Mostrando postagens com marcador Rubem Alves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rubem Alves. Mostrar todas as postagens

Sobre a morte e o morrer - Rubem Alves


©Judith Clay
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mario Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...


Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.


Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...” 


Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” 


Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.


Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".


Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.


Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.


Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?


Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.


Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".


Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.


Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.




- Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12.10.03 - fls 3.



Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

Novo slogan político - Rubem Alves

©The Project Twins


Novo slogan político

Alguém escreveu num muro branco da Universidade do Porto, em Portugal, a sua exigência política: “Queremos mentiras novas!”. Quem o escreveu sabia das coisas. Sabia que seria inútil pedir o impossível: “Basta de mentiras!”. Na política, apenas as mentiras são possíveis. Mas ele já estava cansado das mentiras velhas, batidas, como piadas cujo fim já se conhece, que diariamente aparecem nos jornais. Mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daqueles a quem são dirigidas. Que mintam, mas que respeitem a minha inteligência! Mintam usando a imaginação! Por isso escrevia, em nome da inteligência, do possível e do humor: “Queremos mentiras novas!”.

— Rubem Alves, no livro "Ostra feliz não faz pérola". São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.


Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

Criança - Rubem Alves

Lucy Fleming

Criança

As crianças ignoram os relógios. Os relógios têm a função de submeter o tempo do corpo ao tempo da máquina. Mas as crianças só reconhecem os seus próprios corpos como marcadores do seu tempo. Se as crianças usam relógios, elas os usam como se fossem brinquedos. Que maravilhosa subversão! Usar a gaiola do deus Chronos como brinquedo de Kairós, o deus do tempo da vida.
As crianças, do jeito como saem das mãos de Deus, são brinquedos inúteis, não servem para coisa alguma... Crianças não são para ser usadas como ferramentas. Elas são para ser gozadas, como brinquedos...
Os olhos, diferentemente do resto do corpo, preservam para sempre a propriedade divina do rejuvenescimento. O sábio é um adulto com olhos de criança.
Janucz Korczak foi um dos grandes educadores do século passado. Foi mansamente com as crianças do seu orfanato para a câmara de gás de um campo de concentração nazista. Ele deu a um dos seus livros, o título Quando eu voltar a ser criança. De acordo com a Adélia Prado, que rezou: “Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande...”.
Quero voltar para as crianças. A razão? Por elas mesmas. É bom estar com elas. Crianças têm um olhar encantado. Visitando uma reserva florestal no estado do Espírito Santo, a bióloga encarregada do programa de educação ambiental me disse que é fácil lidar com as crianças. Os olhos delas se encantam com tudo: as formas das sementes, as plantas, as flores, os bichos, os riachinhos. Tudo, para elas, é motivo de assombro. E acrescentou: “Com os adolescentes é diferente. Eles não têm olhos para as coisas. Eles só têm olhos para eles mesmos...”. Eu já tinha percebido isso. Os adolescentes já aprenderam a triste lição que se ensina diariamente nas escolas. Aprender é chato. O mundo é chato. Os professores são chatos. Aprender, só sob ameaça de não passar no vestibular. Por isso quero ensinar as crianças. Ensiná-las para que elas se encantem com o mundo. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal. Tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, um ninho de guaxinim, uma concha de caramujo, o voo dos urubus, o zinir das cigarras, o coaxar dos sapos, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Dessas coisas, invisíveis aos eruditos olhos dos professores universitários (eles não podem ver, coitados. A especialização os tornou cegos como toupeiras. Só veem dentro do espaço escuro de suas tocas. E como veem bem!), nasce o espanto diante da vida; desse espanto, a curiosidade; da curiosidade, a “fuçação” (essa palavra não está no Aurélio!) chamada pesquisa; dessa “fuçação”, o conhecimento; e do conhecimento, a alegria!

— Rubem Alves, no livro "Do universo à jabuticaba". São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.



Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

Uma criança chora... - Rubem Alves

©Gustavo Aimar



Uma criança chora...

A alma anda para trás, navega ao sabor do suave sopro da saudade. Quer voltar ao seu passado. Bernardo Soares sabia, tanto assim que disse: “O vapor em que parti chegou barco de vela ao porto.” A alma tem nostalgia das origens. Nas novidades ela se sente estranha, exilada. Eu, que não viajo de navio, diria: “O avião em que parti aterrissou carro de bois nos cenários da minha infância...” Quanta saudade mora num carro de boi! Por isso esses fantasmas de um mundo que não mais existe gemem enquanto rodam.
A alma dos poetas está cheia de objetos decrépitos. E é por isso que fazem poesia, para trazê-los de novo à vida. A poesia opera ressurreições. O professor Severino, pastor dessas velharias, ao introduzir os seus alunos ao encanto da poesia, sugeriu que fizessem uma lista dos sons que ouviam na sua infância e que não mais se ouvem. O canto do galo, o canto do grilo (tão amado por Bashô!), a música do realejo, o sino das igrejas, o apito rouco da maria-fumaça, o crepitar do fogo no fogão de lenha, as canções de roda cantadas pelas crianças a brincar na rua, o grito da mãe “Menino! Sai do sereno!”, “Saudades do Matão”... “Seria tão bom, como já foi”, lamentou a Adélia. E Fernando Pessoa se comovia lembrando-se das tardes quando, menino, suas tias fritavam bolinhos. E foi isso que levou T. S. Eliot a escrever que, ao final de nossas longas andanças, chegamos finalmente ao lugar de onde partimos. E o vemos então pela primeira vez. Para isto caminhamos a vida inteira: para chegar ao lugar de onde partimos. E, quando chegamos, é a surpresa. É como se nunca o tivéssemos visto. Agora, ao final de nossas andanças, nossos olhos são outros, olhos de velhice, de saudade. “Toda saudade é uma espécie de velhice”, disse o Riobaldo. É por isso que os olhos dos velhos vão se enchendo de ausências. “Memória fraca”, dizem os jovens. Engano: é que a sua alma sabe o que merece ser lembrado. Esquecem-se do que aconteceu ontem, mas se lembram do que aconteceu há muito tempo, como se fosse hoje.
Minha alma tem estado a visitar a minha infância. Fantasias. O que são fantasias? Wordsworth escreveu um lindo poema que termina assim:

As nuvens que se juntam à volta do sol que se põe
ganham suas cores solenes de olhos que têm atentamente observado
a mortalidade humana.

As cores estão lá, no poente. Mas quem só vê as cores não vê nada. A beleza nostálgica do sol que se põe é uma dádiva dos olhos de quem a vê como quem vê pela última vez. Os olhos dos poetas são sempre olhos que se despedem. Pois não foi isso que percebeu Rilke ao dizer: “Quem assim nos fascinou, para que tivéssemos esse olhar de despedida em tudo o que fazemos?” As fantasias de infância são as memórias transfiguradas pela saudade.
Eu poderia colocar minhas fantasias de infância em álbuns diferentes, como se fossem fotografias. Fantasias dos pequenos espaços (a cabaninha, a casa no alto da árvore), as fantasias dos grande espaços (os campos, os jardins), as fantasias da noite com seus terrores...
Antigamente... Menino, essa palavra me intrigava. Ouvia que os grandes em suas visitas noturnas a usavam com frequência. E eu perguntava: “Quando é antigamente?” Nunca me explicaram. Mas agora eu sei quando é antigamente... Pois antigamente os grandes gostavam de fazer sofrer as crianças. Cora Coralina, no seu poema “Antiguidades”, se lembra dos seus sofrimentos:

Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava...

Riam, caçoavam, maltratavam, humilhavam. Acho que eles pensavam que as crianças não tinham o “lá dentro” onde mora o sofrimento. Os grandes me faziam sofrer e riam do meu sofrimento. Mentiam para me fazer sofrer. Eu devia ter uns quatro anos, na roça. Perto da casa havia uma mata fechada. Por medo, eu nunca me aproximei dela. Diziam que lá moravam onças. E os grandes me diziam que naquela mata fechada morava um menino. E, para provarem, diziam: “Quer ver?” E gritavam: “Ô menino!” O grito batia na mata e voltava como eco bem fraco: “Ô menino...” Mas eu nada sabia sobre ecos. Sim, era a voz fraca de um menino abandonado. Que pais o teriam deixado lá? E por que ele ficava lá? E a imagem daquele menino não me deixava. De noite, na minha cama, eu me lembrava dele sozinho no escuro. Como eu desejava poder trazê-lo para a segurança da minha casa! Mas eu nada podia fazer. E assim dormia, sofrendo o abandono do menino. Nunca vi o dito menino, porque ele não existia. Mas a alma não sabe o que é isso, o não existir. Aquilo que é sentido existe. A alma é um lugar assombrado onde moram as mais estranhas criaturas que, sem existirem, existem.
Depois nos mudamos da roça para uma cidade. Primeiro, Lambari. Depois, Três Corações. Em Três Corações morávamos numa minúscula casa que tinha um minúsculo alpendre, uma minúscula sala de jantar, dois minúsculos quartos, um minúsculo banheiro e uma minúscula cozinha... Acho que foi construída para sete anões... Lá havia um batalhão de cavalaria. De longe eu via os soldados com suas fardas, cavalgando cavalos nervosos e brilhantes. De vez em quando, pelas madrugadas, eu ouvia o barulho metálico das ferraduras batendo nas pedras da rua onde estava a minha casa. Era escuro. Em casa todos ressonavam, menos eu. Cuidadosamente eu me levantava e abria uma fresta da janela para ver. Eram muitos, soldados e cavalos. Iam a caminho de algum lugar, vagarosamente, carabinas ao lado dos arreios. E eu imaginava que eles eram seres descomunais, fortíssimos, centauros míticos. Seria um bom tema para um filme de Bergman.
Mudamo-nos para a cidade, mas mantivemos o tempo da roça. Na roça os relógios não eram necessários. Era o escuro da noite que dizia que era hora de dormir. Assim, ia-se para a cama logo depois da janta. Não havia razões para ficar acordado. A luz bruxuleante da lamparina de querosene não era própria para a leitura. Havia também o cansaço do dia que começara ao sol nascente. Além do que, todos sabiam que a noite era um tempo sinistro, quando os seres da escuridão saíam dos seus esconderijos para assustar aqueles que se atreviam a desafiá-la. De todas as horas, a meia-noite era a hora mais temida. Era a hora da magia. As coisas aconteciam sempre quando soava a décima segunda badalada... Assim, jantávamos e íamos para a cama depois de rezar: “Agora me deito para dormir. Guarda-me, ó Deus, em teu amor. Se eu morrer sem acordar, recebe a minh’alma, ó Senhor. Amém.” A morte trabalha durante a noite. Na cidade seguíamos o mesmo tempo. Vezes sem conta ouvimos da cama o relógio da igreja bater as oito horas... Oito horas, noite profunda. Na minha imaginação, a cidade inteira deveria estar dormindo. E era então que eu ouvia a voz rouca de um menino que andava pela rua, a mesma rua por onde passavam os centauros armados: “Olha os pastéis, de carne e de queijo...” Ah! Não era só na roça que havia meninos abandonados. Na cidade também. Um, perdido na mata. O outro, perdido na rua vazia. E eu o imaginava na rua escura anunciando pastéis para pessoas que não havia. Ainda hoje ouço a sua voz de criança solitária e abandonada.
Depois nos mudamos para Varginha, cidade maior. A marcação do tempo mudou. Não mais íamos para a cama depois da janta, porque o trem de ferro passava bem defronte da nossa casa, guinchando trilhos, resfolegando e vomitando milhares de fagulhas. Era o trem das oito. Muito antes que ele aparecesse na curva, a gente sabia que ele estava chegando, porque vinha apitando. Era um trem alegre porque nele vinha o meu pai voltando de suas viagens. A noite passou a ser um escuro feliz. Barulho, apito e fagulhas: tudo era alegria. Acresce o fato de que agora já tínhamos um rádio Phillips para ouvir as novelas, a dupla de violeiros Jararaca e Ratinho e o programa do nhô Totico. A noite ficou mais amiga. Mas na cama, apagadas as luzes, feito o silêncio, sozinho, as imagens de abandono retornavam. Não mais os dois meninos. Eu mesmo. Lembro-me de que, numa dessas noites, eu chorava baixinho. Chorava de angústia. Minha mãe ouviu o meu choro e veio assentar-se ao meu lado para saber o que me fazia sofrer. Expus-lhe, então, a minha aflição. “Mãe, quando eu crescer, como é que vou fazer para arranjar uma mulher?” “Mãe, quando eu crescer como é que vou fazer para ganhar a vida?”
Quem tomar essas perguntas no seu literalismo se rirá delas. Não é engraçado que problemas tão distantes façam uma criança chorar? Mas o seu sentido não se encontra na letra. Ele se encontra no não dito, na noite escura de onde surgiram, noite da minha alma, aquela noite quando seria inútil chamar por pai ou por mãe, porque não haveria ninguém para ouvir. Naquela noite eu chorava pela minha solidão, pelo abandono que me esperava, quando eu seria como o menino da mata ou o menino na rua vazia.
O menino abandonado não me abandonou. Entrou dentro de mim e mora comigo. Me faz sofrer. Me dá ternura. Sempre que vejo uma criança abandonada, eu sofro. Quereria poder protegê-la, cuidar dela. Eu me enterneço porque a criança abandonada que mora em mim está sofrendo. Afinal, todos somos crianças abandonadas. Nos momentos de solidão noturna, de insônia, tomamos consciência de que estamos destinados ao abandono, àquele tempo quando será inútil chamar “meu pai” ou “minha mãe”. Os negros norte-americanos conheciam esse sentimento. E com ele compuseram um spiritual em ritmo de canção de ninar que diz assim:

Por vezes eu me sinto como uma criança sem mãe,
por vezes eu me sinto como uma criança sem mãe,
longe, muito longe de casa...*

É assim que me sinto, às vezes. Tenho, então, vontade de chorar...



- Rubem Alves, no livro "Se eu pudesse viver minha vida novamente". Campinas,SP: Verus Editora, 2012.


Nota
* Em inglês: “Sometimes I feel like a motherless child, / sometimes I feel like a motherless child, / a long way from home, a long way from home...”


Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

Se eu pudesse viver minha vida novamente... - Rubem Alves

© André Neves
Se eu pudesse viver minha vida novamente...

Quando o li pela primeira vez, fiquei comovido. Era uma mistura de sabedoria e tristeza. Seu título era “Instantes”, e começava assim:
Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros [...].
Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres.

E ia assim, parágrafo após parágrafo, listando coisas que haviam sido feitas e que não deveriam ter sido feitas, e coisas que não haviam sido feitas e que deveriam ter sido feitas. Até o final melancólico:
Mas, já viram, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo.

O texto era uma advertência aos mais moços: só temos o momento. Não percam o agora.
Estou a ponto de “desfazer” setenta anos, muito embora os distraídos insistam em usar o verbo fazer. O fato é que a celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festas de aniversário. Se uma vela acesa é símbolo de vida, uma vez apagada ela se torna símbolo de morte. O que não entendo é a razão pela qual os participantes, diante das velas apagadas, se ponham a bater palmas e a rir, quando o certo seria que chorassem. Eu prefiro um ritual mais alegre: acender uma vela bem grande, como um bruxedo de invocação dos anos ainda não nascidos cujo número não sei!
Os números redondos, creio que por razões estéticas, são mais poderosos que os números quebrados. Ninguém acharia nada de extraordinário com o número 7073565 da sua carteira de identidade. Mas, se o número for 5000000, isso será razão para as mais fantásticas conjecturas. Assim, ao ensejo do número redondo 70, pensei em fazer um documento parecido com o “Instantes”, confessando erros e dando conselhos aos mais jovens. Mas desisti. E isso porque, “se eu pudesse viver minha vida novamente”, eu quereria vivê-la do jeito mesmo como a vivi, com seus desenganos, fracassos e equívocos. Doidice? Imaginem que eu estivesse infeliz. Eu teria então todas as razões para voltar atrás e tentar consertar os lugares onde errei. Mas eu não estou infeliz. Vivo um crepúsculo bonito, com a suíte nº 1 de Bach, para violoncelo. Se houve sofrimentos no caminho, imagino que, se não os tivesse tido, talvez a suíte nº 1 de Bach não estivesse sendo ouvida. Estou onde estou pelos caminhos e descaminhos que percorri.
Faz muitos anos, nos tempos em que eu era ainda professor da Unicamp, um aluno que eu não conhecia telefonou-me dizendo que precisava falar comigo. Marcamos um encontro na minha casa. Ele chegou, abriu um caderno e começou a fazer-me perguntas. A primeira pergunta – que abortou todas as outras – foi a seguinte: “Como é que o senhor planejou a sua vida para que chegasse aonde chegou?” Percebi logo. Ele me admirava. Queria ser como eu. Queria que eu lhe contasse o segredo. Que lhe revelasse o caminho. Mas minha resposta pôs a perder as suas expectativas. Foi isso que eu lhe disse: “Eu estou onde estou porque todos os meus planos deram errado.”
Isso é absolutamente verdadeiro. As pontes que construía para chegar aonde eu queria ruíam uma após a outra. Eu era então obrigado a procurar caminhos não pensados. E aconteceu, por vezes, que nem mesmo segui, por vontade própria, os caminhos alternativos à minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigado a fazer o que não queria.
Por exemplo: meu pai, homem muito rico, foi à falência. Ficou pobre. Teve de mudar de cidade para começar vida nova. Se isso não tivesse acontecido, é provável que hoje eu fosse um rico fazendeiro guiando uma F 1000 e contabilizando cabeças de gado.
Quando me mudei para o Rio de Janeiro, aos 12 anos de idade, menino do interior de Minas com um sotaque caipira, fui objeto de zombarias e chacotas. Nunca me senti tão sozinho. Nunca fui convidado a ir à casa de um colega e nunca tive coragem para convidar um colega para ir à minha casa. Sofri a dor da solidão e da rejeição. Mas foi esse espaço de solidão na minha alma que me fez pensar coisas que de outra forma eu não teria pensado.
Lutei muito para ser pianista. Trabalhei duro, horas e horas por dia. Se tivesse dado certo, eu seria hoje um pianista medíocre. Pianista bom não precisa fazer força. É dom de Deus, como é o caso do Nelson Freire. A diferença entre nós é que, enquanto eu tentava colocar dentro de mim um piano que estava fora, o problema do Nelson era colocar para fora um piano que morava dentro dele desde o nascimento. Para mim, o piano nunca passaria de uma prótese. Mas, para o Nelson, o piano é uma expansão do seu corpo. Foi preciso que eu fracassasse como pianista para que o escritor que morava dentro de mim aparecesse. Assim, comecei a fazer música com palavras, acho que com a mesma facilidade com que o Nelson toca piano.
Fui pastor protestante e é provável que, se tudo tivesse acontecido nos conformes, eu hoje fosse um clérigo velho. Mas veio o golpe militar, fui acusado de subversivo pelas zelosas e bondosas autoridades da Igreja... Tive de me mudar para os Estados Unidos com a minha família – o que foi ótimo para todos nós. Fiz meu doutoramento, fiz amigos novos, viajei, conheci lugares, acampei, tive tempo para ler e pensar.
Cheguei onde estou por caminhos que não planejei. É um lugar feliz com o qual nunca sonhei. Nunca me passou pela ideia que eu viria a ser escritor. E, em especial, que escreveria estórias para crianças – e que as crianças as amariam (e me amariam por causa delas...). Tanto assim que não me preparei para o ofício. Sou ruim em gramática, erro a acentuação. E há mesmo uma pessoa que se dedicava a escrever-me longas cartas para corrigir meu português. Parou de escrever. Acho que desistiu. Como é bem sabido, eu, um mau aluno, especialmente quando o professor quer ensinar-me coisas que não quero aprender. Pena que o dito professor, voluntário, nunca tivesse feito comentário algum sobre o que eu escrevia. Concordo mesmo é com o Patativa do Assaré: “É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada...”
Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.

- Rubem Alves, no livro "Se eu pudesse viver minha vida novamente". Campinas, SP: Verus Editora, 2012.

Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

A beleza dos pássaros em voo - Rubem Alves

Ilustração: © Chichi Huang

A beleza dos pássaros em voo...

Li que na antiga tradição samurai, quando um guerreiro recebia a ordem de cometer o suicídio ritual chamado sepuku, antes do gesto final ele deveria escrever um haicai. Haicais são poemas mínimos nos quais a condensação poética é levada ao seu grau máximo. A morte exige brevidade de palavras, porque o tempo é curto. E, sendo curto o tempo, as palavras devem dizer o essencial.
Estou completando setenta anos. O tempo é curto. É preciso aprender a escrever haicais. É preciso dizer o essencial.
Jorge Luis Borges, creio, tinha cerca de 67 anos quando escreveu o seguinte:
Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de remos, de montanhas, de balas, de naves, de ilhas, de peixes, de habitações, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.

Faço minhas as palavras de Borges. Eu falo de crianças, brinquedos, árvores, velhos, amantes, quadros, escolas, crepúsculos, sonatas, rios, florestas, filhos, túmulos... Mas não se deixem enganar. Essas entidades, todas elas, traçam as linhas do meu rosto. Tudo o que escrevo é sempre uma meditação sobre mim mesmo.
A literatura é um processo de transformações alquímicas. O escritor transforma – ou, se preferirem uma palavra em desuso, usada pelos teólogos antigos, “o escritor transubstancia” – sua carne e o seu sangue em palavras e diz aos seus leitores: “Leiam! Comam! Bebam! Isso é a minha carne! Isso é o meu sangue!” A experiência literária é um ritual antropofágico. Antropofagia não é gastronomia. É magia. Come-se o corpo de um morto para se apropriar de suas virtudes. Não é esse o objetivo da eucaristia, ritual antropofágico supremo? Come-se e bebe-se a carne e o sangue de Cristo para se ficar semelhante a ele. Eu mesmo sou o que sou pelos escritores que devorei... E, se escrevo, é na esperança de ser devorado pelos meus leitores.
Foi longo o itinerário que segui. Minha infância foi uma infância feliz. Vivi anos de pobreza, morando numa casa de pau a pique, fogão de lenha, noites iluminadas pela luz das lamparinas e das estrelas, minha mãe trazendo água da mina numa lata, meu pai trabalhando com a enxada e com o machado. Mas não tenho desses anos nem uma memória triste. As crianças ficam felizes com pouca coisa. Não era preciso dizer os nomes dos deuses nem eu os sabia. O sagrado aparecia, sem nome, no capim, nos pássaros, nos riachos, na chuva, nas árvores, nas nuvens, nos animais. Isso me dava alegria! Como no paraíso... No paraíso não havia templos. Deus andava pelo jardim, extasiado, dizendo: “Como é belo! Como é belo!” A beleza é a face visível de Deus. Menino, o mundo me era divino e sem deuses. Talvez seja essa a razão por que Jesus disse que era preciso que nos tornássemos crianças de novo, para ver o paraíso espalhado pela terra.
Foi minha mãe quem primeiro me falou de Deus. Ensinou-me a orar ao ir para a cama: “Agora me deito para dormir. Guarda-me, ó Deus, em teu amor. Se eu morrer sem acordar, recebe a minh’alma, ó Senhor. Amém”. Oração quase haicai. Condensação mínima da teologia cristã. Há a morte, o terror que no escuro nos espreita. Há uma alma que sobrevive à morte e vai para algum lugar. Há um Deus que é o senhor do mundo depois da morte... Meu sentimento foi medo. Rompia-se a felicidade paradisíaca. Será o medo o início da religião? Medo da morte. Medo de abandonar este mundo luminoso!
Do inferno nunca tive medo. Talvez tenha sido essa a razão por que nunca consegui ser ortodoxo. Pois o fato é que o inferno é a base sobre a qual a teologia cristã se construiu – exceção feita aos místicos. A teologia cristã tradicional é um pião enorme que gira sobre essa aguda ponta de ferro chamada inferno. Mesmo quando se faz silêncio sobre ele, é ele que mantém o pião rodando: quem está em cima do pião que roda não pode ver a ponta de ferro que torna possível o seu giro. Sem essa ponta, o pião para de girar e cai... Pois Cristo não morreu na cruz para nos salvar do inferno, como reza a teologia ortodoxa?... Inconscientemente nunca acreditei que Deus pudesse lançar uma alma ao inferno por toda a eternidade. É crueldade demais! Eu não admitiria que um homem fizesse isso. Como poderia admitir que Deus o fizesse? E também nunca fui atraído pelas propaladas delícias do céu. Para dizer a verdade, não conheço nem uma pessoa que esteja ansiosa por deixar as pequenas alegrias desta vida para gozar eternamente a felicidade celestial perfeita. As pessoas religiosas que conheço cuidam bem da saúde, caminham, fazem hidroginástica, controlam o colesterol, a pressão, a glicemia... Elas querem continuar por aqui. Não querem partir. Cecília Meireles, a mais mística das nossas poetas, também não se entusiasmava com a possibilidade de ir para os céus. E dizia:
Pergunto [...]
se, depois que se navega,
a algum lugar, enfim, se chega...
– O que será, talvez, mais tarde.
Nem barcas nem gaivota:
somente sobre-humanas companhias...

Mario Quintana, levíssimo poeta, explicou a coisa com humor:
Um dia... pronto!... me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer: que me importa?
O diabo é deixar de viver!

É assim que me sinto. Como a Cecília, eu amo barcas e gaivotas. Como o Mário Quintana, eu não quero deixar de viver. Sou um ser deste mundo.
Esta alegria de viver me faz encontrar Deus a passear pelo jardim ao vento fresco da tarde. Como eu, Deus prefere as delícias deste mundo material às delícias espirituais do céu. É claro que, se ele estivesse feliz nos céus, não teria criado a terra. Pois Deus, segundo os teólogos, em virtude de sua perfeição, não pode criar o pior. Faz sempre o melhor. Assim, o paraíso tem de ser melhor que os céus que já havia... E Deus gostou tanto da terra e de seus jardins que resolveu para ela se mudar em definitivo e se encarnou eternamente... Deus ama a vida sobre a terra, mesmo com a terrível possibilidade de morrer. Porque a vida é bela a despeito de tudo. “A despeito de”: é aí que moram os deuses. E os poetas. Assim canta a Adélia Prado, minha teóloga mais próxima:
Louvado sejas, porque a vida é horrível,
porque mais é o tempo que eu passo recolhendo os despojos [...]
mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,
por um canteiro de grama.

Desviei-me, assim, de uma das mais influentes escolas da teologia contemporânea que, sob a inspiração da espiritualidade do martírio, só tinha olhos para a coroa de espinhos, para os cravos e para as feridas, e não tinha olhos para a flor... Lembro-me de um poema de Bertold Brecht, a quem muito amo, em que ele diz:
Que tempos são esses, quando
falar de árvores é quase um crime
pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?

Eu me atrevi a falar sobre as árvores e fiz silêncio sobre os ossos secos. Isso me condenou a anos de solidão. Mas, se falei sobre árvores é porque acredito que são os poemas sobre árvores que ressuscitam os ossos secos espalhados no deserto. Visões de ossos secos não têm poder para dar vida aos ossos secos... Imaginei uma política que nascesse da beleza. Lutam melhor os que têm sonhos belos. Somente aqueles que contemplam a beleza são capazes de endurecer “sem nunca perder a ternura”.* Guerreiros ternos. Guerreiros que leem poesia. Guerreiros que brincam como crianças...
Assim, abandonei as inspirações éticas e políticas da teologia – justificação pelas obras – e deixei-me levar pela felicidade estética – justificação pela graça. “E viu Deus que era muito bom...”** “O paraíso é, antes de tudo, um belo quadro”, diz Bachelard. Alegria para os olhos, alegria para o corpo. Deus, em oposição aos seus adoradores, que fecham os olhos para vê-lo melhor, abre os seus e se alegra. O ato de ver é uma oração. O místico não se encontra no invisível. O místico se encontra no visível. O visível é o espelho onde Deus aparece refletido sob a forma de beleza. Deus é um esteta. Quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado.
Me acusarão, como me acusaram: “Uma opção aristocrática, para poucos!” Sim, se se acreditar que os humildes e pobres são criaturas embrutecidas pelo sofrimento, com sentidos e almas insensíveis. Mas eu não creio assim. Creio que, dentro de todos, mora, adormecida, a nostalgia pela beleza. Estou apenas fazendo eco a um poema que se encontra incrustado nas Confissões, de santo Agostinho:
Perguntei à terra [...], perguntei ao mar e às profundezas,
entre os animais viventes, às coisas que rastejam. [...]
Perguntei aos ventos que sopram,
aos céus, ao sol, à lua, às estrelas [...]
e a todas as coisas que se encontram às portas da minha carne [...].
Minha pergunta era o olhar com que as olhava.
Sua resposta era a sua beleza.

Neruda, em Confesso que vivi, declara que foi através da estética que ele encontrou o caminho para a alma do seu povo. Também os humildes e os pobres se alimentam de beleza.
Eu nunca imaginei que seria escritor. Não me preparei para isso. Conheço pouco da tradição literária. A literatura me chegou sem que eu esperasse, sem que eu preparasse o seu caminho. Chegou-me através de experiências de solidão e sofrimento. A solidão e o sofrimento me fizeram sensível à voz dos poetas. A decisão foi tomada depois de completar quarenta anos: não mais escreveria para os meus pares do mundo acadêmico, filósofos ou teólogos. Escreveria para as pessoas comuns. E que outra maneira existe de se comunicar com as pessoas comuns senão simplesmente dizer as palavras que o amor escolhe? Fernando Pessoa declara que “arte é a comunicação aos outros de nossa identidade íntima com eles”. Toda alma é uma música que se toca. Quis muito ser pianista. Fracassei. Não tinha talento. Mas descobri que posso fazer música com palavras. Assim, toco a minha música... Outras pessoas, ouvindo a minha música, podem sentir sua carne reverberando como um instrumento musical. Quando isso acontece, sei que não estou só. Se alguém, lendo o que escrevo, sente um movimento na alma, é porque somos iguais. A poesia revela a comunhão.
Não escrevo teologia. Como poderia escrever sobre Deus? O que faço é tentar pintar com palavras as minhas fantasias – imagens modeladas pelo desejo – diante do assombro que é a vida. Se o Grande Mistério, vez por outra, faz ouvir a sua música nos interstícios silenciosos das minhas palavras, isso não é mérito meu. É graça. Esse é o mistério da literatura: a música que se faz ouvir, independentemente das intenções de quem escreve. É por isso que poesia, como bem lembrou Guimarães Rosa, é essa irmã tão próxima da magia... Poesia é magia, feitiçaria... O feiticeiro é aquele que diz uma palavra e, pelo puro poder dessa palavra, sem o auxílio das mãos, o dito acontece. Deus é o feiticeiro-mor: falou e o universo foi criado. Os poetas são os aprendizes de feiticeiro. O desejo que move os poetas não é ensinar, esclarecer, interpretar. Essas são coisas da razão. O seu desejo é mágico: fazer soar de novo a melodia esquecida. Mas isso só acontece pelo poder do sangue do coração humano.
Escrevi, faz muitos anos, um estória para a minha filha de quatro anos. Era sobre um Pássaro Encantado e uma Menina que se amavam. O Pássaro era encantado porque não vivia em gaiolas, vinha quando queria, partia quando queria... A Menina sofria com isso, porque amava o Pássaro e queria que ele fosse seu para sempre. Aí ela teve um pensamento perverso: “Se eu prender o Pássaro Encantado numa gaiola, ele nunca mais partirá, e seremos felizes, sem fim...” E foi isso que ela fez. Mas aconteceu o que ela não imaginava: o Pássaro perdeu o encanto. A Menina não sabia que, para ser encantado, o Pássaro precisava voar...
Dei-me conta de que essa estória é uma parábola da teologia. Existe sempre a tentação de prender o Pássaro Encantado, o Grande Mistério, em gaiolas de palavras. O poeta é aquele que ama o Pássaro em voo. O poeta voa com ele e vê as terras desconhecidas a que o seu voo leva. Por isso não há nada mais terrível para um poeta que ver um Pássaro engaiolado... Daí que ele se dedique, hereticamente, à tarefa de abrir as portas das gaiolas, para que o Pássaro voe... E é para isso que escrevo: pela alegria de ver o Pássaro em voo.
T. S. Eliot tem um verso em que diz:
E ao final de nossas longas explorações,
chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos
e o conheceremos então pela primeira vez...

Somente na velhice nos reencontramos com a infância, com a nossa infância. Creio que essas coisas que escrevo são uma tentativa de recuperar a felicidade perdida da minha infância. Agora, na velhice, experimento a alegria de ver muitas gaiolas vazias. E a alegria de ver os amigos que sorriem comigo, ao ver os pássaros em voo. Mas há uma tristeza. Sinto-me como Ravel, que, ao ver aproximar-se o fim, dizia, num lamento: “Mas há tantas músicas esperando ser escritas!”

Notas

* Citação de Che Guevara.
** Citação de Gênesis 1,31.

- Rubem Alves, no livro "Se eu pudesse viver minha vida novamente". Campinas,SP: Verus Editora, 2012.

Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

Voltando a ser criança - Rubem Alves

Jequitibá rosa (Parque Estadual do Vassununga) - foto: Dirceu Martins/TG

Voltando a ser criança

A Maria Antônia é pessoa querida, faz versos lindos que sempre cito. O seu livro Terra de formigueiro é um presente gostoso para uma pessoa amada. Ela me escreveu colocando duas fotografias dentro do envelope. A primeira era uma árvore gigantesca, fotografia tirada de baixo para cima, JEQUITIBÁ rosa, do Parque Estadual de Vassununga, em Ribeirão Preto. Atrás, informações técnicas: altura, quatrocentos metros; idade, três mil anos. Escrevi para ela:

Olha, gosto de acreditar em portentos, achei o JEQUITIBÁ fantástico, tão fantástico que escrevi o nome dele todo em maiúsculas – não devia ser escrito na horizontal, mas na vertical, em virtude de sua assombrosa ereção. Agora, acreditar que ele é da altura do Pão de Açúcar, quatrocentos metros, isso é um pouco demais para a minha incredulidade, nem o apóstolo Tomé acreditaria, muito embora para Deus tudo seja possível. Três mil anos de idade é tempo pra chuchu, mil anos antes do nascimento de Cristo... Mas não espalhe a notícia não, pois há o perigo de que comecem a dizer que chá de casca do jequitibá é o segredo da longevidade e da potência permanente, e isso seria o fim do jequitibá.

A segunda era um cartão-postal de uma exposição em homenagem ao Monteiro Lobato, em que aparece uma foto do meu filósofo mais querido, Friedrich Nietzsche e, em cima dela, uma frase de Lobato sobre ele, tirada de uma carta datada de 24/8/1904. Aí continuei a carta para a Maria Antônia:

Portento maior que o jequitibá eu achei a fotografia de Nietzsche com a frase do Lobato. Imaginar que Lobato tivesse conhecimento desse filósofo desconhecido, morto em 25 de agosto de 1900! A frase dele me deixa pasmo: “Ele é isso. Corre na frente com o facho, a espantar todos os morcegos e corujas e a semear horizontes.”


Nietzsche, sim, era jequitibá alto; faz muito tempo que estou subindo pelos seus galhos e nunca chego ao alto. Dizia ele que construiria seu ninho na árvore Futuro e que ali, na solidão, as águias lhe trariam alimento nos seus bicos!
A frase de Lobato me deixou pasmo, primeiro por ele ter lido Nietzsche naquela data. Segundo, porque de Nietzsche os leitores e intérpretes falaram as maiores barbaridades. Leitores e intérpretes, inclusive eu, são um perigo. Nunca acreditem neles. A razão para isso é simples. O próprio Nietzsche explicou:

Ninguém consegue tirar das coisas, incluindo os livros, mais do que aquilo que ele já conhece. Pois aquilo a que alguém não pode chegar por meio da experiência, para isso ele não terá ouvidos.

Isso nada tem a ver com erudição. Os eruditos não o entendiam. Um erudito professor da universidade de Berlim, após ler seus textos, sugeriu que ele parasse de escrever como escrevia, porque ninguém se interessava por aquilo que ele escrevia.
Mas Lobato o entendeu. Se não tivesse entendido, não teria escrito o que escreveu. O Riobaldo sabe o segredo do entendimento. “O senhor mesmo sabe. E, se sabe, me entende.” A gente entende quando já sabia. Lobato já sabia. Os dois, Lobato e Nietzsche, tinham a mesma coisa na alma. E, se querem saber o que era, digo. Eles, ambos, amavam as crianças. Não esse amor bobo, as crianças umas gracinhas, tolinhas, com quem se fala só por meio de diminutivos idiotas: tem dois aninhos, vai tomar sopinha, vai pôr roupinha. Levavam as crianças a sério. Concordavam com a opinião de Bernardo Soares, que notava a “diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos”. No mundo de Lobato os adultos são seres-sombras, à margem do maravilhoso acontecente no mundo das crianças. Não escrevia para as crianças. Contava, para os adultos, estúpidos, o mundo das crianças. Zaratustra, o grande herói de Nietzsche, seu monstro dionisíaco, era uma criança. Tinha de ser, para se comover até às lágrimas com borboletas e bolhas de sabão. Seus escritos eram borboletras e bolhas de sabão. Os adultos não podiam entender. Num momento de desânimo ante a incompreensão dos adultos, ele escreveu:

Gosto de me assentar aqui onde as crianças brincam, ao lado da parede em ruínas, entre os espinhos e as papoulas vermelhas.
Para as crianças eu sou ainda um sábio, e também para os espinhos e para as papoulas vermelhas.

Escrevia para educar. Mas tinha horror às escolas. Nas escolas se formam os rebanhos de ovelhas, todas balindo igual, todas pensando igual. Ovelha que balisse diferente, que pensasse diferente, ia para o manicômio ou era reprovada. Morreria de rir se tivesse tido a felicidade de ler a Adélia Prado:

Escola é uma coisa sarnenta. Fosse terrorista, raptava era diretor de escola e dentro de três dias amarrava no formigueiro, se não aceitasse minhas condições. Quando acabarem as escolas, quero nascer outra vez.

Escola é máquina de destruir crianças. Nas escolas as crianças são transformadas em adultos. É isto que todos os pais querem: que seus filhos sejam adultos produtivos. Como ficam felizes quando eles passam no vestibular!
Nietzsche andava na direção contrária... Não era ovelha de rebanho. Era cabrito montês, que andava sozinho nas rochas. Criança não é meio para se chegar ao adulto. Criança é fim, o lugar aonde todo adulto deve chegar. Zaratustra tinha trinta anos de idade quando deixou sua casa e o lago de sua casa e subiu para a solidão das montanhas. Lá viveu por dez anos, tendo por companhia a sua serpente, a sua águia e o sol. Chegou um dia, entretanto, em que ele se sentiu como fonte transbordante. E então teve saudades dos homens. Desejou que eles bebessem da sua água. E assim ele orou ao sol:

Eis que estou cansado da minha sabedoria, como uma abelha que ajuntou mel demais; necessito de mãos estendidas que a recebam [...].
Mas, para isso eu tenho de descer às profundezas, como tu, estrela transbordante, o fazes de noite.

E assim começou então a descer. Sua descida passava por uma floresta, a mesma por que passara dez anos antes. Dez anos antes ele se encontrara com um solitário, um eremita, um santo. Encontrou-se com o mesmo eremita que se espantou ao vê-lo:

Esse caminhante não me é estranho; muitos anos atrás ele passou por esse caminho. Ele se chamava Zaratustra. Mas ele mudou. Naquele tempo levava suas cinzas para as montanhas; e agora quererá levar seu fogo para os vales? Não terá medo de ser punido como incendiário? [...]

Zaratustra mudou, Zaratustra se transformou numa criança, Zaratustra é um iluminado.

Depois de dez anos de solidão, a iluminação. Iluminado, ele é agora uma criança. “Sim”, continuou o eremita,

eu reconheço Zaratustra. Seus olhos são puros e à volta de sua boca não mora nenhum desgosto. Não anda ele como um dançarino?

Que brigas ele teria com os psicanalistas, que ficam à caça de regressões à infância, esforçando-se para que a criança se mantenha reprimida e o adulto triunfe! Fosse ele um psicanalista (Freud declarou que ninguém podia se comparar a Nietzsche no conhecimento da alma humana!) e ele passaria o tempo todo à procura da criança que mora nos homens, criança que a educação trancafiou num quarto escuro. “Num homem real se esconde uma criança [...] que deseja brincar”, ele dizia. E é isso que diria àqueles que procurassem a sua sabedoria: “Que a tua vitória e a tua liberdade anseiem por uma criança.” “A maturidade de um homem consiste em encontrar de novo a seriedade que se tinha como criança, ao brincar...”
De fato, o jequitibá é maravilhoso, muito alto, muito velho. No galho de um jequitibá se pode pendurar um balanço. Mas a criança de Nietzsche é mais maravilhosa. Que são a altura e a idade de uma árvore comparadas ao momento efêmero de uma criança que balança no balanço? Bolha de sabão...


- Rubem Alves, no livro "Se eu pudesse viver minha vida novamente". Campinas,SP: Verus Editora, 2012.
.

Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

Dia das mães - Rubem Alves

Hibiscos branco e vermelho, de Damião Martins

Dia das mães
Quando eu era menino, o Dia das Mães se celebrava assim: as crianças que tinham mãe colocavam uma flor vermelha na blusa; as crianças que não tinham mãe, uma flor branca. Era tudo. Tudo estava dito.

- Rubem Alves, no livro "Ostra feliz não faz pérola". São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.
.

Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).

Sobre o amar e o ouvir - Rubem Alves

Ilustração: © Alessandra Vitelli 

Sobre o amar e o ouvir
Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito... A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados à solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato... O ato de falar é um ato masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido... Já o ato de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório.

- Rubem Alves, no livro "Ostra feliz não faz pérola". São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2008.


Saiba mais sobre Rubem Alves (biografia, obras e citações).