dele, Rosendo sentou também depressa, com medo de ficar em pé.
O vento batendo no candeeiro não deixava a sombra da mesa ficar quieta, e com ela balançando para lá e para cá no chão não era possível pensar firme. Minha vontade era sair dali correndo, para longe, toda a vida, sem parar. De repente Dorico falou alto, zangado: — A culpa foi dele. Quem mandou ele inventar de trazer a gente?
Rosendo olhou espantado para ele, falou pedindo: — Diz isso não! Coitado! Ele morreu!
— Quem mandou? A gente estava tão bem pescando...
Foi ele dizer isso e um vento forte deitou a chama do candeeiro, deitou, eu corri para defendê-la com a mão, foi tarde. A escuridão foi como um mergulho em poço fundo, quando falta o fôlego. Ouvi Rosendo falando baixo: — Camilo... Dorico... Fiquem perto de mim!
Senti uma mão me pegando, gelei de susto. Era Dorico.
— Vamos para fora — disse Dorico.
Saímos agarrados um no outro, tateando pelo encosto do banco, pela parede, encontramos o corredor, avistamos o escuro mais claro da porta.
Sentados no cepo da frente, mais garantidos pela companhia da mula, que cocava as costelas com os dentes ali perto, ficamos esperando a noite passar, falando pouco para não falar muito em Josias, mas não pensar nele era impossível. Eu me lembrei das brigas que tivemos, uma vez chegamos a nos atracar e rolar no chão por causa de uma bobagem de uma lapiseira rachada que ele achou e não quis deixar eu ver; o pior foi que quando ele já estava caído por baixo de mim eu ainda dei um murro no nariz dele e tirei sangue, sem necessidade nenhuma. Depois voltamos a ser amigos, mas será que agora morto ele continuava me perdoando? Para garantia eu pedi perdão em pensamento e prometi rezar por ele na missa.
Aí eu me lembrei que já era quase domingo! A mãe de Josias esperando para a missa e ele não chegando, depois chegando morto... Pensei nisso, na nossa cara na hora de entregar Josias em casa... Criei coragem, dei uma ideia.
— E se a gente deixasse ele aqui e fosse embora? Ninguém sabe que viemos com ele...
No escuro não vi a cara que os outros fizeram; mas ouvi a voz de Rosendo, agora falando alto: — Deixar ele aqui? Sozinho?
Não respondi, esperando Dorico. Ele demorou um pouco, falou.
— A gente podia enterrar ele aqui mesmo e não dizer nada. Deve ter ferramenta aí, quando clarear a gente procura.
— Enterrar aqui? Sem caixão, sem reza? — disse Rosendo, sempre puxando para trás.
— O que é que tem? Já morreu mesmo, e não foi culpa nossa — disse Dorico.
— Isso não. Ele é nosso amigo, não podemos fazer isso. E pode também ser pecado. Temos que levar, de qualquer jeito.
Rosendo falou em pecado, vi logo que não adiantava insistir. Se a gente deixasse o corpo no sítio, ou enterrasse, Rosendo na certa ia contar.
Eu estava muito cansado, recostei na parede e não falei mais, o que eles dois resolvessem eu acompanhava. Pensei na minha cama limpa e arrumadinha, sábado era dia de minha mãe trocar o lençol e a fronha, e só de pensar senti cheiro de pano limpo e da paina do travesseiro. Fiz força para não dormir porque achei que era nossa obrigação ficarmos acordados a noite inteira. Me distraí prestando atenção no cantar dos galos, no berro das vacas, no pio dos curiangos na cerca do curral. De vez em quando eu dava um cochilo e acordava assustado, cuidando ter ouvido a voz de Josias. Com o seria bom se Josias acordasse, assim como quem volta de um desmaio, pulasse da mesa e viesse conversar com a gente, rindo do nosso susto e contando tudo o que tinha passado... Depois nós quatro entrando na cidade como se nada tivesse acontecido...
Finalmente apareceram umas nuvens lanhadas de vermelho por cima do vulto escuro dos morros, sinal de que o dia estava perto. Não demorou muito e a mula levantou-se, abriu as pernas, rolou o corpo entre elas, sacudiu o rabo, estava nova. Levantamos também, esticamos o corpo, esvaziamos a bexiga ali mesmo na frente da casa e entramos na ponta dos pés, evitando de olhar para a mesa. Dorico descobriu um cacho de bananas pendurado em um caibro na despensa, não estavam bem maduras mas comemos algumas, bebemos água por cima.
— Será que a mula desempaca? — disse Dorico.
Arreei a mula sem muita esperança. Dorico montou para experimentar, fizemos de novo tudo aquilo de bater, puxar, cutucar, nada adiantou.
— Tem que ser no pé mesmo — disse Dorico.
Eu disse que a gente podia cortar dois paus grossinhos e arranjar um cobertor ou um lençol para fazer um banguê, Dorico foi contra: — Vamos cortar pau não. Fica tarde. Se tivesse uma rede aí...
Procuramos, não tinha ou estava numa canastra trancada com chave. Na despensa tinha um saco grande com um resto de café. Dorico achou que podia servir; despejamos o café num canto, sacudimos o saco para tirar o cisco, criamos coragem e fomos experimentar se servia.
Enfiamos o saco pelos pés de Josias e fomos puxando pelo corpo acima, ele estava duro como tábua. A cabeça ficou um pouco de fora, tivemos que forçá-la para dentro. Amarramos a boca com uma embira. Dorico pegou pela boca, eu peguei pelas orelhas do fundo, encarregamos Rosendo de dar um jeito de fechar a porta e saímos.
Mas o pano do saco era grosso demais, logo começou a castigar nossas mãos. Eu mudava de mão toda hora, acabei carregando com as duas, e quando fiquei muito cansado chamei Rosendo para ajudar, ele ia atrás sem fazer nada.
Rosendo carregou um pouquinho só, disse que ia largar, largou. Dorico também já não aguentava, mostrou as mãos, estavam mais vermelhas do que as minhas, ele tinha ficado com o lado mais pesado. Descansamos o saco e sentamos na beira da estrada, cada um pensando numa ideia que desse mais certo.
Quem deu solução foi Rosendo, uma solução tão boa que eu fiquei desapontado por ter feito pouco caso dele. Ele apontou um pau comprido no cerrado, guatambu devia ser, e disse que se a gente conseguisse quebrar aquele pau podia prender o saco nele com nossos cintos e carregar no ombro. Dorico olhou o pau, olhou o saco no chão, experimentando a ideia. Depois riu — a primeira vez que um de nós ria depois da chegada no córrego.
— Você até que não é burro não, Rosendo. Vamos ver se quebramos o pau — disse Dorico.
Custou, mas quebramos — pendurando, pisando, torcendo, esfolando as mãos. Depois quebramos a copa, que foi mais fácil, e um ou outro galhinho fino. Prendemos o saco nele com os cintos, como Rosendo disse, amarramos as calças com cipó, fizemos acolchoados de folhas para os ombros e seguimos, nem foi preciso parar para descansar, quando cansava um ombro a gente mudava para o outro.
O nosso medo era encontrar alguém pelo caminho, mas felizmente ninguém achou de andar por aquela estrada naquela hora. Quando íamos chegando na ponte Dorico virou a cabeça para trás e disse: — Vamos combinar. Se alguém perguntar a gente diz que é porco.
Eu achei que não ficava bem, porco sendo um bicho tão sujo. Procurei outro para trocar, vi que nenhum mais servia por causa das pernas.
Quando entramos na cidade eu fui ficando aflito porque nenhum de nós tinha pensado no que dizer na hora de entregar o saco. A minha vontade era largar o saco no corredor da casa de Josias e sair correndo, não dei a ideia porque sabia que Rosendo não ia concordar.
De longe avistamos D. Ritinha na porta olhando para um lado e para o outro. Foi ela nos ver e vir correndo para nós. Se eu pudesse sumir, ficar invisível, virar passarinho...
— Vocês viram o meu Josias? Vocês não estavam juntos? Paramos diante dela, a vara arqueou com a parada. Ninguém teve coragem de responder.
— Ele foi ao sítio para voltar ontem mesmo, e até agora. Pensei que vocês estavam juntos, vocês também sumiram. Estou aflita porque lá não tem ninguém para fazer um chá se ele tiver uma dor. Belmiro quis ir atrás mas não achou animal, e não podia ir a pé por causa do reumatismo.
Rosendo caiu no choro, Dorico caiu no choro. Eu chorei mais forte porque vi a cara de D. Ritinha adivinhando e não querendo acreditar. Com o se fosse uma combinação nossa, baixamos a vara com o saco perto dela e saímos correndo, perseguidos pelo grito dela, até hoje.

— José J. Veiga, no livro "Os melhores contos de J. J. Veiga". seleção de J. Aderaldo Castelo. São Paulo: Global Editora, 2000.

A espingarda do rei da Síria - José J. Veiga

Paul Gauguin
A espingarda do rei da Síria

A Vida não estava tratando bem o Juventino Andas desde que ele perdera a espingarda numa espera. Para um caçador de fama e rama, perder a espingarda numa espera pode parecer um feito desonroso — mas é preciso atentar para as circunstâncias. Ninguém esperava chuva aquela noite, e choveu; a lanterna, que ele havia experimentado antes de sair de casa, falhou no mato; e o cavalo, assustado por alguma onça, arrebentou o cabresto e fugiu. Foi quando procurava o cavalo na noite escura que Juventino rolou numa grota, perdeu a espingarda e ainda destroncou um braço. No outro dia o cavalo apareceu na porteira de Seu Ângelo Furnas com a sela quase na barriga e a crina cheia de carrapicho. Seu Ângelo reconheceu-o e o recolheu e mandou recado para Juventino. Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que o assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse agora teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nuca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda de Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado: — Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada: — Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas? Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão.
Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia! Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinha. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da espingarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cabeça aqui e ali. Juventino encheu o cachimbo mais uma vez, e enquanto soprava levemente a fumaça — não soprava forte porque queria ver o redemunho iluminado pela fresta de um olho-de-boi no telhado — ele pensava nas pessoas que logo o estariam visitando para ver a espingarda e elogiar a qualidade dela, evidente a qualquer pessoa que conhecesse pelo menos um pouco de arma de fogo.
O primeiro que ele gostaria de ver era Manuel Davém. Pagaria a pena ver a cara dele quando o estojo fosse aberto e a espingarda exibida. Com certeza Manuel ia querer manejá-la, examinar o cano por dentro, e até pedir para dar uns tiros, mas isso Juventino não consentiria, uma espingarda para ser sempre boa não deve andar de mão em mão, como pertence de grêmio.
Juventino não havia ainda terminado com Manuel Davém quando o coronel Bernardo Campeio gritou ó-de-casa no corredor e foi entrando sem esperar resposta. Usava chapéu de copa redonda — não amassava para não estragar — paletó de peito fechado, como blusa de soldado, chinelos de couro de anta e bengala de guatambu. Entrou e foi descansando a bengala e o chapéu em cima da mesa e procurando o lenço para enxugar a testa e a carneira do chapéu, suor estraga muito o couro.
A visita do coronel deixou Juventino incomodado porque as relações entre eles não andavam muito boas desde que o coronel cessara de convidar Juventino para o jogo de truco. E da maneira que as coisas aconteceram dava mesmo para desconfiar. Juventino era parceiro certo todos os sábados, e nos intervalos cantava modinha com a filha do coronel, a menina Andira. Diziam que havia namoro entre os dois, mas nessas coisas o povo conversa muito. Um dia Andira não apareceu na sala, e quando alguém perguntou por ela — não Juventino, ele era muito discreto — a mãe informou que se deitara cedo com dor de cabeça. Da vez seguinte também não apareceu, tinha ido visitar umas amigas. E antes do terceiro sábado o coronel Bernardo mandara dizer que o jogo estava suspenso por enquanto, quando recomeçasse avisaria. Depois Juventino soube que estavam jogando sempre, só não haviam jogado uma vez. A gente bate na cangalha para o burro entender, pensou Juventino — e guardou a mágoa.
O coronel Bernardo estava agora na frente de Juventino enxugando o suor da testa. Juventino levantou sem dizer nada, não queria comprometer-se nem por um lado nem por outro. Se a visita fosse de paz, o gesto de levantar-se podia ser tomado como uma deferência; se fosse de guerra, seria um movimento estratégico.
O coronel guardou o lenço no bolso traseiro da calça, com certa dificuldade porque a blusa era comprida e justa, e disse em sua voz grossa descansada: — O senhor ganhou na loteria, Seu Juventino?
— Que me conste, não... Mas não atino.
— Pensei, não é? Deixou de procurar os pobres... Juventino pensou para ver se entendia, depois disse: — Coronel, eu só gosto de ir onde sou esperado.
— Pois lá em casa todos estamos te esperando. Andira sempre pergunta, Anica também vive clamando a sua falta. Pensam que você está estremecido com a gente. Eu disse que com certeza você ficou rico.
— Ora essa, coronel...
— Fale franco comigo, Seu Juventino. Onde entra a franqueza não entra a vileza.
Essa era boa, pensou Juventino. Agora a culpa era dele! — Eu cuidei que estava estorvando, coronel...
— Com efeito, Seu Juventino! A sua falta é que estorva. Quem entende uma coisa dessas, pensou Juventino. Quando a gente pensa que está rostindo, está tinindo, quando pensa que está chegando está zarpando. Erra quem confia, erra quem desconfia. Quem desiste acerta? Ficou combinado que à noite Juventino comparecia para um truco extraordinário, e o coronel pediu licença para ir chegando, precisava encomendar os perus e os leitões e ver se o Tome tinha foguetes prontos.
Juventino não quis olhar mais longe porque já adivinhava que antes do Ano Novo ele e Andira estariam casados.
Ele estava ainda sorrindo sozinho quando a porta abriu-se novamente com um chiado tímido e uma figura magra e baixota apareceu na sala. Vestia roupa preta, colarinho duro e chapéu felpudo debruado. Era o Dr. Góis — Deodato Góis Félix — proprietário da empresa de força e luz, de quase todas as casas da Rua Direita, do único automóvel da vila, e o homem a ser adulado pelos candidatos a intendente. Não era um homem com quem Juventino normalmente conversasse, o Dr. Góis tinha inclinações aristocráticas, só falava com proprietários, assim mesmo nem todos, e não tomava a iniciativa de cumprimentar ninguém, quem quisesse ouvir-lhe a voz teria que falar primeiro. Sabendo disso, Juventino não perdia tempo com ele, tinha um emprego vitalício e não precisava sabucar ninguém.
Vendo-o entrar em seu gabinete, Juventino não se levantou, como manda a cortesia; mas o Dr. Góis não se mostrou ofendido. Cumprimentou Juventino, e até muito alegre. Juventino respondeu sem entusiasmo, e nada fez para encadear a conversa, se é que o Dr. Góis queria conversar. Uma pessoa sem traquejo ficaria embaraçada com essa frieza, mas não o Dr. Góis. Ele sabia o que fazer em qualquer ocasião, e fazia-o com naturalidade. Enfiando a mão no bolso esquerdo do paletó, tirou uma penca de bananas-ouro bem madurinhas, podia-se ver o chamuscado da casca e sentir o cheiro. O Dr. Góis quebrou duas gêmeas para ele e passou a penca a Juventino.
— O senhor é servido? São muito macias, e não pesam no estômago. Meu pai dizia: das frutas, a banana; das bananas, a ouro.
Juventino tomou as bananas e foi comendo-as calado, não se sentia obrigado a dizer nada. A felicidade tem mais essa vantagem de deixar a pessoa ser ela mesma, não mudar diante de estranhos. Juventino foi comendo as bananas como gostava de fazer quando era criança, não as descascava, chupava-as por uma ponta, apertando a casca entre os dedos. As cascas espremidas ele ia jogando nas ripas do teto, umas caíam, outras ficavam presas. Parece que o Dr. Góis achou o divertimento interessante porque meteu a mão no outro bolso e tirou mais bananas para jogar as cascas nas ripas. De cada vez que conseguia encaixar uma, ria grosso na clave do ó, dava pulos e batia palmas.
Pareceu a Juventino que o doutor estava levando vantagem porque jogava as cascas abertas e de pé. Estabeleceram-se regras para o jogo, e como a maior parte das cascas acabaram presas no teto mandaram buscar mais um cacho de bananas para continuarem a brincadeira. Com o rumor que faziam, as pessoas que passavam na rua iam parando e chegando-se para olhar, chamavam outras, e logo as janelas do cartório estavam duras de gente.
Quando, horas depois, Juventino declarou que ia parar, o Dr. Góis insistiu que continuassem, estava tão bom o brinquedo. Juventino respondeu que tinha muito o que fazer, precisava escrever uma carta caprichada ao Rei da Síria. O doutor perguntou se não podia deixar para depois, seria uma pena terem que parar só por isso, mas Juventino disse que precisava comunicar ao rei o recebimento da espingarda, era uma questão de gentileza com Sua Majestade.
— Ora, uma espingarda! — disse o doutor fazendo pouco. — Vamos brincar. Eu interesso você em minha empresa.
Juventino respondeu que a proposta vinha tarde, agora ele estava comprometido com o Rei da Síria. O doutor agarrou-o pela manga e disse, instante: — A eleição vem aí. Eu faço você intendente.
— Grande! Grande! Viva o intendente! — gritou a multidão do lado de fora, alguns imitando com a boca o chiado e o estouro de foguetes.
Juventino chegou à janela e a gritaria aumentou. Era preciso fazer um discurso, seria bobagem esperar a formalidade de eleição, já estavam todos aplaudindo. Ele apoiou as mãos no batente, os dedos para dentro e os cotovelos para fora, pendeu o corpo para a frente e começou: — Povo de Manarairema! Antes que ele pudesse ordenar as ideias para a primeira frase um cavaleiro entrou afobado no meio da multidão, empinando o cavalo e espandongando gente. Era o tenente Aurélio, com crepe no chapéu e no braço.
— Morreu! Morreu! — gritava ele. — Morreu o Rei da Síria! Os sinos começaram a tocar, dos lados do Campo da Forca ouvia-se um toque triste de cometa, um foguete soltado do fundo de algum quintal, com certeza para festejar a proclamação do futuro intendente, voltou sem explodir, deixando no ar dois riscos de fumaça quase paralelos. A multidão foi se dispersando acabrunhada, muito provavelmente pensando na roupa que precisariam desencravar para a missa de sétimo dia.
Juventino virou as costas para a rua, sorrindo triste mas sorrindo. A espingarda estava ainda em seu estojo no chão ao pé da mesa. Ele ergueu o estojo, abriu-o em cima da mesa e tirou a espingarda. Era um belo trabalho de armeiro, com certeza feita por encomenda, e provavelmente não haveria duas iguais no mundo. Quanto teria custado? Quanto valeria? Juventino correu a mão pela arma, do cano à coronha, sentindo a frieza do aço e a lisura pegajosa do verniz novo.
Não era preciso apagar o brasão. Ficava para valorizar.

— José J. Veiga, no livro "Os melhores contos de J. J. Veiga". seleção de J. Aderaldo Castelo. São Paulo: Global Editora, 2000.

A usina atrás do morro - José J. Veiga

Willard Metcalf 
A usina atrás do morro

Lembro-me quando eles chegaram. Vieram no caminhão de Geraldo Magela, trouxeram uma infinidade de caixotes, malas, instrumentos, fogareiros e lampiões, e se hospedaram na pensão de D. Elisa. Os volumes ficaram muito tempo no corredor, cobertos com uma lona verde, empatando a passagem.
De manhãzinha saíam os dois, ela de culote e botas e camisa com abotoadura nos punhos, só se via que era mulher por causa do cabelo comprido aparecendo por debaixo do chapéu; ele também de botas e blusa cáqui de soldado, levava uma carabina e uma caixa de madeira com alça, que revezavam no transporte. Passavam o dia inteiro fora e voltavam à tardinha, às vezes já com o escuro. Na pensão, depois do jantar, mandavam buscar cerveja e trancavam-se no quarto até altas horas. D. Elisa olhou pelo buraco da fechadura e disse que eles ficavam bebendo, rabiscando papel e discutindo numa língua que ninguém entendia.
Todo mundo na cidade andava animado com a presença deles, dizia-se que eram mineralogistas e que tinham vindo fazer estudos para montar uma fábrica e dar trabalho para muita gente, houve até quem fizesse planos para o dinheiro que iria ganhar na fábrica; mas o tempo passava e nada de fábrica, eram só aqueles passeios todos os dias pelos campos, pelos morros, pela beira do rio. Que queriam eles, que faziam afinal? Encontrando-os um dia debruçados na grade da ponte, apontando qualquer coisa na pedreira lá embaixo, meu pai cumprimentou-os e puxou conversa; eles olharam-no desconfiados, viraram as costas e foram embora. Meu pai achou que talvez eles não entendessem a língua, mas depois vimos que a explicação não servia: quando encontraram o preto Demoste de volta do pasto com a mula do padre eles conversaram com ele e perguntaram se lobeira era fruta de comer. E como poderiam viver na pensão se não conhecessem um pouco da língua? Por menos que falassem, tinham que falar alguma coisa.
O que me preocupou desde o início foi eles nunca rirem. Entravam e saíam da pensão de cara amarrada, e o máximo que concediam a D. Elisa, só a ela, era um cumprimento mudo, batendo a cabeça como lagartixas. Aprendi com minha vó que gente que ri demais, e gente que nunca ri, dos primeiros queira paz, dos segundos desconfie; assim, eu tinha uma boa razão para ficar desconfiado.
Com o tempo, e vendo que a tal fábrica não aparecia — e não sendo possível indagar diretamente, porque eles não aceitavam conversa com ninguém — cada um foi se acostumando com aquela gente esquisita e voltando a suas obrigações, mas sem perdê-los de vista. Não sabendo o que eles faziam ou tramavam no sigilo de seu quarto ou no mistério de suas excursões, tínhamos medo que o resultado, quando viesse, pudesse não ser bom. Vivíamos em permanente sobressalto. Meu pai pensou em formar uma comissão de vigilância, consultou uns e outros, chegaram a fazer uma reunião na chácara de Seu Aurélio Gomes, do outro lado do rio, mas Padre Santana pediu que não continuassem. Achava ele que a vigilância ativa seria um erro perigoso; supondo-se que os tais descobrissem que estava havendo articulações contra eles, o que seria de nós que nada sabíamos de seus planos? Era melhor esperar. Naquele dia mesmo ele ia iniciar uma novena particular, para não chamar atenção, e esperava que o maior número possível de pessoas participasse das preces. Na sua opinião, essa era a providência mais acertada no momento.
Estêvão Carapina achou que um bom passo seria interceptar as cartas deles e lê-las antes de serem entregues, mas isso só podia ser feito com a ajuda do agente André Góis. Consultado, André ficou cheio de escrúpulos, disse que o sigilo da correspondência estava garantido na Constituição, e que um agente do correio seria a última pessoa a violar esse sigilo; e para matar de vez a sugestão falou em duas dificuldades em que ninguém havia pensado: a primeira era que, nos dias de correio, só um dos dois saía em excursão, o outro ficava de sobreaviso para ir correndo à agência quando o carro do correio passasse; a segunda dificuldade era que as cartas com toda certeza vinham em língua que ninguém na cidade entenderia. Que adiantava portanto abrir as cartas? Era mais um plano que ia por água abaixo.
Sem dúvida o perigo que receávamos nesses primeiros tempos era mais imaginário do que real. Não conhecendo os planos daquela gente, e não podendo estabelecer relações com eles, era natural que desconfiássemos de suas intenções e víssemos em sua simples presença uma ameaça a nossa tranquilidade. Às vezes eu mesmo procurava explicar a conduta deles como esquisitice de estrangeiros, e lembrava-me de um alemão que apareceu na fazenda de meu avô de mochila às costas, chapéu de palha e botina cravejada. Pediu pouso e foi Ficando, passava o tempo apanhando borboletas para espetar num livro, perguntava nomes de plantas e fazia desenhos delas num caderno. Um dia despediu-se e sumiu. Muito tempo depois meu avô recebeu carta dele e ficou sabendo que era um sábio famoso. Não podiam esses de agora ser sábios também? Talvez estivéssemos fantasiando e vendo perigo onde só havia inocência.
Imaginem portanto o meu susto e a minha indignação com o que me aconteceu uma tarde. Eu tinha ido à pensão receber o dinheiro de uns leitões que minha mãe havia fornecido a D. Elisa e na saída aproveitei a ocasião para dar uma olhada nos caixotes empilhados no corredor. Levantei uma beirada da lona e vi que eram todos do mesmo tamanho e com os mesmos letreiros que não entendi. Ia puxando novamente a lona quando notei uma fenda em um deles, e como não passava ninguém no momento resolvi levar mais longe a minha inspeção. Abri o canivete e estava tentando alargar a fenda quando senti o corredor escurecer. Pensei que fosse a passagem de alguma nuvem, como às vezes acontece, e esperei que a claridade voltasse. Voltou, mas foi uma mão pesada agarrando-me pelo pescoço e jogando-me contra a parede. O puxão foi tão forte que eu bati com a cabeça na parede e senti minar água na boca e nos olhos. Antes que a vista clareasse, um tapa na cabeça do lado esquerdo, apanhando o pescoço e a orelha, mandou-me de esguelha pelo corredor até quase a porta da rua. Apoiei-me na parede para me levantar, e um pontapé nas costelas jogou-me esparramado na calçada. Erguendo a cabeça ralada do raspão na laje, vi o homem de culote e blusa cáqui em pé na porta, com as mãos na cintura, olhando-me mais vermelho do que de natural. Com a cabeça tonta, o ouvido zumbindo e o corpo doendo em vários lugares, e o canivete perdido não sei onde, não me senti com disposição para reagir. Apanhei umas coisas caídas dos bolsos, bati o sujo da roupa e desci a rua mancando o menos que pude.
Felizmente não passava ninguém por perto. Se alguém soubesse da agressão haveria de querer saber o motivo, e como poderia eu contar tudo e ainda esperar que me dessem razão? Para não chegar em casa com sinais de desordem no corpo e na roupa desci até o rio, lavei o sangue dos ralões do punho e da testa e o sujo do paletó e dos joelhos da calça, enquanto pensava um plano eficiente de vingança. Uma pedrada bem acertada na cabeça, ou uma porretada de surpresa, resolveria o meu caso. Ele não perderia por esperar.
Mas eu estava enganado quando supunha que ninguém tinha visto. Em casa encontrei mamãe aflita. Meu pai tinha saído à minha procura, armado com a bengala de estoque. Fiquei sabendo então que D. Lorena costureira tinha visto tudo de sua janela do outro lado da rua e fora correndo contar à vizinha dos fundos — e a notícia espalhou-se como fogo em capim seco. Foi por isso que meu pai, ao dobrar a primeira esquina, foi cercado por um grupo de amigos que não o deixaram prosseguir. Achavam todos, e com razão, que ele não devia agir enquanto não me ouvisse. Tive então que contar tudo, mas achei bom não dizer que tinha sido apanhado escarafunchando o caixote; disse apenas que tinha dado uma palmada nele por cima da lona.
Isso trouxe uma longa discussão sobre o possível conteúdo dos caixotes, e concordamos que devia ser qualquer coisa muito preciosa, ou muito delicada, a ponto de uma palmada por fora deixar o dono alarmado. Mas que coisa poderia ser que preenchesse essa ampla hipótese? Meu pai achou que estávamos perdendo tempo em aceitar a situação passivamente, enquanto em algum lugar, sabe-se lá onde, gente desconhecida podia estar trabalhando contra nós; era evidente que aqueles dois não agiam sozinhos. As cartas que recebiam e os relatórios que mandavam eram provas de que eles tinham aliados. O que devíamos fazer sem demora, propôs meu pai, era procurar o delegado ou o juiz e pedir que mandasse abrir os caixotes, devia haver alguma lei que permitisse isso. Se não fosse tomada uma providência, as coisas iriam passando de mal a pior, e um dia quando acordássemos nada mais haveria a fazer.
O delegado, como sempre, estava fora caçando. O juiz foi compreensivo, mas disse que dentro da lei nada se podia fazer, e acrescentou, mais aconselhando que perguntando: — Naturalmente não vamos querer sair fora da lei, não é verdade? Quanto à agressão, se meu pai quisesse fazer uma queixa, o delegado teria que abrir inquérito — desde que houvesse testemunhas.
Como a única pessoa que tinha visto parte do incidente era D. Lorena, meu pai foi o primeiro a reconhecer que contar com ela seria perder tempo. D. Lorena era dessas pessoas que têm medo até de enxotar galinha. No inquérito, na presença do agressor, ela cairia em pânico e juraria nada ter visto. Assim, a despeito de toda atividade continuávamos sem um ponto de partida.
De repente a situação começou a evoluir com rapidez, e fomos percebendo para onde éramos levados. O primeiro a se passar para o outro lado foi o carpinteiro Estêvão. Estêvão tinha uma chácara do outro lado do rio, atrás do morro de Santa Bárbara. Quando os filhos chegaram à idade de escola ele alugou a chácara a Seu Marcos Vieira, escrivão aposentado, e veio morar na cidade. Seu Marcos vinha insistindo com Estêvão para vender-lhe a chácara, mas Estêvão recusava, dizia que quando os filhos estivessem mais crescidos deixaria o ofício e voltaria para a lavoura.
Pois não é que Estêvão achou de vender a chácara para aqueles dois, num negócio feito em surdina? Meu pai disse que o procedimento dele não tinha explicação, nem pela lógica nem pela moral. Houve mistério na transação, isso era fora de dúvida. Apertado um dia por meu pai, Estêvão respondeu com estupidez, disse que fez o negócio porque a chácara era dele e ele não tinha tutor; depois, vendo o espanto de meu pai, seu amigo de tanto tempo, caiu em si e disse: — Vendi porque não tive outro caminho, Maneco. Não tive outro caminho.
Quando meu pai insistiu por uma explicação mais positiva, ele abriu a boca para falar, mas apenas suspirou, virou as costas e foi-se embora.
Seu Marcos teve que se mudar a bem dizer a toque de caixa. Quem fez a exigência foi o próprio Estêvão, que já estava servindo como uma espécie de procurador dos compradores. Seu Marcos pediu um mês de prazo, queria colher o milho e o feijão e precisava de calma para arranjar uma casa em condições na cidade. Estêvão respondeu que não estava autorizado a conceder tanto tempo, que uma semana era o máximo que podia dar. Quanto às plantações, Seu Marcos não se incomodasse, os compradores indenizariam o que ele pedisse; e se Seu Marcos tivesse dificuldade em encontrar casa, poderia mudar provisoriamente para a do próprio Estêvão, que ia para a chácara ajudar os compradores nas obras.
Todo mundo reprovou o procedimento dos compradores, e mais ainda o de Estêvão, que na qualidade de antigo proprietário e amigo poderia ter dito uma palavra em favor do velho Marcos; mas Estêvão era agora todo do outro lado, e nada mais se poderia esperar dele. Meu pai achou que não se devia dizer mais nada na frente de Estêvão, pois não seria de admirar que ele estivesse contratado para espião. Se quiséssemos nos organizar para a resistência, convinha não esquecer essa hipótese.
No mesmo dia que Seu Marcos, triste e ressentido, arriou seus pertences na casa desocupada por Estêvão, o caminhão de Geraldo Magela roncou na subida da ponte levando os estrangeiros na boleia e o carpinteiro Estêvão atrás, em cima da carga. Ao vê-los passar em nossa porta, meu pai virou o rosto, enojado; disse que nunca vira um espetáculo mais triste, um homem de bem como Estêvão, competente no seu ofício, largar tudo para acompanhar aquela gente como menino recadeiro.
Mas não deixou de ser alívio vê-los fora da cidade. Agora podíamos novamente frequentar a pensão de D. Elisa, conversar com os hóspedes, saber quem chegava e quem saía, sem necessidade de falar baixo nem de nos esconder.
Durante muitos dias, quase um mês, não vimos aqueles dois nem tivemos notícias deles. Estêvão de vez em quando vinha à cidade, mas não sei se por influência dos patrões, ou se por vergonha, ou remorso, não conversava com ninguém; fazia o que tinha de fazer, ia ao correio apanhar a correspondência, sempre uns envelopes muito grandes, e voltava no mesmo dia. Nem passava mais por nossa porta, que seria o caminho natural; dava uma volta grande, passando pela rua de cima.
Outro que também sumiu foi Geraldo Magela, parece que agora estava trabalhando só para os estrangeiros. Quando íamos pescar bem em cima no rio, ou apanhar cajus no morro, podíamos ouvir o ronco do caminhão trabalhando do outro lado. Uma vez eu e Demoste saímos escondidos para apurar o que estava se passando na chácara, mas quando chegamos na crista do morro achamos melhor não continuar. Haviam levantado uma cerca de arame em volta da chácara, muito mais alta do que as cercas comuns, e de fios mais unidos, e vimos sentinelas armadas rondando. Ficamos de voltar outro dia levando a marmota do padre, mas nem isso chegamos a fazer porque soubemos que o André gaguinho, que andara apanhando lenha do outro lado, fora alvejado com um tiro de sal na popa.
Um dia correu a notícia de que o casal não estava mais na chácara, havia subido o rio à noite num barco a motor. Devia ser verdade, porque Geraldo Magela voltou a aparecer na cidade. Achamos que agora, com ele ali à disposição, íamos afinal saber o que se passava na chácara de Estêvão. Geraldo sempre fora amigo de todos, deixava a meninada subir no caminhão, trazia encomendas para todo mundo, e quando o padre organizava passeios para os alunos de catecismo, fazia questão de contratar Geraldo, não aceitava oferecimento de nenhum outro, nem que tivéssemos de esperar dias quando calhava de Geraldo estar viajando.
Mas não levamos muito tempo para descobrir que Geraldo também era agora do outro lado. Ele que fora trabalhador e prestativo, sempre preocupado em poupar a mãe — desde que comprara o caminhão exigiu que D. Ritinha deixasse de lavar roupa para fora —, agora ficava horas no bilhar jogando ou bebendo cerveja e zombando dos peixotes. Quanto às obras que estavam sendo feitas na chácara, ele não dizia coisa com coisa. A meu pai ele disse que estavam apenas armando um pari, a outro disse que estavam instalando uma olaria. Quando Seu Marcos o interpelou com energia, ele deu uma resposta malcriada: — Vocês esperem. Vocês esperem que não demora.
E ficou olhando para Seu Marcos e assoviando, uma coisa que se D. Ritinha visse haveria de chorar de desgosto.
Vendo-o ali bebendo, fazendo gracinhas, faltando ao respeito com os mais velhos, e dando cada hora uma resposta, achei que ele estava apenas querendo fazer-se de importante, de sabedor de coisas misteriosas, talvez pelo desejo de imitar os patrões. Foi essa também a opinião de Padre Santana quando soube da resposta de Geraldo a Seu Marcos.
Foi mais ou menos nessa época que D. Ritinha apareceu lá em casa para desabafar com mamãe. Começou rodeando, falando nas mudanças que estava havendo em toda parte, e entrou no capítulo do procedimento dos filhos quando crescem.
— Para muita gente, ter filhos resulta num castigo, D. Teresa — disse ela. — Os desgostos acabam sendo maiores do que as alegrias.
Vi que mamãe ficou embaraçada, com medo de dizer alguma coisa que pudesse magoar D. Ritinha. Por fim, disse vagamente: — Os antigos diziam que filho criado, trabalho dobrado.
— Muito certo, D. Teresa. Veja o meu Geraldo. Um rapaz bem criado, inveja de muitas mães; de repente, esquece tudo o que eu e o pai lhe ensinamos.
Mamãe procurou consolá-la dizendo que o procedimento de Geraldo deveria ser resultado de uma influência passageira. A culpa era daqueles dois, que deviam estar enfiando coisas na cabeça dele; quando ela menos esperasse, ele mesmo ia abrir os olhos e arrepender-se. D. Ritinha tivesse paciência e confiasse em Deus. Aí D. Ritinha caiu no choro, disse que a culpa era dela, que o aconselhara a ir trabalhar para aquela gente. Ele não queria, mas ela insistira porque o ordenado era bom, até falara áspero com ele. Agora estava aí o resultado. De que adiantava o dinheiro sem a consideração do filho? Quando mamãe começou a chorar também, eu fiquei meio encabulado e saí sem destino.
Ao passar pelo chafariz encontrei Geraldo divertindo-se com um gato que havia jogado dentro do tanque. O bichinho esgoelava e pelejava para sair, e cada vez que ia chegando à beirada Geraldo cercava e dava-lhe um papilote na orelha. Fiquei olhando, com medo de salvar o pobrezinho e ter de brigar com Geraldo. Mas quando o pobrezinho veio subindo no ponto onde eu estava, e Geraldo gritou para eu cercar, eu estendi o braço e apanhei-o pela nuca, como fazem as gatas. Pensei que Geraldo ia querer tomá-lo, mas ele apenas olhou e foi-se embora dando gargalhadas e imitando o miado do gato, parecia coisa de louco.
Geraldo sabia o que estava dizendo quando mandou Seu Marcos esperar, porque um belo dia chegaram os caminhões. Chegaram de madrugada, e eram tantos que nem pudemos contá-los. A nossa lavadeira, que morava no alto do cemitério, disse que desde as três da madrugada eles começaram a descer um atrás do outro de faróis acesos. Atravessaram a cidade sem parar, descendo cautelosamente as ladeiras, sacudindo as paredes das casas nas ruas estreitas, passaram a ponte e tomaram o caminho da chácara como uma enorme procissão de vaga-lumes.
Daí por diante não tivemos mais sossego. Desde que amanhecia até que anoitecia eram aqueles estrondos atrás do morro, tão fortes que chegavam a chacoalhar as panelas nas cozinhas apesar da distância, nas paredes não ficou um espelho inteiro. Mamãe vivia rezando e tomando calmante, não queria mais que eu fosse além da ponte em meus passeios. Achei que fosse receio exagerado dela, mas verifiquei depois que a proibição era geral, de todas as mães.
Geraldo andava ocupado novamente lá do outro lado, e quando aparecia na cidade era guiando uns caminhões enormes, de um tipo que ainda não tínhamos visto, e sempre com uns sujeitos esquisitos na boleia, uns homens muito altos e vermelhos, os braços muito cabeludos aparecendo por fora da manga curta da camisa. Ficavam olhando para tudo com olhos espantados, entortavam o pescoço até o último grau para olhar a gente quando o caminhão já ia lá adiante. Paravam no botequim ou no armazém e metiam caixas e mais caixas de cerveja para dentro do caminhão, latas grandes de bolachas, caixotes de cigarros. Uma vez levaram todo o sortimento de cigarros da praça e os fumantes tiveram que picar fumo e enrolar palha durante quase um mês.
Quando os caminhões paravam em alguma casa de comércio e nós fazíamos grupos de longe para olhar, Geraldo ficava na frente fazendo palhaçadas para nos provocar. Seu Marcos disse que ele havia perdido toda a compostura, e se não fosse por causa de D. Ritinha, era o caso de se dar uma surra nele.
E toda noite agora era aquele ruído tremido que vinha de trás do morro, parecia o ronronar de muitos gatos. Não dava para incomodar porque não era forte, mas assustava pela novidade. De dia não o ouvíamos, talvez por causa dos barulhos da cidade, mas quando batia a Ave-Maria, e todo mundo cessava o trabalho, lá vinha ele. Então a gente olhava para os lados da chácara e via um enorme clarão no céu, como o de uma queimada vista de longe, só que não tinha fumaça.
Mas a grande surpresa foi quando o Geraldo veio à cidade montado numa motocicleta vermelha. Não vinha mais de roupa cáqui de trabalho e botina de vaqueta, mas de parelho de casimira azul-marinho, sapatos de verniz e gravata. Parou no bilhar, cumprimentou todo mundo e convidou para tomarem cerveja. Uns aceitaram, outros ficaram de longe, ressabiados. Ele disse que não havia motivo para malquerenças, reconhecia que havia se excedido nas brincadeiras, mas não fizera nada com a intenção de ofender. Os tempos agora eram outros, acabaram-se as brincadeiras. Ele estava ali como amigo para dar uma notícia que devia contentar a todos. Aí os mais desconfiados foram se chegando também, Geraldo mandou uns dois ou três saírem na porta e convidarem quem mais encontrassem por perto. Num instante o salão estava cheio, quem estava jogando parou, havia gente -até do lado de fora debruçada nas janelas.
Quando viu que não cabia mais ninguém, Geraldo subiu numa das mesas e comunicou que fora nomeado gerente da Companhia e que estava ali para contratar funcionários. Os ordenados eram muito bons, havia casa para todos, motocicletas para os homens, bicicletas para as crianças e máquinas de costura para as mulheres. Quem estivesse interessado aparecesse no dia seguinte ali mesmo para assinar a lista.
Como ninguém estava preparado para aquilo, ficaram todos ali apalermados, se entreolhando calados. Quando alguém se lembrou de pedir explicações sobre as atividades da Companhia, Geraldo já ia longe na motocicleta vermelha.
Após muita confabulação ali mesmo no bilhar, depois nas muitas rodas formadas nos pontos de conversa da cidade, e finalmente nas casas de cada um, muitos se apresentaram no dia seguinte, acredito que a maioria apenas para ter uma oportunidade de saber o que se passava na chácara. Já no segundo dia os caminhões vieram buscá-los, e foi a última vez que os vimos como amigos: quando começaram a aparecer novamente na cidade, ninguém os reconhecia mais. Entravam e saíam como foguetes, montados em suas motocicletas vermelhas, não paravam para falar com ninguém.
Essas máquinas eram uma verdadeira praga. Ninguém podia mais sair à rua sem a precaução de levar uma vara bem forte com um ferrão na ponta para se defender dos motociclistas, que pareciam se divertir atropelando pessoas distraídas. Nem os cachorros andavam mais em sossego, quase todos os dias a Intendência recolhia corpos de cachorros estraçalhados. E quanta gente morreu embaixo de roda de motocicleta! O caso que mais me impressionou foi o de D. Aurora. Um dia eu ia atravessando o largo com ela, carregando um cesto de ovos que ela havia comprado lá em casa para a festa do aniversário do padre, quando vimos dois motociclistas que vinham descendo emparelhados. Já sabendo como eles eram, D. Aurora atrapalhou-se, correu para a frente, depois quis recuar, e um deles separou-se do outro e veio direto em cima dela, jogando-a no chão, e trilhando-a pelo meio. Quando me abaixava para socorrê-la, ouvi as gargalhadas dos dois e o comentário do criminoso: — Você viu? Estourou como papo-de-anjo.
D. Aurora morreu ali mesmo, e eu tive de voltar com o cesto de ovos para casa.
A impressão que se tinha era a de haver pessoas ocupadas unicamente em perturbar o nosso sossego, com que fim não sei. Ainda bem não havíamos tomado fôlego de um susto, outro artifício era aplicado contra nós. Mas não havendo motivo para tanta perseguição, também podia ser que os responsáveis pelas nossas aflições nem estivessem pensando em nós, mas apenas cuidando de seu trabalho; nós é que estávamos atrapalhando, como um formigueiro que brota num caminho onde alguém tem que passar e não pode se desviar. Depois do estrago é que vinha a curiosidade de ver como é que estávamos resistindo.
Foi o que verificamos quando as nossas casas deram para pegar fogo sem nenhum motivo aparente. Primeiro era um aquecimento repentino, os moradores começavam a suar, todos os objetos de metal queimavam quem os tocasse, e do chão ia minando um fumaceiro com um chiado tão forte que até assoviava. Pessoas e bichos saíam desesperados para a rua engasgados com a fumaça, sem saberem exatamente o que estava acontecendo. Ouvia-se um estouro abafado, e num instante a casa era uma fogueira. Tudo acontecia tão depressa que em muitos casos os moradores não tinham tempo de fugir.
Depois de cada incêndio aparecia na cidade uma comissão de funcionários da Companhia, remexia nas cinzas, cheirava uma coisa e outra, tomava notas, recolhia fragmentos de material sapecado, com certeza para examiná-los em microscópios. Pelo destino dos moradores não mostravam o menor interesse. Para não perder tempo em casos de emergência, passamos a dormir vestidos e calçados. Embora sem muita esperança, meu pai foi procurar o delegado para ver se conseguia dele uma providência contra a Companhia. O delegado estava assustado como coelho, piscava nervoso e repetia como falando sozinho: — Uma providência. É preciso uma providência.
Meu pai quis saber que espécie de providência ele pensava tomar, e ele não saía daquilo: — É, uma providência. É uma providência.
Meu pai sacudiu-o para ver se o acordava, ele agarrou meu pai pelo braço e disse desesperado, quase chorando: — Eu estou de pés e mãos amarradas, Maneco. De pés e mãos amarradas. Que vida! quanta coisa! Os espiões eram outra grande maçada. Não sei com que astúcia a Companhia conseguiu contratar gente do nosso meio para informá-la de nossos passos e de nossas conversas. O número de espiões cresceu tanto que não podíamos mais saber com quem estávamos falando, e o resultado foi que ficamos vivendo numa cidade de mudos, só falávamos de noite em nossas casas, com as portas e janelas bem fechadas, e assim mesmo em voz baixa.
Eu estava quase perdendo a esperança de voltarmos à vida antiga, e já não me lembrava mais com facilidade do sossego em que vivíamos, da cordialidade com que tratávamos nossos semelhantes, conhecidos e desconhecidos. Quando eu pensava no passado, que afinal não estava assim tão distante, tinha a impressão de haver avançado anos e anos, sentia-me velho e deslocado. Para onde nos estariam levando? Qual seria o nosso fim? Morreríamos todos queimados, como tantos parentes e conhecidos? Passávamos os dias com o coração apertado, e as noites em sobressalto. Ninguém queria fazer mais nada, não valia a pena. As casas andavam cheias de goleiras, o mato invadia os quintais, entrava pelas janelas das cozinhas. Nos vãos do calçamento, que cada qual antigamente fazia questão de manter sempre limpo em frente a sua casa, arrancando a grama com um toco de faca e despejando cal nas fendas, agora cresciam tufos de capim. O muro do pombal desmoronou numa noite de chuva, ficaram os adobes na rua fazendo lama, quem queria passar rodeava ou pisava por cima, arregaçando as calças. Não valia a pena consertar nada, tudo já estava no fim.
Mas a esperança, por menor que seja, é uma grande força. Basta um fiapinho de nada para dar alma nova à gente. Eu estava remexendo um dia na tulha de feijão à procura de uma medalha que caíra do meu pescoço e encontrei umas caixas de papelão quadradinhas, escondidas bem no fundo. Abri uma e vi que estava cheia de cartuchos de dinamite. Guardei tudo depressa e não disse nada a ninguém nem deixei meu pai saber, porque não queria colocá-lo na triste situação de ter de prevenir-se contra mim. Tudo era possível naqueles dias.
Agora que nada mais há a fazer, arrependo-me de não ter falado abertamente e entrado na intimidade dos planos, se é que havia algum. Hoje é que imagino a aflição que minha mãe deve ter passado na noite em que em vão esperamos meu pai para a ceia. Com uma indiferença que não me perdoo eu tomei a minha tigela de leite com beiju e fui dormir. Mamãe ficou acordada fiando, e quando tomei-lhe a bênção no dia seguinte notei que ela estava pálida e com os olhos vermelhos de quem não havia dormido. Não tenho muito jeito para consolar, fiquei remanchando em volta dela, bulindo numa coisa e noutra, irritando-a com o meu nervosismo inarticulado. Ela mandava-me sair, passear, fazer alguma coisa fora, mas eu tinha medo de deixá-la sozinha estando tão deprimida.
Não me lembro de outro dia tão triste. Uma neblina cinzenta tinha baixado sobre a cidade, cobrindo tudo com aquele orvalho de cal. As galinhas empoleiradas nos muros, nos galhos baixos dos cafezeiros, ou encolhidas debaixo da escada do quintal, pareciam aguardar tristes notícias, ou lamentar por nós algum acontecimento que só elas sabiam por enquanto. Em frente a nossa janela de vez em quando passava uma pessoa, as mãos roxas de frio segurando o guarda-chuva, ou um menino em serviço de recado, protegendo-se com um saco de estopa na cabeça. E nos quintais molhados os sabiás não paravam de cantar.
Em dias de sol nós ainda podíamos resistir, podíamos olhar para os lados da usina e apertar os dentes com ódio, e assim mostrar que ainda não havíamos nos entregado; mas num dia molhado como aquele só nos restava o medo e o desânimo.
A notícia chegou antes do almoço. Uns roceiros que tinham vindo vender mantimentos na cidade encontraram o corpo na estrada, a barriga colada no meio pelas rodas de uma motocicleta.
Depois do enterro mamãe mandou-me esconder as caixas de dinamite num buraco bem fundo no quintal, vendeu tudo o que tínhamos, todas as galinhas, pelo preço de duas passagens de caminhão e no mesmo dia embarcamos sem dizer adeus a ninguém, levando só a roupa do corpo e um saquinho de matula, como dois mendigos.

— José J. Veiga, no livro "Os melhores contos de J. J. Veiga". seleção de J. Aderaldo Castelo. São Paulo: Global Editora, 2000.

A viagem de dez léguas - José J. Veiga

Paul Cezanne - life in the fields
A viagem de dez léguas

Como a viagem ia ser longa, umas dez léguas de mão aberta, precisavam levantar cedo. Sabendo que não seria fácil tirar o menino da cama, o pai teve que empregar o velho truque de puxar o cobertor, o que fez muito contra a vontade porque havia tomado a decisão de não maltratar o menino naquele dia.
O menino tentou ficar um pouco mais na cama, mas sem o cobertor suas perninhas nuas não podiam encontrar conforto no colchão de palha, e ele pulou da cama tremendo e soltando fumaça pela boca e nariz.
Estava ainda muito escuro, o pai havia acendido uma vela na varanda, a vela ficou fincada na boca de uma garrafa em cima da mesa, a chama comendo a cera mais de um lado por causa do ventinho da madrugada que entrava pelas janelas. O menino ficou parado na porta, coçando-se e olhando o quintal escuro.
— Não fique aí parado que é pior — disse o pai, não ralhando mas aconselhando. — Vá lavar o rosto na bica que é bom para a saúde. Eu já lavei o meu.
O menino achou estranha a preocupação com a sua saúde naquela hora, mas sendo obediente aceitou o conselho sem dizer nada. Quando sentiu a água fria nas mãos ele pensou na possibilidade de apanhar uma pneumonia e morrer depressa, naquele dia mesmo; podia ser uma boa lição. E continuou com as mãos na água, sentindo-a ora morna, ora muito fria, como se ela fosse feita de pedaços soltos, que iam caindo da bica e quebrando na laje do tanque. Seria bom se a gente pudesse morrer quando quisesse, só com a força do pensamento, sem fazer nada que doesse. No sítio um camarada fincou um ferrão de carreiro na barriga de propósito para morrer, gemeu e chorou a noite inteira pedindo a benzedora para salvá-lo.
Quando ele voltou o pai estava na cozinha pelejando para acender o fogo e só conseguindo fazer fumaça.
— Diacho de lenha ruim — dizia entre acessos de tosse. — Hoje em dia só querem é ganhar dinheiro de qualquer jeito. Isso é lenha que se corte? O menino lembrou-se da mãe acendendo o fogo sem xingar nem reclamar. Primeiro ela acendia uma pelota de trapos, espalhava um punhado de cavacos por cima, quando a chama subia ela ia jogando gravetos e cascas. Num instante as duas achas grossas, uma de cada lado, iam pegando fogo.
— Deixa que eu acendo — disse o menino.
— É, você tem mais jeito. Depois põe a água pra ferver e vai moendo o café. Enquanto isso eu pego os cavalos.
Os cavalos tinham ficado no quintal para facilitar o trabalho. Eram um rosilho e um castanho menor, presentes de casamento. Depois que ficou sozinho o pai andou querendo vendê-los mas os interessados que apareciam achavam os bichos muito velhos, ofereciam preços ofensivos e ainda davam a entender que estavam fazendo favor. O dono agradecia o incômodo de terem ido olhar e dizia que ia ficando com eles enquanto não encontrasse preço melhor.
O pai amarrou os cavalos na frente da casa e voltou para apanhar os arreios pendurados num canto da varanda. O menino avisou da cozinha que o café estava pronto.
— Bem que senti o cheiro — disse o pai forçando cordialidade.
O menino já havia preparado as tigelas e desembrulhado o prato de biscoitos dados pela vizinha. O pai puxou um tamborete para perto da mesinha de caixote e ficou observando os movimentos do menino, o jeito certo que ele tinha para os serviços de cozinha, e considerou que talvez estivesse sendo apressado demais em resolver uma dificuldade que podia ser passageira. Não poderiam os dois ir tocando a vida sozinhos, o menino cozinhando e ele cuidando de ganhar o sustento? Não estaria ele querendo se ver livre do filho, a pretexto de resolver dificuldades mais temidas do que sentidas? Esse pensamento o entristeceu, ele realmente não sabia o que fazer.
— Você quer ir mesmo? — perguntou quando o menino lhe passou a tigela fumegante, como se a decisão tivesse sido do menino.
— O senhor não já combinou? — respondeu o menino perguntando, sem perceber que poderia ter mudado tudo com outra resposta.
Beberam o café em silêncio, o pai soprando o seu mais do que seria necessário. Um tição resvalou no fogo, espantando para cima uma chuva de fagulhas.
— Você não gostou do sítio das vezes que esteve lá? — perguntou o pai, ainda querendo empurrar a responsabilidade para o filho.
O filho não respondeu, estava mastigando um biscoito, a mãe o ensinara a não falar com a boca cheia. Ele gostara sim, mas a mãe tinha ido também, e sem ela não seria a mesma coisa.
O pai começou a picar fumo para um cigarro (não estava muito com vontade de fumar, estava era esperando a ocorrência de alguma ideia). O menino ia recolhendo as vasilhas para lavar, o pai interveio: — Deixe isso que D. Ana lava. Ela vem aí para limpar e cuidar das galinhas. Em vez disso, apague o fogo.
O resto dos biscoitos foi guardado numa lata, a lata num embornal de lona, onde já havia uma palha com paçoca de carne seca; a chave da casa foi deixada na janela de D. Ana, conforme combinação; o pai ergueu o filho do chão para a sela; perguntou se estava direito, montou também, saíram.
Quando desciam a ladeira perto da ponte o menino lembrou-se da caixinha de lápis de cor que ficara na gaveta da varanda. Não convinha pedir ao pai para voltarem, ele podia ralhar. Também podia ser que não tivesse tempo de desenhar no sítio, e nesse caso era melhor não ter os lápis perto, tentando.
Ao passarem pela última casa antes da ponte, onde morava um amigo, o menino olhou as janelas fechadas, o quintal escuro atrás do muro e achou bom estar saindo de madrugada, assim não precisava se despedir, nem explicar. O pai tentou puxar conversa, os assuntos não rendiam, eles não tinham o hábito de conversar, a cada tentativa o menino respondia é sim senhor, não sei não senhor, parece — e ficavam nisso.
Quando pegaram a estrada real o menino experimentou distrair-se contando os vultos dos postes telegráficos, mas eram tantos e tão longe um do outro que ele perdeu a conta e o interesse. Uma ocasião ele julgou ouvir os fios zunindo, e enquanto pensava se perguntava a razão do zunido o pai parece que adivinhou e explicou que deviam estar passando telegrama.
Telegrama era com Mestre Belmiro, sentado em sua salinha no largo, os suspensórios caídos para os lados, a mão direita apalpando aquela espécie de carimbo em cima da mesa, ou desenrolando entre os dedos aquela fita comprida e escrevendo o resultado numa folha de bloco, as folhas seguindo para aqui e para ali, alegrando ou assustando gente.
Às vezes em dia de festa Mestre Belmiro estava muito bem tocando clarineta na banda, de repente olhava o relógio, tampava a clarineta com o copinho e saía apressado para atender o telégrafo. Mestre Belmiro parece que fazia parte daquela máquina, de longe ele sentia o chamado dela.
Na paisagem sem morro o dia clareou depressa, o sol apontou vermelho e quente. Com o sol vieram as moscas, os mosquitos, os besourinhos, os muitos bichos que voam ou boiam no ar acompanhando o viajante, zumbindo nos ouvidos dele, fazendo cócega nas orelhas do cavalo. O menino matou um bichinho — abelha ou mosquito — que teimava em rodear a cabeça dele, causando um ruído incômodo nos ouvidos, e logo pensou se não teria feito um grande mal no caso de mosquito ter pai e mãe? Se aquele mosquito que ele tinha acabado de matar fosse mãe de outros menores não ia fazer falta? Também se a gente vai pensar toda hora em tudo o que tem de fazer acaba não fazendo nada.
O pai disse qualquer coisa, e não tendo percebido o que era o menino fingiu estar ocupado em espantar outros bichos, deu um tapa raspado na orelha, deu outro na frente do rosto, isso justificava a falta de resposta caso a fala do pai requeresse resposta; mas o pai já estava com a atenção num cigarro que não queria pegar, sinal de que não esperava resposta.
O calor ia aumentando, o sol já queimava o pescoço e uma perna do menino, o suor que se formava do lado de dentro fazia gosma no couro velho da sela, ele sentiu o visgo escorrendo até o pé, incomodando sem remédio. Um carro cantou longe na frente, o pai disse que devia ser cana para o engenho dos Cruvinel.
— Podemos parar lá para tomar uma garapa, se você quiser...
— O senhor é quem sabe...
O número de animais ia aumentando, agora eram muitos, mais unidos. Vacas com bezerros, éguas com cria, uns poldrinhos de cabelo na testa espertos e brincalhões, provocando as mães para correrias.
— Daqui a pouco esses poldros vão precisar de ser amansados — disse o pai. — Você querendo já pode ajudar.
O menino lembrou-se do medo que a mãe tinha de vê-lo montar em cavalo, das mil recomendações que fazia quando o padrinho chegava na cidade e ele se oferecia para levar o cavalo ao pasto.
— E não é perigoso amansar poldro?
— Não deixa de ser. Mas você não vai montar assim de saída, antes de apanhar prática. Primeiro vai só olhando para aprender, os peões vão ensinando.
A estrada começou a descer no rumo da mata que escondia o córrego, já se sentia o cheiro de folhas podres e de terra molhada. Os cavalos bufaram e apressaram o passo por conta própria. Um tatu atravessou a estrada com seu passinho apavorado e desapareceu numa moita de gravatas.
— Pai... Eu vou ficar aí até crescer? — Deus é quem sabe. Por enquanto você vai é experimentar. Em silêncio entraram no túnel da mata, e o mundo ficou escuro como se fosse chover, impressão reforçada pela friagem que vinha do chão. O menino ficou tão deprimido que teve vontade de pedir ao pai para não deixá-lo, para dizer aos padrinhos que estavam apenas passeando; ele prometia fazer tudo para ajudar o pai na sua vida de viúvo, até cozinhava para os dois, e não se incomodava mais de ficar sozinho à noite quando o pai quisesse conversar ou jogar em casa de amigos. Mas já estava tudo combinado, o pai não ia voltar atrás.
Chegaram com o sol ainda de fora. D. Mercedes veio recebê-los com muita festa, mandou-os apear e entrar, disse que o marido tinha ido ao canavial e não tardava. Abraçou o afilhado, espantando-se de vê-lo tão crescido.
— É a cara da mãe, o senhor não acha? — Arrependeu-se da lembrança inoportuna, consertou: — Vou fazer tudo para você não sentir muito a falta dela — e abraçou o menino de novo.
Quando se acomodaram na varanda D. Mercedes chamou um empregado, mandou-o desarrear os cavalos, o compadre avisou que desancasse só o do menino.
— Não diga que ainda quer voltar hoje, compadre!
— É preciso. Deixei muito serviço esperando. A senhora sabe como é vida de escravo.
— Ora essa! Não falhar nem um dia! Lourenço não vai deixar.
— É sério, comadre. Estou pintando a casa do juiz, se eu não acabar esta semana ele fica meu inimigo.
Enquanto a conversa se animava o menino deitou-se na rede e dormiu. Quando o dono da casa chegou o pai quis acordar o menino para tomar a bênção, os padrinhos não deixaram, ele devia estar cansado da viagem. Nova tentativa foi feita para que o pai pelo menos pernoitasse, agora com reforço do compadre, mas a resistência foi decidida.
— E acho que nem posso esperar a janta.
— Isso não consinto — declarou o dono da casa.
O pai explicou que era melhor ele sair enquanto o filho estivesse dormindo.
— Ele anda triste desde ontem e é capaz de não querer ficar. Se ele chorar muito eu amoleço. Deus sabe o que eu tenho sofrido.
Os padrinhos acataram a decisão. Seria uma pena que tivessem de abrir mão do menino, depois de tudo preparado para acolhê-lo.
— Então eu vou ver alguma coisa para o senhor comer no caminho — disse D. Mercedes.
— Isso eu aceito. E tem uma coisa. Se não gostarem dele, ou se ele ficar muito malcriado, não tenham acanhamento; mandem recado que eu venho buscar.
Veio a merenda em dois embrulhos de palha de milho. D. Mercedes pediu que não reparasse porque fora feito as pressas.
O pai agradeceu, guardou os embrulhos no embornal, levantou-se e ficou parado ao lado da rede olhando o filho.
— Tenha paciência com ele, comadre. Mas não deixe de castigar quando for preciso.
Os donos da casa foram levá-lo à porteira, despediram-se e ficaram olhando até ele sumir na descida.
— Coitado de compadre Olímpio. Tem roído da banda pobre — disse o marido.
— Tão boa pessoa e tão sem sorte — disse a mulher quase chorando. — Deve ser triste separar do filho assim. Ele está se fazendo de duro mas está sofrendo.
— É a cruz de cada um — disse o marido abraçando-a pela cintura e levando-a para casa.
As vacas de cria nova já vinham se chegando para o curral. Os bezerrinhos berravam e se atropelavam para arranjar um bom lugar nos vãos da porteira. As mães chegavam aflitas e procuravam lamber os filhos por entre as tábuas, como para ajudá-los a terem calma.

— José J. Veiga, no livro "Os melhores contos de J. J. Veiga". seleção de J. Aderaldo Castelo. São Paulo: Global Editora, 2000.