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Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá – Bernardo Élis

©Albert Marquet 
Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá 

— Fio, fais um zóio de boi lá fora pra nóis.

O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabeça, e no terreiro, debaixo da chuva miúda e continuada, enfincou o calcanhar na lama, rodou sobre ele o pé, riscando com o dedão uma circunferência no chão mole — outra e mais outra. Três círculos entrelaçados, cujos centros formavam um triângulo equilátero.

Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou:

— Pronto, vó.

— O rio já encheu mais? — perguntou ela.

— Chi, tá um mar d’água! Qué vê, espia, — e apontou com o dedo para fora do rancho. A velha foi até a porta e lançou a vista. Para todo lado havia água. Somente para o sul, para a várzea, é que estava mais enxuto, pois o braço do rio aí era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se pelo chão, feito um cachorro, cadela, aliás: era entrevada. Havia vinte anos apanhara um “ar de estupor” e desde então nunca mais se valera das pernas, que murcharam e se estorceram.

Começou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doença fatal (1).

O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroça, — que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, — tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha.

— Mãe, o vau tá que tá sumino a gente. Este ano mesmo, se Deus ajudá, nóis se muda.

Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da água escorrida da calça de algodão grosso.

A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele começou a tirar, com a colher te pau, o feijão quente da panela de barro. Era um feijão brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima, mexeu e pôs-se a fazer grandes capitães com a mão, com que entrouxava a bocarra.

Agora a gente só ouvia o ronco do rio lá embaixo — ronco confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum subterrâneo.

A calça de algodão cru do roceiro fumegava ante o calor da fornalha, como se pegasse fogo.

Já tinha pra mais de oitenta anos que os dos Anjos moravam ali na foz do Capivari no Corumbá. O rancho se erguia num morrote a cavaleiro de terrenos baixos e paludosos. A casa ficava num triângulo, de que dois lados eram formados por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos de cheias os habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da várzea era rasa e podia-se vadear perfeitamente.

No tempo da guerra do Lopes, ou antes ainda, o avô de Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formação geográfica construíra um excelente apartador. O gado, porém, quando o velho morreu, já estava quase extinto pelas ervas daninhas. Daí para cá foi a decadência. No lugar da casa de telhas, que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto do gado e as febres as pessoas.

“— Este ano, se Deus ajudá, nóis se muda.” Há quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo aquela conversa fiada. A princípio fora seu marido: “— Nóis precisa de mudá, pruquê senão a água leva nóis”. Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho; a mulher dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar a velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado.

A chuva caía meticulosamente, sem pressa de cessar. A palha do rancho porejava água, fedia a podre, derrubando dentro da casa uma infinidade de bichos que a sua podridão gerava. Ratos, sapos, baratas, grilos, aranhas, —

o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo à inundação, que aos poucos ia galgando a perambeira do morrote.

Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. Não havia céu, não havia horizonte — era aquela coisa confusa, translúcida e pegajosa. Clareava as trevas o branco leitoso das águas que cercavam o rancho. Ali pras bandas da vargem é que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato. Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relâmpago. A noite era feito um grande cadáver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas povoavam de terror o ronco medonho da cheia.

No canto escuro do quarto, o pito da velha Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e fuxicado.

— Ocê bota a gente hoje em riba do jirau, viu? — pediu ela ao filho. — Com essa chuveira de dilúvio, tudo quanto é mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no chão não.

Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara a cozinha numa intimidade pachorrenta.

Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro e nisto esbarrou com água. Pulou do jirau no chão e a água subiu-lhe ao umbigo. Sentiu um aperto no coração e uma tonteira enjoada. O rancho estava viscosamente iluminado pelo reflexo do líquido. Uma luz cansada e incômoda, que não permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar (2).

Lá fora o barulhão confuso, subterrâneo, sublinhado pelo uivo de um cachorro.

— Adonde será que tá o chulinho?

Foi quando uma parede do rancho começou a desmoronar. Os torrões de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de embiras e caíam nágua com um barulhinho brincalhão — tchibungue — tibungue. De repente, foi-se todo o pano de parede. As águas agitadas vieram banhar as pernas inúteis de mãe Nhola:

— Nossa Senhora d’Abadia do Muquém!

— Meu Divino Padre Eterno!

O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos ombros da estuporada e alcançar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaços de madeira, cuias, coités, trapos e a superfície do líquido tinha umas contorções diabólicas de espasmos epiléticos, entre as espumas alvas.

— Cá, nego, cá, nego — Nhola chamou o chulinho que vinha nadando pelo quarto, soprando a água. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pêlo molhado, trêmulo, e começou a lamber a cara do menino.

O teto agora começava a desabar, estralando, arriando as palhas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de suplício. Pelo vão da parede desconjuntada podia-se ver o lençol branco. — que se diluía na cortina diáfana, leitosa do espaço repleto de chuva, — e que arrastava as palhas, as taquaras da parede, os detritos da habitação. Tudo isso descia em longa fila, aos mansos boléus das ondas, ora valsando em torvelinhos, ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho também ia descendo. Era feita de paus de buritis amarrados por embiras.

Quelemente nadou, apanhou-a, colocou em cima a mãe e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para servir de varejão, e lá se foram derivando, nessa jangada improvisada.

— E o chulinho? — perguntou o menino, mas a única resposta foi mesmo o uivo do cachorro.

Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem, a fim de alcançar as árvores. A embarcação mantinha-se a coisa de dois dedos acima da superfície das águas, mas sustinha satisfatoriamente a carga. O que era preciso era alcançar a vargem, agarrar-se aos galhos das árvores, sair por esse único ponto mais próximo e mais seguro. Daí em diante o rio pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, até cair na cachoeira. Era preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrário, depois de cair no canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira.

— É o mato? — perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos de pua furavam o breu da noite.

Sim. O mato se aproximava, discerniam-se sobre o líquido grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondável — deviam ser as copas das árvores. De súbito, porém, a sirga não alcançou mais o fundo. A correnteza pegou a jangada de chofre, fê-la tornear rapidamente e arrebatou-a no lombo espumarento. As três pessoas agarraram-se freneticamente aos buritis, mas um tronco de árvore que derivava chocou-se com a embarcação, que agora corria na garupa da correnteza.

Quelemente viu a velha cair nágua, com o choque, mas não pôde nem mover-se: procurava, por milhares de cálculos, escapar à cachoeira, cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora. Investigava a treva, tentando enxergar os barrancos altos daquele ponto do curso. Esforçava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira.

A velha debatia-se, presa ainda à jangada por uma mão, despendendo esforços impossíveis por subir novamente para os buritis. Nisso Quelemente notou que a jangada já não suportava três pessoas. O choque com o tronco de árvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se desligado e rodado. A velha não podia subir, sob pena de irem todos para o fundo. Ali já não cabia ninguém. Era o rio que reclamava uma vítima.

As águas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite escura que cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A nado, não havia força capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha tentava energicamente trepar novamente para os buritis, arrastando as pernas mortas que as águas metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele esforço da velha estava fazendo a embarcação perder a estabilidade. Ela já estava quase abaixo das águas. A velha não podia subir. Não podia. Era a morte que chegava, abraçando Quelemente com o manto líquido das águas sem fim. Tapando a sua respiração, tapando seus ouvidos, seus olhos, enchendo sua boca de água, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu filho, que era perrengue e estava grudado nele.

Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice valente na cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para tornar a aparecer, presa ainda à borda da jangada, os olhos fuzilando numa expressão de incompreensão e terror espantado (3). Novo coice melhor aplicado e um tufo d’água espirrou no escuro. Aquele último coice, entretanto, desequilibrou a jangada, que fugiu das mãos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio.

Ao cair, porém, sem querer, ele sentiu sob seus pés o chão seguro. Ali era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco. Era raso. O diabo da correnteza, porém, o arrastava, de tão forte. A mãe, se tivesse pernas vivas, certamente teria tomado pé, estaria salva. Suas pernas, entretanto, eram uns molambos sem governo, um estorvo.

Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, não teria dado dois coices na cara da velha, não teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada afundasse…

Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão, as pernas escorrendo ao longo do rio?

Quem sabe ela não tinha rodado? Não tinha caído na cachoeira, cujo ronco escurecia mais ainda a treva?

— Mãe, ô mãe!

— Mãe, a senhora tá aí?

E as águas escachoantes, rugindo, espumejando, refletindo cinicamente a treva do céu parado, do céu defunto, do céu entrevado, estuporado.

— Mãe, ô mãe! Eu num sabia que era raso.

— Pera aí, mãe.

O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se metendo por ele adentro. A água barrenta e furiosa tinha vozes de pesadelo, resmungo de fantasmas, timbres de mãe ninando filhos doentes, uivos ásperos de cães danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos torvelinhos malucos e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como flores sobre túmulos.

— Mãe! — lá se foi Quelemente, gritando dentro da noite, até que a água lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos à voz da mãe que não respondia, e foi deixá-lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.

- Bernardo Élis. em "Os cem melhores contos brasileiros do século". (diversos autores).. [organização e seleção Ítalo Morriconi]. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2000.

Pelo sim, pelo não - Bernardo Élis

© Winslow Homer

Pelo sim, pelo não

Ora pois, que a idade tem muita força. Por aquele tempo, tinha eu meus dezoito anos, era comprido que nem uma vergôntea de marmelo, espinhento, sensível a mais não poder, e o sangue me galopava pelo corpo tal e qual u'a manada de poldros brabos em broto novo de queimada.

Acontece que meu padrinho resolveu tocar pra diante uma fazenda que recebera de porteira fechada, em pagamento de dívida; situava-se pra lá do Bugre, pro norte da mata dos Caiados, por nome fazenda do Coqueiro: Coqueiro, por via do despropósito de coco de macaúba que por lá crescia. Disparate.

A fazenda não era lá muito boa, não, mas possuía suas manchas de terra fresca, suas furnas de cambaúba e capim meloso, coisa especial, onde pastavam algumas centenas de cabeça de gado bruxo já meio mestiçado de zebu, brabo que era uma coisa por demais. Só sentir cheiro de gente, os bichos levantavam a cabeça, sacudiam as aspas enormes e deixavam era poeira na cara do cristão. E com meu padrinho, que Deus tenha, lá fomos nós custear esse gado, pegar aquelas brabezas a casco de cavalo e laço e derrubar pelo rabo, reunir em pastoreio, meter no curral, salgar, cortar a vassoura do rabo, marcar e carimbar. Uf, nem lhe digo! Foi o que deu outubro e novembro e nós naquela labuta que era um nunca mais se acabar! Por cima, o capeta da curralama andava toda estragada e o pessoal estava reconstruindo quase tudo, racha aroeira praqui, pororoca prali, reajusta uma porteira mais acolá.

Barras do dia quebrando, um gole quentinho de café no papo, a gente já pulava em riba do socadinho, metido nas calças justas de couro que lá chamavam de perneiras, atirava aos ombros a capa "ideal" que a chuva não era caçoada, na garupa o cipó de doze braças, e rumava para o campo. Uns iam pegar as brabezas, outros dar pastoreio: era a labuta que você sabe. Antes do pessoal esparramar, na passagem do córrego, amoitado numas touceiras de gravatás, havia um garrafão de cachaça com umburana: a gente bebia escondido, que meu padrinho tinha uma jeriza danada de todo jeito de bebida.

A valença era que por esse tempo andava pela fazenda, passeando ou não sei o quê, uma sobrinha do patrão, pedaço de moça bonita, que hoje é senhora casada e mãe de muito filho importantão, mas que eu conto porque não falo por malícia, nem com safadeza; minha história é contada do fundo do coração, com o respeito de minha lealdade. Mas que pedaço de moça bonita! Uns olhos escuros que eram mesmo que um veludo, de maciosos; a boca, aquela formosura de boca, sempre molhada e mais vermelha que uma rosa de jardim; um corpo, qual! Não tinha velho, não tinha moço, até as mulheres sentiam um frio pelo estômago quando viam a moça passar no passinho faceiro, os peitinhos tremendo feito berém preparado em madrugada de São João.

E mais para dar na vista da menina do que mesmo para servir, vivia eu trabucando pelos campos, dando duro no curral, de onde, vez por outra, se via o vultinho dela no vão da janela da varanda esperando seu copo de leite quente, espiando uma ferra de marruco ou algum curativo de bicheira. A gente ficava inzonando, inventando lida, fazendo bulha por amor de obrigar a mocinha a chegar à janela. Tinha então uma vaca caraúna, por nome "cigana", de bezerro já desse porte assinzinho, - você sabe que leite desse tipo de rês é o que há de mais gostoso, - pois dessa é que o degas aqui enchia o copinho da moça, canequinho de louça imitando um barril, temperado com açúcar e conhaque.

Tempo duro, mas que até hoje o coração me bacoreja apressurado quando me alembro! Ah, tempo bão! Então, o sangue galopava nas veias do corpo só um poldro bravo pelas queimadas.

Hoje é vergonha dizer, mas naquele tempo, não: embora entrado já nos meus dezoito anos bem socados e nutridos, lhe conto, meu irmão, eu não conhecia mulher nenhuma na minha vida. Não é que não existisse mulher dama; bem que doutra banda do "Guampo" havia uns pares delas, onde o pessoal ia buscar amor e aventuras e muito gálico, mas eu nunca fui desses pagodes não. É como lá diz: me casei virgem, de mulher, bem entendido! Padecia, mas suportava.

Por conseguinte, quando punha os olhos em riba da menina, ai, minha Nossa Senhora da Abadia do Muquém! até a vista me turvava, o sangue chega saltava aqui na veia-artéria do pescoço e o coração açulerava que até parecia coisa que ia dar na gente um trem ruim qualquer. E apesar de todo esse sofrimento, embora ninguém soubesse, vivia de olhos fitos na menina, namorado que nem um jacaré, sonhando com ela, cheiro de toda flor, cheiro de toda fruta, era cheiro dela; vulto de nuvem era vulto dela; canto triste de perdiz, pio magoado de sabiá, que são tantos em princípios de água, era canto da voz dela. Ai! era aquela dor mais gostosa que a gente podia imaginar, bambeza de vontade, corpo largado de quebradeira, um sobressalto constante no corpo largado de quebradeira, um sobressalto constante no coração. Muita vez, uma bobaginha de nada fazia a lágrima brotar nos meus olhos: o canto da jaó na boquinha da noite, o ronco comprido de algum trovão ao longe... E como os homens e as mulheres me pareciam bons e cheios de encanto! Até os doentes, até os aleijados eu via com os olhos de muita amizade, uma vontade de ajudá-los, de reparar os seus defeitos, consolar suas tristezas, aproximar os arredios, tratar bem os bichinhos de Deus-Nossinhô...

Bem, u'a manhã de domingo, tínhamos castrado a macete bem uns dez marruquinhos, ferrado outros tantos, tínhamos lidado que não era caçoada e estávamos enlameados da cabeça aos pés, pois embora naquele dia não chovesse, a chuva vinha chovendo obra bem de um mês ou quê; mas, como ia contando, nessa amanhã não chovia. Pelo contrário, um sol de fogo clareava o mundo, com bandos de passo-pretos cantando choco pelas cacaubeiras, uma fumaça dourada se erguendo do lameiro. Pelas nove horas mais ou menos, eu, o Dito Nolasco, o Noratinho e outros terminamos a labuta e resolvemos ir até o corgo mode lavar o corpo e em seguida entrar na fatiota nova, pois as visitas não tardavam e iam ser muitas.

A água estava turva, com o ribeirão meio crescido, mas um banho não era desagradável com o calorão que fazia. Metemo-nos na água, tomamos banho e, como fosse hora de "pegar o grude", o Dito mais o Norato apressaram-se em ir para as casas deles. Eu, porém, como comia era na casa de meu padrinho mesmo, e lá o almoço fosse mais tarde, deixei-me ir ficando por ali marombando mais um tiquinho.

Beleza de ribeirão, as praias muito alvas da areia que as derradeiras enchentes deixaram! Verde-verde era o mato, umas catleias penduradas do alto que nem velas de igreja, umas flores de uma lindeza sem par trepando pelos galhos, azulando ou arroxeando por ali uns lábios, uns sexos de fêmeas.

O silêncio caía imenso sobre o lugar.

Longe, lá para os lados da fazenda, vozes chamando, pedaços de frases, um pilão socando, latidos de cachorros, cacarejos de galinhas, "Maria, ocê..." que o resto o vento sacudia pra longe; de novo o silêncio mais silencioso desse mundão de meu Deus. A água correndo nas pedras com sua cantiguinha terna, a areia branca, as flores, os passarinhos, um cheiro adocicado de baunilha perdida nalguma moita. Em tudo esse mistério do sangue andando na profundeza do corpo, ruído confuso de mil bichinhos picando, roendo, carregando, trafegando por baixo das cascas dos paus, pelo chão fofo e morno da sua fermentação fecunda naquela manhã de umidade e de sol demais.

Deitado na areia quente do sol, meu pensamento vadio era uma borboleta serena que não pousava em nada; sem perceber, eu sentia em meus nervos, minhas tripas, sangue e pele e cabelo e unha, a presença desejosa da parenta de meu padrinho. Era ela o rio; e nela eu mergulhava o desejo de minhas carnes; era ela a areia, e nela eu me espojava num longo contato mineral e cálido; era ela a flor que imitava tão delicadamente um sexo; era o perfume que punha no meu nariz um fôlego acelerado de quem estivesse tomado do maior medo desse mundo; era o sol destilando essa moleza de pecado e de abandono.

Nisso que volto a vista para as águas turvas do ribeirão, mesmo ali no remanso do poço cavado entre pedras, u'a mancha de sol, seria? me chamou a atenção. Mas será que era sol? Imitava antes um bicho horroroso, aranha imensa talvez de muitas e muitas pernas! Ou era limo verde das águas mansas? Ou cabeleira? Ah, isso sim: mais parecia cabeça de mulher vista de costas, cabelos muito compridos se desmanchando nas águas turvas... Mas cabeça de mulher, uai! Agora, ondulando como labareda incerta, boleando mornamente feito uma gelatina esverdinhada, no fundo das águas refrangidas e refletidas em jato de luz, traços de musgo, sombras de mato e flor, espuma e ondas, aparecia mas logo se sumia um corpo de mulher. De uma beleza que até me tomava o fôlego, de um mistério tão completo que meu coração perdeu o compasso e veio bater na goela, o sangue a me atropelar nas veias tal e qual uma tropa de garanhões perseguindo éguas nos chapadões brotados de novo...

Homem, não sei! Eu tinha, como principiei contando, dezoito anos e o sangue me corria nas veias como poldro brabo. Tem hora que fico cismando: seria a mãe d'água?

Por isso é que digo que a idade tem muita força.


- Bernardo Élis Fleury de Campos Curado, no livro "Caminhos dos gerais". (contos) 1975.