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Filme caseiro com cenas de um Rio de Janeiro há muito desaparecido

Postal da década de 1920 mostra aspecto de Copacabana, o mais conhecido bairro da zona sul carioca, com o Leme e o Pão de Açúcar ao fundo. Acervo do Colecionador de Cartões postais e pesquisador independente José Carlos Daltozo.
Rio de Janeiro há muito desaparecido

"Impressionantes imagens de filme caseiro com cenas de um Rio há muito desaparecido, provavelmente no final da década de 20. À exceção de uns trechos escuros, onde pouco se vê, estão lá imagens preciosas do mar de Copacabana em ressaca, a cidade já com muitos automóveis, bondes, carroças e cavalos misturados...a Av. Beira Mar com aquelas duas construções em frente do Passeio Público (uma delas o cinema Cassino), a entrada para a Av. Rio Branco vindo da Av. Beira Mar, o Palácio Monroe, Botafogo e a Urca em seu início, a rua Paissandu, a cidade vista do Corcovado, o trecho em frente à Ilha das Cobras e a Escola Naval hoje finalmente reaberto ao público, os fundos da Baía da Guanabara na altura do Caju e mais para dentro, a Vista Chinesa, ruas do centro, vendedores de rua na Lapa, a Igreja de Na. Sa. da Lapa dos Mercadores, planos bem cinematográficos de um trem se aproximando de um túnel, a família retratada no filme se divertindo no areal de Ipanema, mico leão, cachorros...e muito mais. Imagem, memória, História, documento e preservação audiovisual tudo enfatizado nesses fantásticos minutos."
- João Luiz Vieira (professor do Dep. de cinema da UFF).

Rio de Janeiro há muito desaparecido (c. dec. 1920) - 20 min.

:: Fonte: Filme caseiro do Rio de Janeiro (1920-1930) - Footage from the Doris Duke Foundation Historical Archives. This collection is housed at Duke University Libraries' Rare Book, Manuscript, and Special Collections Library - Periscope Film/Operation archive. (arquivos históricos do centro militar de transporte e aviação do Estados unidos). 

Rio de Janeiro do século XIX em cores pelas lentes de Marc Ferrez

“Fotografias há de dois tipos: As mais raras são obras de arte, belezas que o olho do fotógrafo percebeu e nos mostra. Olhamos a foto e ficamos espantados: não havíamos visto a beleza que estava lá, coisas com as quais um turista jamais desperdiçaria uma foto - tais como folhas secas sobre o chão, um pau seco saindo da lagoa, as marcas do vento sobre a areia - e a gente leva um susto. Não é a boa câmera que faz a fotografia. É o olho do fotógrafo.”
- Rubem Alves, em "Quarto de Badulaques". São Paulo: Parábola, 2003.


Rio de Janeiro do século XIX na fotografia de Marc Ferrez
"o cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas" 

Corcovado, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez|/IMS)

Vista do Pão de Açúcar, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

Entrada do Silvestre, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

Vista do Pão de Açúcar tomada do morro da Urca, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/IMS)

Pedra da Gávea a partir do Alto da Boa Vista, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez / IMS)

São Conrado, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

Jardim Botânico, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

Jardim Botânico, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

Praça Tiradentes, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/IMS)

Teatro Municipal, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

Avenida Rio Branco, c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez /IMS)

Avenida Rio Branco, denominada Avenida Central até 1912, c. 1914:  foto- Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

Centro, visto do Morro do Castelo c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/IMS)

Casarão antigo na Rua Voluntários da Pátria , c. 1914 - foto: Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/ IMS)

"Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade do Rio de Janeiro e no seu entorno, e a outra parte nas diversas regiões do Brasil que percorreu regularmente em seus diversos trabalhos comissionados, seja como fotógrafo da Comissão Geológica do Império em meados dos anos 1870, ou como principal fotógrafo das construções ferroviárias no Brasil, em especial nos anos de 1880 e 1890, configurando assim um grande panorama da paisagem brasileira do período.
Ferrez, no final de sua vida, dedicou-se à fotografia estereoscópica em cores, utilizando as placas fabricadas pelos irmãos Lumière pelo processo denominado autocromo. Estas raras e inéditas imagens produzidas por Marc Ferrez e seus filhos são os registros coloridos conhecidos mais antigos da cidade do Rio de Janeiro."
 - Sergio Burgi, em "As cores do Rio aos olhos de Marc Ferrez", por Sergio Burgi (coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles). in: Blog IMS, 1.3.2013.


BIOGRAFIA DE MARC FERREZ
Marc Ferrez (em pé), sua esposa Marie, o filho Julio com a esposa
Claire e os filhos Gilberto e Eduardo, circa 1914  -
foto:  (Coleção Gilberto Ferrez - IMS)
Marc Ferrez (Rio de Janeiro RJ 1843 - idem 1923). Fotógrafo. Filho de Zepherin Ferrez (1797-1851) e sobrinho de Marc Ferrez (1788 - 1850), escultores franceses que integram a Missão Artística Francesa. Depois da morte de seus pais, em 1851, viaja para Paris e reside na casa do escultor Alphée Dubois (1831 - 1905). Em 1859 retorna ao Rio de Janeiro e trabalha na Casa Leuzinger, estabelecimento fotográfico de propriedade de George Leuzinger (1813 - 1892). No ano seguinte conhece Franz Keller-Leuzinger (1835 - 1890), com quem aprende técnicas fotográficas. Em 1865 inaugura a Casa Marc Ferrez & Cia., e exerce a profissão de fotógrafo. Em 1875, recebe convite para integrar, como fotógrafo, a expedição chefiada por Charles Frederick Hartt (1840 - 1878) e financiada pela Comissão Geológica do Império. Nessa função percorre os atuais Estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e parte da região amazônica. No ano de 1880, encomenda ao francês M. Brandon a confecção de uma máquina fotográfica por ele idealizada, capaz de executar imagens panorâmicas em grandes dimensões. É o único fotógrafo brasileiro agraciado com o título de "Photografo da Marinha Imperial". Já reconhecido como fotógrafo de paisagens, retratos, de obras públicas, realiza a partir de 1903 a documentação completa das obras de construção da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), no Rio de Janeiro. Esse trabalho é publicado por volta de 1907 no álbum Avenida Central: 8 de Março de 1803 - 15 de Novembro de 1906. Em 1905 a Casa Ferrez & Filhos passa a ser a representante exclusiva da firma francesa Pathé Frères, e se torna fornecedora da maioria dos cinematógrafos da cidade. Em 1907, em sociedade com Arnaldo Gomes de Souza, inaugura o Cine Pathé. No ano de 1915, muda-se para Paris, onde estuda fotografia em cores, até retornar, no início da década de 1920, ao Rio de Janeiro, pouco antes de sua morte.

Comentário crítico
Filho do escultor Zepherin Ferrez (1797 - 1851), integrante da Missão Artística Francesa, Marc Ferrez é apontado como um dos pioneiros da fotografia no Brasil. Sua obra, cuja qualidade obteve reconhecimento considerável de seus contemporâneos, apresenta-se ainda hoje como um dos principais documentos visuais do Brasil, principalmente da cidade do Rio de Janeiro, da segunda metade do século XIX. Acostumado a viver no círculo mais ilustrado da corte, Ferrez fica órfão muito cedo. Em 1851 muda-se para Paris, onde mora com o escultor e gravador Alphée Dubois. Não há informações sobre sua estada na capital francesa. Contudo, sabe-se que a França passava por profundas transformações nesse período, com a constituição do Segundo Império por  Napoleão III, em 1852. Como um dos símbolos do novo governo, a cidade de Paris sofre profunda reforma urbanística, a cargo do Barão de Haussmann, transformando-se no exemplo de capital moderna e industrial do século XIX. Em 1855 a cidade promove sua 1ª Exposição Universal, na qual a fotografia ganha seção especial, sendo pela primeira vez apresentada ao grande público.
De volta ao Brasil em 1860, Ferrez trabalha na Casa Leuzinger, estabelecimento dirigido pelo fotógrafo George Leuzinger (1813 - 1892), cujos serviços oferecidos são um misto de tipografia, papelaria, oficina de encadernação e douração, ateliê de fotografia e ponto de revenda de gravuras e material fotográfico. Aprende com o engenheiro alemão Franz Keller-Leuzinger (1835 - 1890) a técnica fotográfica. Não apenas o ensino técnico, mas também o contato com pintores, fotógrafos e cientistas, a familiaridade com o vocabulário próprio da linguagem fotográfica da época, são proporcionados pelo estágio na casa comercial. Nesse momento, o repertório de vistas pitorescas da cidade (por exemplo: Jardim Botânico, Corcovado, Lagoa Rodrigo de Freitas, Pão de Açúcar, Baía de Guanabara) já se encontra instituído e trabalhado por diversos artistas e fotógrafos.
Em 1867 Marc Ferrez inaugura casa própria, oferecendo serviços de fotógrafo e fotos de vistas do Rio de Janeiro. Até 1873, quando um incêndio destrói completamente a Marc Ferrez & Cia., o artista realiza, sob encomenda ou de forma espontânea, além de retratos e paisagens, fotografias de festejos públicos ligados sobretudo à família real, eventos civis e militares, destacando-se vistas tiradas do mar e fotos de navios da Marinha, que lhe renderam o título de Photographo da Marinha Imperial, outorgado pelo imperador dom Pedro II (1825 - 1891).
Marc Ferrez aos 33 anos, c. 1877.
Rio de Janeiro. Acervo IMS.
Após a destruição total de seus equipamentos e do acervo de clichês fotográficos, Ferrez vai para Paris com o intuito de comprar equipamentos para o recomeço de sua vida profissional. Em 1875 é convidado a participar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada por Charles Frederick Hartt. Com a expedição viaja ao Nordeste, fotografando vistas das províncias visitadas e retratos etnográficos dos índios da tribo botocudo (BA), nunca antes fotografados. Além de Photographo da Marinha Imperial a partir de 1877 apresenta-se também como Photographo da Comissão Geológica. Durante a década de 1880 produz imagens preciosas do cotidiano da família real. Todavia, não obtém título de Photographo da Casa Imperial, como outros colegas de seu tempo.
A preferência por horizontes longínquos, perspectivas altas ou em plongée, planos demarcados e luzes contrastantes, a busca do elemento pitoresco a particularizar a paisagem revelam certa filiação romântica na obra do artista, num possível diálogo com pintores acadêmicos da época, como Félix Taunay (1795 - 1881) e Facchinetti (1824 - 1900). O caráter monumental atribuído à natureza em suas fotos indica a concepção romântica da natureza sublime e encantadora, que, articulada com a paisagem construída, apresenta a possibilidade de "relação harmoniosa entre o homem e a natureza", segundo a historiadora Maria Inez Turazzi. Esse homem, personagem quase sempre presente, aparece numa atitude contemplativa e relaxada, perfeitamente integrado ao seu habitat (nota-se que muitas vezes o artista toma parte da cena enfocada).
Além das composições paisagísticas, sobressaem na produção do fotógrafo os registros documentais de obras públicas como a construção de estradas de ferro, canalizações, reservatórios de abastecimento de água, sendo seu trabalho mais significativo nesse campo a documentação da construção da nova avenida central no Rio de Janeiro, marco da reurbanização da capital e de sua passagem de cidade colonial a cidade moderna. Publicada por volta de 1907, a edição de imagens recebeu o título Avenida Central: 8 de Março de 1903 - 15 Novembro de 1906.
Movido por uma curiosidade natural e pela necessidade de se destacar dentro de um mercado em plena expansão e cada vez mais competitivo, como é o da fotografia no Brasil da segunda metade do século XIX, Marc Ferrez desempenha importante papel na pesquisa e experimentação de novos equipamentos e materiais fotográficos. As principais transformações tecnológicas da fotografia perpassam seu trabalho. Destaca-se como inventor de um aparelho panorâmico para vistas fotográficas e de um sistema de duas câmaras para tomadas feitas no mar. Entre outras inovações, inaugura a terceira sala de cinema da capital em 1907, o Cine Pathé, e introduz no Brasil as chapas fotográficas coloridas (autochrome), desenvolvidas pelos irmãos Lumière. A ampla difusão de sua obra dá-se definitivamente quando suas vistas do Rio de Janeiro são impressas, entre 1890 e 1900, nas notas de 2 mil e 100 mil réis.
:: ACERVO e outras informações e mais obras fotográficas do autor: IMS/Acervo 

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Carlos Julião - 16 Aquarelas do século XVIII


Carlos Julião - 16 aquarelas do século XVIII 
                                       Rio de Janeiro (RJ) e Serro do Frio (MG) - Brasil

Escravas pedintes, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional). 

Negras vendedoras de rua, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Negras vendedoras de rua, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional). 

Negras vendedoras de rua, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Vendedor ambulante, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Traje de duas negras forras , de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Indumentárias de escravas, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Traje de mulher negra, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Trajes de escravas, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Roupas de escravas, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Vestimentas de escravas, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Serro Frio - trabalho de lavagem do cascalho, feito por escravos, de Carlos Julião
 (Iconografia Biblioteca Nacional)

Coroação de uma Rainha Negra na festa de Reis, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Coroação de um Rei nos festejos de Reis, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Cortejo da Rainha Negra na festa de Reis, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Rei e Rainha negros da festa de Reis, de Carlos Julião (Iconografia Biblioteca Nacional)

Fonte: Iconografia/Biblioteca Nacional do Brasil | Biblioteca digital Luso-Brasileira


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     BIOGRAFIA DE CARLOS JULIÃO
Carlo Juliani (Turim, Itália, 1740 - Rio de Janeiro?, 1811). Pintor, desenhista, engenheiro, militar. Em 1763, torna-se alferes das Forças Armadas Portuguesas. Pouco se sabe sobre sua formação anterior a essa data. O exército mantinha aulas de desenho para incrementar as habilidades de seus oficiais em trabalhos cartográficos, como o registro das possessões ultramarinas. É possível que Julião as tenha frequentado. Em documentação de 1800 do Arquivo Militar português, há o relato de suas viagens, entre 1763 e 1781, à China, Índia e ao Brasil. Deles, restam desenhos que compõem um álbum pertencente à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. É designado pelo Secretário de Estado para um estudo topográfico no qual deve produzir a planta de todo o distrito de Macao, China. Na Índia, permanece por seis anos. Viaja, ainda, em expedição a Mazagão, Marrocos, onde teria salvado habitantes de um presídio em chamas.
O álbum que registra suas três viagens principais recebe o título de: Noticia Sumária do Gentilismo da Ásia com Dez Riscos Iluminados/ Ditos de Figurinhos de Brancos e Negros dos Usos do Rio de Janeiro e Serro do Frio/ Ditos de Vasos e Tecidos Peruvianos. Integram o álbum dez aquarelas sobre a Ásia, acrescidas de relatos sobre a cultura hindu; 33 desenhos de vasos e tecidos peruanos que teria observado em Peniche, Portugal e 43 aquarelas que registram grupos sociais e cenas de costumes no Brasil. Essas aquarelas compõem um dos maiores registros visuais sobre o Brasil naquele período. Além dessas imagens, produz no Brasil duas peças cartográficas pertencentes ao Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, Lisboa, e um Dicionário de Árvores e Arbustos, datado de 1801. Apenas um de seus desenhos cartográficos, o Dicionário de Árvores e alguns documentos são assinados, sempre com a versão aportuguesada de seu nome.
O álbum é encontrado nos Estados Unidos e lá adquirido pela Biblioteca Nacional em 1947. O artista e historiador José Wasth Rodrigues (1891-1957) realiza, em 1949, as identificações dos temas, que passaram a servir como títulos. O álbum é produzido no decorrer das últimas décadas do século XVIII, depois de 1776, como se infere na Alegoria que representa o sargento-mor Rafael Pinto Bandeira (1740-1795) à frente da vitória dos portugueses sobre os espanhóis, na tomada do Forte de Santa Tecla, Rio Grande do Sul, em 1776.
É aposentado no posto de brigadeiro em 1811 por decreto assinado no Rio de Janeiro, em 1813, após sua morte. Devido à alta patente de Julião e aos serviços prestados à coroa, é possível que tenha embarcado para o Brasil com a corte portuguesa em 1808, por ocasião da invasão napoleônica, e tenha falecido no Rio de Janeiro, em 18 de novembro de 1811.
Análise da trajetória
O trabalho de Carlos Julião nas colônias portuguesas, no contexto da cultura barroca de fins do século XVIII, pode ser compreendido em relação às ideias iluministas, que promoviam a crença na ciência e em seu poder de conhecimento sobre a natureza, as diferentes culturas e formas de organização social.
Dentre os serviços prestados à Coroa como oficial do exército, seus desenhos ultrapassam o objetivo de registro de possessões, e revelam interesse pela vida social das colônias.
A peça cartográfica Panorama de Salvador1, obra assinada, datada de 1779, apresenta plantas e a vista da cidade, baseadas em desenhos de 1754 do engenheiro militar brasileiro José Antonio Caldas (1725-1782). O modo de composição de Julião caracteriza-se pela inclusão de diferentes olhares sobre a paisagem física, animada pela inserção dos tipos humanos que a habitam. Dividida em quatro segmentos horizontais, a porção superior apresenta uma vista panorâmica da cidade de Salvador sobre o mar, revelando o desenvolvimento urbano. O segundo segmento é formado por plantas de oito fortes da cidade, acompanhadas por legendas explicativas. Abaixo, estão figuras humanas que representam grupos sociais com seus atributos típicos. Habitantes da região, as figuras são identificadas por títulos indicativos de suas atividades ou posição social. O último segmento contém notas explicativas. As figuras são compostas por duas senhoras brancas, um homem negro, vendedor de leite, com jarro na cabeça, uma mulher negra com um tabuleiro de frutas e um grupo central formado por dois negros que carregam uma senhora branca numa liteira, guiados por um homem branco. No outro panorama atribuído a Julião, é mais acentuada a presença dos tipos sociais, organizados sobre a horizontalidade das vistas panorâmicas que, na parte superior da imagem, apresentam quatro cidades de possessões portuguesas na América, Ásia e África.
O álbum de aquarelas divide-se em três secções indicadas pelo título: Noticia Sumária do Gentilismo da Ásia com Dez Riscos Iluminados/ Ditos de Figurinhos de Brancos e Negros dos Usos do Rio de Janeiro e Serro do Frio/ Ditos de Vasos e Tecidos Peruvianos. Ele registra aspectos da cultura brasileira, hindu e peruana, acompanhados de texto em português sobre a religião hindu, e uma nota manuscrita relativa à coleção de vasos peruanos.
Nos panoramas e em muitas imagens dos Ditos de Figurinhos, os tipos humanos inserem-se numa paisagem de elementos mínimos, que proporciona a relação entre as figuras e permite uma visão sobre cada uma delas, como uma catalogação científica. Apesar de o título afirmar se tratarem de figuras do Rio de Janeiro e Serro do Frio, Minas Gerais, Julião também utiliza elementos encontrados na população branca e negra da Bahia, como as joias conhecidas como balangandãs e os torsos que enfeitam a cabeça das baianas.O álbum e o panorama não assinados podem ser atribuídos a Julião devido às características comuns entre as figuras, além dos documentos que indicam sua passagem pelos lugares representados. Registram a diversidade étnica e as dinâmicas sociais geradas, explicitadas pelos trajes e atributos de cada grupo. Suas composições se diversificam quando exploram pequenas narrativas ou quando descrevem o processo de extração de diamantes em Serro do Frio. Na imagem da lavagem do cascalho, diante de cada escravo que revolve as pedras há um feitor sentado com chicote ao lado. Junto ao primeiro feitor está a caixa onde são colocados os diamantes2.
Os desenhos detalhados sobre costumes, festas populares e padrões de vestuário precedem e, possivelmente, influenciam artistas viajantes no século XIX. Contribuem, ainda, para a constituição do gênero do costumbrismo3 popularizado pela literatura de viagem dos séculos XVIII e XIX e encontram paralelo com a prática do desenho de figurinos militares. Escapam, porém, a esses tipos de fronteiras para estabelecer consonância nos estudos de história natural e na produção artística.
Notas
1 Julião insere na imagem a seguinte legenda: “Elevasam. Fasada, que mostra em prospeto pela marinha a Cidade do Salvador, Bahia de todos os Santos na América Meridional aos 13 gráos de Latitude e 345 gráos e 36 minutos de Longitude, com as Plantas e Prospetos embaixo, em ponto maior de toda a Fortificação q. defende aditta Cidade. Este prospeto foi tirado por Carlos Julião Cap. m de Mineiros do Re.to de Artha. Da Corte na ocasião que foi na Nao N.Sa. Madre de Ds. Em Majo 1779”.
2 Tal imagem foi reproduzida por Ferdinand Denis e Hippolyte Taunay na edição de 1822 de Le Brésil.
3 Movimento artístico que representa usos e costumes específicos da sociedade que retrata. 
      Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural