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Quem ama, cuida - Lya Luft

©Francisco Pimiango


Quem ama, cuida

Somos uma geração perplexa, somos uma geração insegura, somos uma geração aflita — mas, como tudo tem seu lado bom, somos uma geração questionadora.
O que existe por aí não nos satisfaz. Sofremos com a falta de uma espinha dorsal mais firme que nos sustente, com a desmoralização generalizada que contamina velhos e jovens, com uma baixa auto-estima e descaso que, penso eu, transpareceram em nossa equipe de futebol na Copa do Mundo.
Algum remédio deve ser buscado na realidade, sem desprezar a força da imaginação e a raiz das tradições — até no trato com as crianças.
Uma duradoura influência em minha vida, meu trabalho e arte, foram os contos de fadas: antiquíssimas histórias populares revistas e divulgadas por Andersen e pelos Irmãos Grimm, para povoar e enriquecer alma de milhões de crianças — e adultos.
Esses relatos, plenos de fantasia, falam de realidades e mitos arcaicos que transcendem linguagem, raça e geografia, e nos revelam.
Nessa literatura infantil reúnem-se dois elementos que me apaixonam: o belo e o sinistro. Ela abre, através da imaginação, olhos e medos para a vida real, tecida de momentos bons e ameaças sinistras, experiências divertidas e outras dolorosas — também na infância.
Na realidade, nem sempre os fortes vencem e os frágeis são anulados: a força da inteligência de pessoas, grupos, ou povos ditos “fracos”, inúmeras vezes derrota a brutalidade dos “fortes” menos iluminados. Porém o mal existe, a perversão existe, atualmente a impunidade reina neste país nosso, confundindo critérios que antes nos orientavam. Cabe à família, à escola, e a qualquer pessoa bem intencionada, reinstaurar alguns fundamentos de vida e instaurar novos.
Não vejo isso em certa — não generalizada — tendência para uma educação imbecilizante de nossas crianças, segundo a qual só se deve aprender brincando, a escola passou a ser quase um pátio tumultuado, e a falta de respeito reproduz o que acontece tanto em casa quanto em alguns altos escalões do país.
Essa mesma corrente de pensamento quer mutilar histórias infantis arcaicas como a do Chapeuzinho Vermelho: agora o Lobo acaba amigo da Vovó... e nada de devorar a velha, nada de abrir a barriga da fera e retirá-la outra vez. Tudo numa boa, todos na mais santa paz, tudo de brincadeirinha — como não é assim a vida.
Modificam-se textos de cantigas como “Atirei o pau no gato”, transformando-a em um ridículo “Não atire o pau no gato” e outras bobajadas, porque o gato é bonzinho e nós devemos ser idem, no mais detestável politicamente correto que já vi.
O mundo não é assim. Coisas más e assustadoras acontecem, por isso nossas crianças e jovens devem ser preparados para a realidade. Não com pessimismo ou cinismo, mas com a força de um otimismo lúcido.
Medo faz parte de existir, e de pensar. Não precisa ser terror da violência doméstica, física ou verbal, ou da violência nas ruas — mas o medo natural e saudável que nos faz cautelosos, pois nem todo mundo é bonzinho, adultos e mesmo crianças podem ser maus, nem todos os líderes são modelos de dignidade. Uma dose de realismo no trato com crianças ajudará a lhes dar o necessário discernimento, habilidade para perceber o positivo e o negativo, e escolher melhor.
Temos muitos adolescentes infantilizados pelo excesso de proteção paterna ou pela sua omissão, na gravíssima crise de autoridade que nos assola; temos jovens adultos incapazes porque quase nada lhes foi exigido, nem na escola, nem em casa. Talvez tenha lhes faltado a essencial atenção e interesse dos pais, na onda de “tudo numa boa”.
Dar a volta por cima significará mudar algumas posturas e opções, exigir mais de nós mesmos e de nossos filhos, de professores e alunos, dos governos, das instituições. Ou vamos transformar as novas gerações em fracotes despreparados, vítimas fáceis das armadilhas que espreitam de todos os lados, no meio do honrado e do amoroso — que também existem e precisam se multiplicar.
Não prego desconfiança básica, mas uma perspectiva menos alienada: duendes de pesadelo aparecem em nosso cotidiano. Nem todos os amigos, vizinhos, parentes, professores ou autoridades nos amam e nos protegem. Nem todos são boas pessoas, nem todos são preparados para sua função, nem todos são saudáveis.
Para construir de forma mais positiva nossa vida, é preciso, repito, dispor da melhor das armas, que temos de conquistar sozinhos, duramente, quando não a recebemos em casa nem na escola: discernimento. Capacidade de analisar, argumentar, e escolher para nosso bem — o que nem sempre significa comodidade ou sucesso fácil.
Quem ama, cuida: de si mesmo, da família, da comunidade, do país — pode ser difícil, mas é de uma assustadora simplicidade, e não vejo outro caminho.

— Lya Luft, no livro "Em outras palavras". Rio de Janeiro: Record, 2011

Mais sobre a autora:

A marca no flanco - Lya Luft

© Catrin Welz-Stein
A marca no flanco

O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É uma ideia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa abertura ou exclusão em relação ao mundo. E o que configura essa perspectiva nossa? Ela se inaugura na infância, com suas carências nem sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e imprevistos contra os quais nada nos defende. Temos de criar barreiras e ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos.
Mas não somos apenas levados à revelia numa torrente. Somos participantes. Nisso reside nossa possível tragédia: o desperdício de uma vida com seus talentos truncados se não conseguirmos ver ou não tivermos audácia para mudar para melhor - em qualquer momento, e em qualquer idade. A elaboração desse "nós" iniciado na infância ergue as paredes da maturidade e culmina no telhado da velhice, que é coroamento embora em geral seja visto como deterioração. Nesse trabalho nossa mão se junta às dos muitos que nos formam. Libertando-nos deles com o amadurecimento, vamos montando uma figura: quem queremos ser, quem pensamos que devemos ser - quem achamos que merecemos ser. Nessa casa, a casa da alma e a casa do corpo, não seremos apenas fantoches que vagam mas guerreiros que pensam e decidem. Constituir um ser humano, um nós, é trabalho que não dá férias nem concede descanso: haverá paredes frágeis, cálculos malfeitos, rachaduras. Quem sabe um pedaço que vai desabar. Mas se abrirão também janelas para a paisagem e varandas para o sol. O que se produzir - casa habitável ou ruína estéril - será a soma do que pensaram e pensamos de nós, do quanto nos amaram e nos amamos, do que nos fizeram pensar que valemos e do que fizemos para confirmar ou mudar isso, esse selo, sinete, essa marca. Porém isso ainda seria simples demais: nessa argamassa misturam-se boa-vontade e equívocos, sedução e celebração, palavras amorosas e convites recusados. Participamos de uma singular dança de máscaras sobrepostas, atrás das quais somos o objeto de nossa própria inquietação. Nem inteiramente vítimas nem totalmente senhores, cada momento de cada dia um desafio. Essa ambiguidade nos dilacera e nos alimenta. Nos faz humanos. No prazo de minha existência completarei o projeto que me foi proposto, aos poucos tomando conta dessa tela e do pincel. Nos primeiros anos quase tudo foi obra do ambiente em que nasci: família, escola, janelas pelas quais me ensinaram a olhar, abrigo ou prisão, expectativa ou condenação. Logo não terei mais a desculpa dos outros: pai e mãe amorosos ou hostis, bondosos ou indiferentes, sofrendo de todas as naturais fraquezas da condição humana que só quando adultos reconhecemos. Por fim havemos de constatar: meu pai, minha mãe, eram apenas gente como eu. Fizeram o que sabiam, o que podiam fazer. E eu… e eu? Marcados pelo que nos transmitem os outros, seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro. A rede estendida por baixo é tecida de dois fios enlaçados: um nasce dos que nos geraram e criaram; o outro vem de nós, da nossa crença ou nossa esperança.
Muito escutei na infância: "Criança não pensa." Criança pensa. Mas faz também algo mais importante, que amadurecendo desaprendemos: ela é.
Contemplando uma mancha na parede, um inseto no capim ou a revelação de uma rosa, ela não está apenas olhando. Está sendo tudo isso em que se concentra. Ela é o besouro, a figura na parede, ela é a flor, o vento e o silêncio. Da mesma forma ela é a frieza ou a angústia dos adultos, sua superficialidade e frieza ou seu amor verdadeiro. E precisa que às vezes a deixem quieta, sem exigir que a toda hora se mexa, corra, fale, brinque, como se contemplação fosse doença. A criança imersa em seu ambiente participa de um processo maior do que ela, no qual desabrocha com pouca consciência. Porém ela tem algo mais valioso do que consciência: tem intuição de tudo, tem o saber inocente.
Perderemos essa sabedoria da inocência na medida em que formos domesticados, necessariamente encaixados na realidade em torno. Queiram os deuses que nesse processo de domesticação a gente consiga preservar a capacidade de sonhar. Pois a utopia será o terreno da nossa liberdade.
Ou acabaremos como focas treinadas cumprindo corretamente nossas tarefas, mas soterrando aquilo que chamamos psique, eu, self, ou simplesmente alma. Seremos roídos pela futilidade, tão mortal quanto a pior doença: ataca a alma, deixando-a porosa e quebradiça como certos esqueletos. A alma com osteoporose. Uma criança é sobretudo a sua própria dimensão na qual o tempo, os aromas e as texturas, as presenças e emoções são a sua realidade peculiar. Isso alguma vez tentei explicar naquele tempo com minhas palavras hesitantes. Ninguém parecia entender - ou não estavam muito interessados. Então eu armava tudo em histórias que recitava para mim mesma como rezas de bruxas. Adulta, acabei fazendo algo parecido ao escrever romances e outros livros - como este. Compreendi que a aparente indiferença dos outros com minhas imaginações infantis não era porque estivessem desinteressados ou eu não soubesse explicar direito. Era porque o pensado e o real não se distinguem nem cabem em palavras, e isso não se comunica.
Mais uma vez um livro meu se funda na ideia da família. Tenho incansavelmente escrito sobre ela. Somos marcados pelo olhar profético que nos lançaram em pequenos, como a maldição ou bênção das fadas nos contos infantis. Os dramáticos ou trágicos personagens que inventei em #meus romances foram frutos de famílias particularmente doentes onde imperavam o desamor, a hipocrisia, o isolamento. As vezes eram inibidos pela impossibilidade de manifestar afetos - que murchavam sem serem exercidos. Se viver sozinho já é duro, viver em família pode ser onerado e oneroso. Sofremos com a precariedade dos laços amorosos. Sofremos com falta de dinheiro e tempo. Sofremos com a necessidade de suprir cada vez mais os mandatos do consumo. Sofremos com o pouco espaço para diálogo, ternura, solidariedade dentro da própria casa. Principalmente, não temos tempo ou disponibilidade para o natural exercício da alegria do afeto.
Crianças, seja em que família for, serão seguramente - não principalmente - um problema e uma tarefa. Para que nos signifiquem alegria nós as teremos de querer e amar. Fazer da casa o ninho, não a jaula, começará antes daquele primeiro toque e olhar sobre um filho que acaba de nascer.
A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Se for esburacado demais vamos tropeçar mais, cair com mais facilidade e quebrar a cara - o que pode até ser saudável, pois nos dará chance de reconstruirmos nosso rosto. Quem sabe um rosto mais autêntico. Mas às vezes ficaremos paralisados. Em plena maturidade sinto em mim a menina assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim de muitas décadas atrás. Tudo aquilo é para sempre meu, ainda que as pessoas amadas partam, que a casa seja vendida, que eu já não seja aquela. Para isso precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente eu armazenaria as ruins. Os contornos desse eu que me propuseram precisaram ser ampliados segundo o meu jeito, para que, dentro de todas as minhas limitações, eu pudesse me abrir e acolher a vida em constante transformação. Boa parte do tempo andamos meio às cegas, avançando por erro e tentativa, tateando entre os desafios de cada dia. Sobre essa terra firme ou areia traiçoeira teremos de erguer a nossa casa pessoal feita em parte desses materiais brutos. Nem tudo pode ser programado. Os cálculos têm resultados imprevistos. Misturamos em nós possibilidade de sonhar e necessidade de rastejar, medo e fervor.
Talvez seja utopia, mas se eu não deixar que se embote a minha sensibilidade, quando envelhecer, em vez de estar ressequida eu terei chegado ao máximo exercício de meus afetos.
Tudo se complica porque trazemos nosso equipamento psíquico. Nascemos do jeito que somos: algo em nós é imutável, nossa essência são paredes difíceis de escalar, fortes demais para admitir aberturas. Essa batalha será a de toda a nossa existência. As ferramentas para executarmos a tarefa de viver podem ser precárias. Isso quer dizer: algumas pessoas nascem mais frágeis que outras. Um bebê pode ser mais tristonho do que seu irmão mais vital. Não é uma sentença, mas um aviso da madrasta Natureza. O meu diminuto jardim me ensina diariamente que há plantas que nascem fortes, outras malformadas; algumas são atingidas por doença ou fatalidade em plena juventude; outras na velhice retorcida ainda conseguem dar flor. Essa mesma condição é a nossa, com uma diferença dramática: a gente pode pensar. Pode exercer uma relativa liberdade.
Dentro de certos limites, podemos intervir. Por isso, mais uma vez, somos responsáveis, também por nós. Somos no mínimo corresponsáveis pelo que fazemos com a bagagem que nos deram para esse trajeto entre nascer e morrer. Carregamos muito peso inútil. Largamos no caminho objetos que poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades. Corremos sem parar até aquele fim temido, raramente nos sentamos para olhar em torno, avaliar o caminho, e modificar ou manter nosso projeto pessoal.
Ou nem tínhamos desejos pessoais. Nos diluímos nas águas da sorte ou da vontade alheia. Ficamos tênues demais para reagir. Somos os que se encolhem nos cantos ou sentam na beirada da poltrona nos salões da vida.
Cada desperdício de um destino, um indivíduo que se proíbe de se desenvolver naturalmente conforme suas capacidades ou até além delas, me parece tão trágico e tão importante quanto uma guerra. Pois é a derrota de um ser humano - que vale tanto quanto milhares. Não devíamos escrever artigos e fazer passeatas apenas contra a guerra, a violência, a corrupção e a pobreza, mas proclamar a importância do que semearam em nós, indivíduos. De como o devemos cuidar no tempo que nos foi dado para essa jardinagem singular.
Se insisto na importância do olhar fundamental me conduzindo por um caminho ou outro, não estarei atribuindo excessiva responsabilidade à família primeira - aos pais? Penso que é assim. O amor primeiro, aquele entre pais e filhos, vai determinar nossa expectativa de todos os amores que teremos. Nossa vivência inicial vai marcar muitas de nossas vivências futuras. Por isso, ter filhos e criá-los é cada dia gerar e pari-los outra vez, sem descanso. Todo amor tem ou é crise, todo amor exige paciência, bom humor, tolerância e firmeza em doses sempre incertas. Não há receitas nem escola para se ensinar a amar. Uma arena de combates destrutivos me prepara tão mal para ser uma pessoa inteira quanto o sossego artificial dos problemas ignorados. Lutas podem ser positivas, competição faz crescer; amar é impor e aceitar limites. A relação familiar ocorre entre personalidades diferentes ou até antagônicas, predeterminadas a viverem longo tempo entre quatro paredes de uma mesma casa (sem possibilidade de divórcio se forem pais e filhos), reunidos num caldeirão fervente de desencontros e desconsertos: "Sempre senti que minha mãe não sabia bem o que fazer comigo!" "Meu filho desde bebê parecia sempre desconfortável, até nos meus braços."
"Nunca entendi o que realmente meu pai queria de mim, era sempre um estranho."
"Qualquer coisa química, de pele, não funcionava entre minha mãe e eu, a gente não gostava de se abraçar." "Vivemos sempre em universos diferentes e distantes um do outro." "Nunca consegui agradar à minha mãe, ela me criticava o tempo todo, e, mesmo agora que sou adulta e ela bem idosa, continuamos no mesmo tom." "Meu pai parecia irritado só de me olhar. Me cobrava tudo. Por mais que eu me esforçasse, sempre me sentia seu devedor." Esse grupo familiar que não escolhemos e nos define tanto pode ser um porto confiável de onde partimos e ao qual podemos retornar, ainda que em pensamento. Aquele lugar que será sempre o meu lugar, mesmo que eu já não viva nele. Mas é necessário cortar com o que ele eventualmente tem de sufocante: pois pode ser também jaula, voragem, fundo de poço. Se ficarmos demais presos, teremos de nos puxar pelos próprios cabelos para outro espaço onde mesmo com susto e incertezas a gente possa respirar e decidir o que fazer agora. Não podemos alterar o passado. Dramas familiares podem ser raízes venenosas por baixo da terra do convívio ou da alma. A lei do silêncio, do segredo obsessivo, pode constituir grave perturbação. Mas podemos mudar nossa postura em relação a tudo isso, ainda que em longos e dolorosos processos, que significarão a diferença entre vida e morte. Posso me libertar. Posso me reprogramar para discernir o que é para mim, neste momento, o "melhor" - ou o possível. Meu conceito de mundo inibe minhas decisões e me consome e faz encolher, ou me força a enfrentar alternativas. Nessa hora entrarão em jogo a minha bagagem inata, o que eu tiver construído em mim, os recursos aos quais posso apelar - e minha confiança de que posso realizar isso. Não comandamos o destino das pessoas amadas, nem ao menos podemos sofrer em lugar delas, mas ter filhos é ser gravemente responsável. Não apenas por comida, escola, saúde, mas pela personalidade desses filhos: mais complicado do que garantir uma sobrevivência física saudável. Não significa que nós os formamos ou deformamos como deuses onipotentes. Ao contrário, parte do drama de paternidade e maternidade é não podermos viver por eles nem os preservar de seus destinos. Fazer suas opções. Mas seguramente nossa maneira de ser, de viver e de pensar quando ainda eram pequenos, quando ainda pareciam "nossos", vai influir em tudo isso. Não defendo os pais vítimas, que "por amor aos filhos" desistem de sua própria vida. Não admiro a mãe sacrificial que anula sua personalidade com a mesma alegação, para no fundo culpabilizar os filhos e lhes cobrar o que lhe "devem» e até o que "não devem". Mas será sobre nós, nossa esperança ou pessimismo, nosso afeto ou frieza, que os filhos darão os primeiros de seus muitos passos.
E farão isso com seus filhos futuramente. Serão tão fundamentais para eles quanto os pais de nossos pais foram na geração anterior. Atrás e à frente de cada casal humano estende-se uma longa cadeia de erros e acertos geradores de humanidade.
Nascemos com toda a carga de nossa genética física e psíquica. Mas não somos apenas isso. Somos em parte resultado do que foram nossos pais.
Mas não somos apenas isso. A sociedade em que vivemos tem muitos olhos e braços, que nos vigiam e interferem em nossa realidade. Um deles chama-se opinião alheia. Não a de algumas pessoas amadas e respeitadas, mas essa entidade informe, onipresente, quase onipotente, do "o que eles vão pensar". Sem pedir licença, entra em nossa casa e nossa consciência, limitando, podando. Fora das paredes domésticas, nossa inserção em uma cultura tem uma força inaudita. Para superá-la precisamos de discernimento, não propriamente um dote da juventude. Até chegarmos à maturidade somos muito mais vulneráveis a essa pressão que, vindo de fora, nos vara e lá se estabelece. Adolescente numa cidade do interior onde o comportamento era ditado por essa criatura sem rosto - e de tantos rostos -, muito me apoiou o que se ensinava em minha casa: a opinião alheia realmente não interessava. Haveria umas poucas pessoas às quais, por respeito e afeto, eu quereria prestar contas - seriam meus referenciais em muita coisa. Muito do que nos legaram pode ser reprogramado: somos fruto mas não escravos, o olhar primordial que nos saudou não é necessariamente uma sentença de morte.
Podemos - tarefa ingrata - fazer nossos acréscimos, escrever uma errata" sobre o texto daquele prefácio de nós. Mas quem nos dará sugestões, quem nos pode ajudar - se somos também pré-formados, pré-fabricados e condicionados? Quem vai destramar esses fios, onde começamos nós e termina a influência de tantos? Por isso somos buscantes, inquietos, naturalmente insatisfeitos. Não condenados: somos livres para muitas decisões. A partir de quando pude ter algum discernimento, o que fiz para continuar sendo - ou melhorando - isto que agora sou? Como fui me tornando um indivíduo que cultiva liberdade mas também respeito e ternura pelo outro? Como me posicionei em relação a essa entidade anônima e poderosa que se chama os outros, que pode ser amável e cruel?
Nossa visão imprecisa se define mais com o amadurecimento e a reflexão.
Forma-se o que chamamos personalidade, opinião própria, atitude. De mil maneiras mostraremos o lugar que pretendemos ocupar: pela escolha das nossas roupas, da profissão, do parceiro, de tudo. Sobretudo no inconsciente eu me comportarei conforme a confiança, a suspeita, o entusiasmo ou o ceticismo que me caracterizam. Dando aulas em uma faculdade eu insistia com aqueles jovens: "Vocês são melhores do que pensam. São mais inteligentes e mais capazes do que pensam, mais, inclusive, do que nós adultos - pais e professores -, sem querer os fazemos acreditar que são."
Ensinamos aos nossos filhos que são belos e bons, que são príncipes do espírito.., fazemos com que se sintam uns coitados, uns estorvos, motivo de preocupação e desgaste, de brigas e de arrependimento, lançados numa aventura fadada ao fracasso? Criamos almas subalternas se podíamos criar almas livres? A pergunta pode parecer cínica tendo em vista a complexidade de nossas estruturas sociais e de oportunidades de desenvolvimento, mas é preciso explicar. Sugerindo que nossos filhos deviam sentir-se príncipes e princesas, é óbvio que não penso em luxo ou posição social, muito menos arrogância, atributo dos medíocres.
Autoestima é o que me vem à mente. Visão positiva, não cor-de-rosa ou irreal, significando confiança. Capacidade de alegria, busca de felicidade, crenças. O que de melhor posso fazer, como ser inteiro e feliz, dentro de minhas possibilidades - que geralmente extrapolam aquilo em que acreditamos ou nos fazem crer. Por isso eu dizia aos meus alunos: vocês são melhores do que pensam. Autoestima me lembra o que dizia meu amado Érico Veríssimo: "Eu me amo mas não me admiro." Tem a ver com superar o confortável espírito de rebanho: formar e sustentar opiniões próprias. Não com viver desdenhosamente à margem, mas enfrentar o risco de algum isolamento. Não vender a alma a qualquer preço por qualquer companhia, mas selecionar os amados eleitos, os amigos leais, os mestres e modelos sensatos. Até mesmo a profissão mais adequada, a que nos dê mais prazer, se é que podemos fazer essa escolha: temos de pegar qualquer atividade quando se trata de sobreviver.
Falar é fácil… Eu sei. Mudanças produzem ansiedade. Tentar sair do emprego em que me pagam mal ou estou infeliz; enfrentar pai ou mãe opressivos; romper um relacionamento amoroso que me diminui ou esmaga; evitar um convívio em que um se anula para que o outro tripudie, num processo de servidão que gera ressentimento e culpa. Sair do estabelecido e habitual, mesmo ruim, é sempre perturbador. O desejo de ser mais livre é forte, o medo de sair da situação conhecida, por pior que ela seja, pode ser maior ainda. Para nos reorganizarmos precisamos nos desmontar, refazer esse enigma nosso e descobrir qual é, afinal, o projeto de cada um de nós.
"Mas a família não tem mais essa importância que você lhe atribui", objetarão. "A gente é muito mais livre, os compromissos são mais frouxos. Tudo mudou." Não: quase tudo mudou. A essência permanece a mesma: a nossa essência. Vertiginosamente no século passado a sociedade mudou, a família mudou. Transformou-se a cultura, evoluíram tecnologia e ciências, tudo avança em uma velocidade inimaginável há 50 anos. Porém as emoções humanas não mudaram. Nem ao menos somos originais. Nossos desejos básicos hão de ser os mesmos: segurança, afeto, liberdade, parceria; sentir-me integrado na sociedade ou na família, ser importante para meu grupo ou ao menos para uma pessoa - aquela que é o meu amor.
Não preciso ser um rei para ser importante, mas devo me sentir apreciado. Isso me determinará tanto quanto o primeiro olhar que incidiu sobre mim. Devo me considerar capaz e merecedor, sem megalomania, sem alienação. Dentro do que está aí para que eu o escolha, o modifique, o faça meu. Não tem a ver com dinheiro, posição social, nem com soberba, mas com o modo como somos avaliados - por nos e pelos que amamos. Minhas ações e desistências nascem desse conceito primeiro. Não importa se sou operário, doméstica, motorista, camponês ou alto executivo, atriz vitoriosa ou obscura balconista: gosto de mim na medida em que acredito na minha dignidade, quero me expandir conforme meu valor. E também segundo acho que vale a pena esse salto, esse crescimento, essa entrega.
Depende de minha confiança. Isso tudo não se instalou em nós através de palavras ensaiadas para ocasiões especiais ou crises. Estrutura-se subliminarmente no convívio diário, paira no ambiente, brilha na pele.
Volto à família: um ambiente duro em casa não prepara para enfrentar a dureza da vida, como alguns preconizam. Ao contrário: para saber defender-me no terreno violento em que vivemos preciso ter uma sólida raiz de afetos. Esse é o alimento mais importante que me podem dar desde o berço. Ele nutre minha alma, e é com ela que conquistarei o meu lugar: o meu lugar na minha casa, no meu casamento, na minha família, na minha sala de aula, no meu escritório, na minha fábrica, na minha rua. Mas tem de ser acima de tudo isso o meu lugar diante de mim mesmo. Que não seja subalterno.
Se achar que não valho nada, serei nada. Deixarei que outros falem, decidam, vivam por mim. Porém, se acreditar que apesar dos naturais limites e do medo todo eu mereço uma dose de coisas positivas, vou lutar por isso. Vou até permitir que os outros me amem.
Cestos, silêncios, palavras: criaturas vivas que na sombra do inconsciente armam laços e desarmam vidas. Com elas construímos pontes em cima das águas turvas ou cavamos o fosso dos mal-entendidos. Uma boa parcela dos sofrimentos entre pessoas nasce do desencontro e da incomunicabilidade. "Eu sempre tive certeza de que nossos pais preferiam você." "Mas como! Eu é que sempre tive certeza de que gostavam muito mais de você." "Você nunca disse que me amava, eu até achava que não era seu filho, que era filho adotado!" "Mas como! Eu te cuidei, te protegi, te ensinei, te dei tudo o que podia… me consumi trabalhando mais do que devia para que não te faltasse nada… lavei suas roupas, cuidei de você nas doenças… " "Mas aquela vez você disse… você fez… você parecia… " "Mas não era nada disso!… você não entendeu direito… eu não soube me expressar bem." Se a ferida for demais séria, diálogos ou explicações como esses não vão curar o que está gravado a fogo. Não basta uma noite de Natal ou um almoço em família para desfazê-lo. Alguém me disse: "Mas é assim mesmo, a gente não se entende. Somos todos uns pobres-diabos, todos complicados, todos inseguros e infelizes: como passar algo de bom para os filhos?" Não concordo. Não acho que sejamos pobres-diabos, nem que todos somos infelizes. Somos complexos, isso sim: intrigantes, vulneráveis e passíveis de engano e erro. Somos também maravilhosas máquinas de afeto e idéias, de sonho, de produção da arte que transporta para além do trivial. Capazes de instaurar o mais simples cotidiano que dá segurança e aconchego. Porém o amor - como o desamor - é uma tarefa trabalhosa. Que nos produz e nos recria a cada hora. Uma personalidade é um jogo de armar de emoções enoveladas, com peças difíceis de ajustar.
Sempre me disseram que eu era feia", contou-me alguém, e me convenci de que não merecia ser apreciada, ser escolhida - em resumo, ser feliz.» Outra pessoa me disse: "Eu era gordinha, mas meu pai sempre ressaltava que eu tinha olhos bonitos, era inteligente, era amada. Sem dizer expressamente, ele me ensinou que o físico deve ser cuidado mas não é tudo, nem deve determinar o meu destino. Hoje, se alguém não me amasse porque não estou dentro dos padrões da moda, ele não me atrairia pelo seu modo de pensar." A família nos fornece os primeiros critérios que podemos seguir ou infringir. Transgredi-los pode ser a salvação em muitos casos, se nos esmagarem; mas que difícil, quase heroica tarefa.
Porém ou nos libertamos até onde for possível, ou estarão ali atrás da porta a qualquer momento, mãos na cintura, mostrando a cara e pronunciando sua sentença. Que não será liberdade nem absolvição.
Ensinaram-me desde cedo que minha liberdade era essencial, que se ligava à minha dignidade, e que eu seria responsável por minhas escolhas. Mais: eu sabia que mesmo se tudo desse errado alguém sempre estaria ali para mim. Esse se tornou para mim o conceito básico de família: aquele grupo, ou aquela pessoa que, mesmo se não me compreende e às vezes nem aprova, me respeitará e amará como sou - ou como consigo ser. Em qualquer estágio esse sentimento básico de aprovação faz falta: sim, eu mereço viver bem. Mais tarde ainda pode-se desenvolver e reforçar, com experiências positivas, esforço pessoal, e uma reeducação sentimental, o nível de nossa autoestima. Autoconhecimento, um dos objetivos da terapia, apura a visão e leva a entender melhor, a conviver com feridas, a sobrenadar mesmo quando a onda é forte e feia. Sentir-se valorizado por alguém, amigo, amor, por um grupo, pode ser definitivo. Mas nem tudo se resolve assim. Algo elementar pode ter sido mais deletério do que podíamos suportar. Feridos de morte no início, passaremos o tempo espreitando para os lados: quem agora vai me ferir, de onde virá o próximo golpe, a próxima traição? Crescendo, amadurecendo e envelhecendo: com que olhar nos contemplamos? Paramos eventualmente para olhar e questionar?
Nossa maneira de ver e viver reflete - e repete - aquela com que fomos vistos quando éramos somente reflexo no espelho, ou vamos formando uma postura própria com todo o esforço e dor que isso possa exigir? Sendo contraditórios, somamos hesitação e medo com audácia e fervor. Podemos nos esconder no quarto escuro ou virar a cara para o sol, alternar as duas posturas, gastar e consumir, amealhar e multiplicar. Somos tudo isso. Nossa anistia ou nossa aniquilação. Não é só culpa dos outros se ficamos truncados. Em cada estágio podemos colocar algum traço, algum ponto, alguma cor no projeto de quem pretendemos ser. Podemos ser obrigados a usar disfarces, mas no centro de nós mesmos ressoa o nome que nos dermos: a nossa chancela.

— Lya Luft, no livro "Perdas e ganhos". Rio de Janeiro: Record, 2006.

Por sermos imperfeitos - Lya Luft

©Sofía Zapata Ochoa


Por sermos imperfeitos

A perfeição seria o tédio, e desse, sim, eu poderia morrer, para bocejar até o final dos tempos contemplando a ordem celeste: anjos rechonchudos naquela disciplina, ninguém dando um escorregão, ninguém botando a língua pra São Pedro, nem o próprio solta um palavrãozinho ao bater o pé em uma nuvem mais escura, o raio lhe chamuscando o calcanhar?
Eu quando criança morria de medo dessa ordem impenetrável na qual não haveria lugar para mim.
Porque somos imperfeitos, podemos melhorar. Podemos aprender formas melhores de convívio e de amor. Podemos até mesmo superar adições, que são a servidão do corpo e da alma.
Outro dia conheci um grupo de homens e mulheres, dos mais variados níveis culturais e sociais, que fizeram da imperfeição a sua razão de vitória. Das pedras que tiveram e têm de quebrar construíram seu caminho, alguns até seu castelo. Gente que se livrou — ou ainda luta para se libertar — da adição química, qualquer que seja, não importa se álcool ou outra droga.
Reúnem-se em grupos nos quais se exerce a humildade, a sinceridade, o respeito, e a fé em algo melhor: senti-me privilegiada podendo estar com eles, mais para aprender do que falar.
Nós, que não vivemos o drama da adição química, como somos ignorantes, preconceituosos, rápidos em condenar e superficiais no compreender. Com isso disfarçamos nossos próprios medos, em lugar de os enfrentar como fazem esses anônimos guerreiros.
Fingimos ser superiores, batendo grandes papos sobre dinheiro, futebol, sacanagem, política, ninguém levando porrada — como diria Fernando, o Pessoa. Não estamos nem aí. Botamos tapa-olhos para não enxergar o que se passa, vestimos máscaras para que a verdade não nos cuspa na cara, e nos defendemos do rumor que nos ameaça, botando fones de ouvido enquanto caminhamos na esteira para ficarmos em forma.
Mas temos medo e solidão; como país, presenciamos escândalos nunca antes vistos, temos nossa confiança duramente abalada. A violência é cotidiana, o narcotráfico nos ameaça, mais pessoas foram assassinadas por aqui do que nas guerras ao redor do mundo nos últimos anos. Andamos encolhidos dentro de casa.
Estão cada vez mais altos os muros do medo e do silêncio.
Não acho que antes fosse o paraíso, mas nunca vi tão escrachada corrupção e tão aberta impunidade.
A gente se lamenta, dá palpites e entrevistas, organiza seminários. Resultado? Parece que nenhum. Melhor não saber a quem a situação interessa, nem por que sugestões e explicações insólitas aparecem e desaparecem das páginas de jornal e telas de televisão.
Quando nada se pode fazer, optamos pela resignação. Mas sou da tribo (não tão pequena) dos que não se conformam. Não acredito em revolução, a não ser pessoal. Em algumas coisas sou antipaticamente individualista. Não sou boazinha, e quem julga meus livros bonzinhos está lendo com os óculos da sua própria burrice. Mas acho que quando o complicado não resolve pode-se tentar o mais simples. Às vezes ser simples é original.
Cada vez que, seja por trágica dependência, seja por aquilo que minha velha mãe chamava “fazer-se de interessante”, um de nós consome uma droga qualquer (mesmo o cigarrinho de maconha dividido com a turma) está botando no cano de uma arma a bala — perdida ou não — que vai matar uma criança, uma mãe de família, um trabalhador. Nosso filho, quem sabe.
É uma afirmação dura? É. A vida pode ser muito dura, e, pior que isso, cada um de nós é responsável.
Num jantar, há muitos anos, um conhecido desabafou, com grande culpa, que costumava fazer-se de pai amigão fumando maconha com os filhos quando adolescentes, para estar mais próximo deles. Um dos meninos sofreu gravíssimos problemas de adição pelo resto da vida.
O pai era culpado? Não creio. Nas tragédias familiares só há vítimas, embora alguns devam ser mais responsáveis do que outros. A vida não é tão simples, nem eu sou, de longe, moralista. Mas a gente brinca demais à beira do abismo.
Voltando ao começo deste artigo: os que me chamaram para falar, ouvir e aprender, renovaram minha convicção de que na questão da violência ligada ao narcotráfico, portanto ao uso de drogas, sermos os eternos queixosos que não fazem nada é outra forma de violência — perigosa porque sutil.
É colaborar com os que vão nos atingir no coração: diretamente com uma bala, ou com a morte praticamente anunciada de alguém que amamos.

— Lya Luft, no livro "Em outras palavras". Rio de Janeiro: Record, 2011


Mais sobre a autora:

Luto e renascimento - Lya Luft

©Mark Conlan


Luto e renascimento

A equipe de psicólogos e psicanalistas que trabalha em um grande hospital me pede uma palestra sobre perdas. A perda de uma pessoa amada ou a perda da própria saúde, e a proximidade imediata da morte. Que lhes podia dizer, a eles, competentes profissionais que enfrentavam diariamente os rios de dor, medo, esperança e morte que afluem a um grande hospital? Nisso todos eles, mesmo os jovens, tinham muito mais experiência do que eu. Então procurei ser simples. Falar das naturais dificuldades em lidar com qualquer perda. Primeiro, não queremos perder.
É lógico não querer perder. Não deveríamos ter de perder nada: nem saúde, nem afetos, nem pessoas amadas. Mas a realidade é outra: experimentamos uma constante alternância de ganhos e perdas, de que este livro procura falar.
Segundo, perder dói mesmo. Não há como não sofrer. É tolice dizer "não sofra, não chore". A dor é importante, também é o luto - desde que isso não nos paralise demasiado por demasiado tempo para o que ainda existe em torno de nós. Terceiro, precisamos de recursos internos para enfrentar tragédia e dor. O apoio dos outros, o abraço, o ouvido e o colo, até a comida na boca são relativos e passageiros. A força decisiva terá de vir de nós: de onde foi depositada a nossa bagagem. Lidar com a perda vai depender do que encontraremos ali. Se crescem árvores sólidas ou apenas alguma plantinha rasteira, teremos muito ou pouco com que nos nutrir e em que nos apoiar. A tragédia faz emergir forças insuspeitadas em algumas pessoas. Por mais devorador que seja, o mesmo sofrimento que derruba faz voltar a crescer. Para outros, tudo é destruição. No seu vazio interior sopra o vento da revolta e amargura. A perda os atinge como uma injustiça pessoal e uma traição da vida. Sob o golpe da notícia de uma doença grave, ao saber que se pode morrer em breve ou perder a pessoa amada, a gente bate a cabeça contra uma parede alta e fria. Não falo só dos dolorosos rituais da enfermidade e da morte. Falo do que é ainda mais sério: não ver mais sentido em nada. Porque até o dia da perda vivemos sem pensar. Corremos desnorteados no tempo em que tínhamos, sem refletir e quem sabe sem valorizar isso que agora perdemos: uma pessoa, a saúde, amor, posição, tudo. Se vivemos superficialmente, na hora de meter as mãos em nosso interior encontramos desolação. Não acho que todos devêssemos ser filósofos, eremitas ou fanáticos de nenhuma religião. Não acredito em poses e posturas. Não acredito nem mesmo em muita teorização sobre a vida, a morte, a dor. Mas acredito em afetos e tenho consciência de que somos parte de um misterioso ciclo vital que nos confere significação. E que dentro dele, sendo insignificantes, temos importância. Essa é uma das razões por que maturidade e velhice têm segredos, beleza e virtudes que antes não se manifestavam tão plenamente.
Nesse debate sobre perdas observei como lidamos mal com a dor uns dos outros. Entre nós de momento estar alegrinho e parecer feliz é quase um dever, uma questão de higiene, como tomar banho e estar perfumado. Mas às vezes a gente tem de se permitir sofrer - ou permitir que o outro sofra. Todos nós, amigos, família, terapeutas, médicos, sentimos duramente nossa própria limitação quando alguém sofre e não podemos ajudar. Em certos momentos é melhor não tentar interferir, apenas oferecer nossa presença e atender se formos chamados. Que o outro saiba que estamos ali. Mas não (se) permitir o prazo normal de dor é irreal.
Quando é hora de sofrer não teremos de pedir licença para sentir - e esgotar - a dor.
Sofrimento, pobreza, doença, abandono, morte - são ameaças, corpos estranhos numa sociedade cujos lemas parecem ser agitar, curtir, não parar, não pensar, não sofrer. A dor incomoda. A quietude perturba. O recolhimento intriga e incomoda os demais: "Ele deve estar doente, deve estar mal, vai ver é depressão, quem sabe um drinquezinho, uma nova amante, um novo namorado… " Para não se inquietarem, para não terem de "parar para pensar", ou apenas porque nos amam e nosso sofrimento os perturba, a toda hora nos dão um empurrãozinho: "Reaja, vamos, saia de casa, para de chorar, bote um vestido bonito, vamos ao cinema, vamos jantar fora." Também para isso haverá uma hora certa. O luto é necessário - ou a dor ficará soterrada debaixo de futilidade, sua raiz enterrando-se ainda mais fundo, seu fogo queimando nossas últimas reservas de vitalidade, e fechando todas as saídas. Não vou me alegrar jantando fora quando perdi meu amor, perdi minha saúde, perdi meu amigo, perdi meu emprego, perdi minha ilusão… perdi algo que dói, seja o que for. Então, por um momento, uma semana, um mês ou mais, me deixem sofrer. Permitam-me o luto no período sensato. Me ajudem não interferindo demais. O telefonema, a flor, a visita, o abraço, sim, mas por favor, não me peçam alegria sempre e sem trégua. Se não formos demais doentes nem perversos, a dor por fim se consumirá em si mesma. Se soubermos escutar o chamado - que pode ser até mesmo um bilhete amigo.
Alguma coisa positiva vai nos fazer dar o primeiro passo para fora da UTI emocional em que a perda nos colocou. Um dia espiamos para o corredor, passamos da UTI para um quarto, finalmente olhamos a rua e estamos de novo em movimento. Ainda estamos vivos, ainda em processo, até morrer.
A perda do amor pelo fim do amor, por abandono ou traição, supera toda a nossa filosofia de vida, nossos valores, independe de nós. Nada conforta, nada consola. Como o outro está ainda ali, vivo, talvez com outra pessoa, nossa mágoa e sentimento de rejeição se misturam à inconformidade e às tentativas, eventualmente danosas, de recuperarmos quem não nos quer mais. Uma mulher, rejeitada pelo amante, insistia em que ele a consolasse. "Só com você posso falar de nós" dizia. A dor a fazia ferir-se ainda mais. Foi preciso passarem mais tempo e mais mágoas para ela finalmente se desprender de quem a tratava como quem chuta um balde, irritado com o pedido impossível da que sofria. Muitas vezes, mais do que sonhávamos, um novo amor nos aguarda. Quando ele não aparece e se esgota o tempo, embora sempre seja tempo de amar - mesmo com 80 anos - " aprendemos que há outras formas de amar. Não substituem mas iluminam: amigos, família, alguma novidade, um interesse.
Quem sabe perder nos faça amar melhor isso que só nos será tirado no último instante: a própria vida. Perda de saúde se compensa com lenitivos ou melhoras que a medicina traz. Perda de dinheiro ou emprego podem ser remediados, ainda que exijam novos limites e condições. Perda da juventude tem a ver com o quanto somos vazios ou o quanto são estreitos nossos horizontes. Mas a perda do amor levado pela morte é a perda das perdas. Ela nos obriga a andar por cenários do nosso interior mais desconhecido: o das nossas crenças, nossa espiritualidade, nossa transcendência em suma. Aprender a perder a pessoa amada é afinal aprender a ganhar-se a si mesmo, e ganhar, de outra forma - realmente assumindo -, todo o bem que ela representava (mas no cotidiano a gente nem se dava conta). Uma amiga querida viveu uma experiência semelhante à de tantas mulheres dedicadas: acompanhar a longa doença de quem um dia foi belo e atraente e bom, foi senhor de si. Mas agora se deteriora aos poucos, sente pavor, quer viver, luta entre otimismo impossível ou desalento patético. Podemos chorar com ele ou usar a máscara da serenidade. Falar, calar, contestar - às vezes fugir -, cada caso é absoluta e intimamente especial. O enfrentamento final não é um fato inesperado, muito menos isolado. É apenas o último de uma longa série de fatos concretos e de conquistas interiores: cada um fez o seu caminho - no sentido literal. Passamos pelo suplício da pompa e circunstância de velório e enterro (sobretudo de quem fica exposto ao público), e sobrevém esse estranhíssimo, mais doloroso aspecto da morte: o silêncio do morto. Não há palavra amiga nem gesto que possam ajudar. É preciso esperar a ação do tempo - que não é apenas um devorador de dias e horas, mas um enfermeiro eficiente. "Você escreve obsessivamente sobre a morte, por quê?", pergunta o jornalista. Não, eu não escrevo obsessivamente sobre a morte, mas sobre a vida. Da qual ela faz parte. Como é inexato que eu seja, na minha literatura, derrotista ou amarga. Para quem souber ler, tudo o que escrevo é repassado de solidariedade pelos meus personagens, que não são pessoas reais mas inventadas; de um intenso amor, e uma indiscutível esperança. Escrevo sobre coisas que existem e são maravilhosas e outras que são tremendas, e algumas que poderiam ser melhores. Escrevo sobre o amor e a vida em todas as formas. Assim também necessariamente falo na morte. Fazendo aqui um pouco de literatura, posso dizer que a morte é que escreve sobre nós - desde que nascemos ela vai elaborando conosco o nosso roteiro. Ela é a grande personagem, o olho que nos contempla sem dormir, a voz que nos convoca e não queremos ouvir, mas pode nos revelar muitos segredos. O maior deles há de ser: a morte torna a vida tão importante! Porque vamos morrer, precisamos poder dizer hoje que amamos, fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo. Temos de ser decentes hoje, generosos hoje… devíamos tentar ser felizes hoje.
A morte não nos persegue: apenas espera, pois nós é que corremos para o colo dela. O modo como vamos chegar lá é coisa que podemos decidir em todos os anos de nosso tempo. O melhor de tudo é que ela nos lembra da nossa transcendência. Somos mais que corpo e ansiedade: somos mistério, o que nos torna maiores do que pensamos ser - maiores do que os nossos medos. Quando se aproxima dessa zona do inaudito, o amor tem de se curvar: com dor, com terror, submete-se a essa prova maior. Começa a ser ternura; aproxima-se de alguma coisa chamada permanência. Se acreditamos que viver é só comer, trabalhar, transar, comprar e pagar contas, a morte da pessoa amada será desespero sem remissão. Não nos conformamos, não acreditamos em mais nada. Mas se tivermos alguma visão positiva do todo do qual faz parte a indesejada, insondável mas inevitável transformação na morte, depois de algum tempo o amado acomoda-se de outro jeito em nós: continua parte da nossa realidade. Está transfigurado, porém ainda existe. "Com o passar dos anos dói menos", disse-me um amigo que há trinta anos perdera uma filha ainda criança.
Conheço um pouco a Senhora Morte. Duas vezes a Bela Dona me pegou duro, me cuspiu na cara, me jogou no chão. Foi-se a cada vez um pedaço importante de mim. Mas como em certos animais, as partes perdidas se refizeram, diferentes - não me sinto mutilada, embora a cada dia sinta em mim aqueles espaços vazios que não voltarão a ser ocupados.
Aprendi que a melhor homenagem que posso fazer a quem se foi é viver como ele gostaria que eu vivesse: bem, integralmente, saudavelmente, com alegrias possíveis e projetos até impossíveis.
A maturidade me ensinou coisas boas e belas (nem sempre aprendi bem a lição). Espero que a velhice, quando chegar, me ensine ainda mais, e me encontre mais receptiva. Reaprendi algo da infância que havia esquecido nas correrias com família e profissão. Como todas as crianças - se não as estorvarmos demais -, eu gostava de ficar sozinha, quieta e totalmente feliz olhando figuras de um livro, escutando o vento e a chuva ou as vozes da casa. Passamos a temer a solidão em adultos, talvez porque a sentimos como isolamento, esse que também ocorre numa casa habitada. Vamos perdendo capacidade de sermos integrados com o universo, mesmo o minúsculo universo de um pedaço de jardim ou quarto de criança.
E nos privamos do necessário recolhimento que algumas vezes nos reabasteceria com o combustível da reflexão, do silêncio e do sentimento mais natural das coisas. Nesta casa de agora, afetos essenciais me povoam. Não há isolamento. Amigos de qualquer idade também vêm me ver.
Alguns por assuntos triviais e alegres. Outros por angústias severas com as quais na juventude eu certamente não saberia lidar. Na maior parte das vezes não sei o que lhes dizer: nenhuma sugestão, nenhuma frase brilhante. Mas talvez sintam que a esta altura vi, vivi, ouvi, observei muita coisa. Pouco me espanta. Quase nada me choca. Tudo me toca, me assombra e me comove: o mais cotidiano, e o mais inusitado. Tudo forma o cenário e caminho. Que a maturidade me fez amar com menos aflição e quem sabe menos frivolidade - não menos alegria.
Como não sou incapacitada, quando é preciso também viajo sozinha. Entro em restaurante sozinha, dirijo meu carro sozinha. Ainda há mulheres que, quando combinamos um almoço ou um jantar, me esperam na porta do restaurante porque não conseguiriam entrar sem companhia. E não falo de desamparadas donas-de-casa sem cultura, nem de camponesas que nunca entraram em um restaurante. Não é natural uma mulher madura ter medo de entrar sozinha num restaurante. Não é natural proibir-se de viver por causa da opinião alheia. Não é natural envergonhar-se de amar, desejar, em qualquer idade. É inatural não ter mais projetos aos 70 anos. O essencial é que a que estou vivendo seja a minha vida: não aquela que os outros, a sociedade, a mídia querem impor. Que ela seja desdobramento e abertura. Que neste universo de mil recursos e artifícios, de artefatos e inovações fantásticos, de agitação e efervescência, eu consiga ainda ter o meu lugar, aquele onde me sinto bem, onde estou confortável - não adormecido.
Onde eu possa ainda acreditar: não faz muita diferença em quê, desde que não seja unicamente no mal, na violência, na traição, na corrupção, no negativo. Para que o argumento da nossa história seja o de uma viagem de reis: não um bando de ratos assustados correndo atrás de seus próprios reflexos num labirinto espelhado.

— Lya Luft, no livro "Perdas e ganhos". Rio de Janeiro: Record, 2006


Mais sobre a autora:

A gueixa no canto da sala - Lya Luft



Emil Nolde - Garden

A gueixa no canto da sala

Quando anos atrás eu já refletia sobre os temas específicos deste livro, decidi organizar grupos de mulheres para debatermos sobre a questão Maturidade: Perdas & Ganhos. Convidei uma amiga terapeuta experiente para participar. Mesmo que não fossem grupos terapêuticos, eu estaria lidando, mais diretamente do que em livros e palestras, com essa singular criatura chamada alma humana. Não queria improvisar frente a eventuais momentos de crise. Pretendíamos reunir no máximo dez mulheres e deixá-las trocar idéias e experiências sobre o tema do amadurecimento. A cada encontro sugeríamos um aspecto do tema ou lhes pedíamos sugestões. Não havia rigidez. Quem quisesse, quem se sentisse à vontade, daria seu depoimento ou exporia suas idéias a respeito de algum assunto. Todas podiam comentar, discutir. Hoje vamos falar de nossos medos.
Nossos arrependimentos, nossas alegrias. Nossos sonhos e projetos. Essa sugestão podia vir assim, direta, numa frase, ou em algum texto que recebiam para ler. A intenção primeira era descobrir: Quem sou ou acho que sou… quem quero ser, quem gosto de ser? Por que dispendemos tanta energia tentando ser quem não somos, não podemos ser - quem sabe nem temos vontade de ser? Depende também de mim? Se depende, o quanto isso significa que gosto de mim? Quero ser feliz, saudável, amoroso, rodeado de bons afetos ou na verdade curto ser ressentido e amargo? Esse é o "meu jeito"? Ou se quero mudar: como mudar, como enfrentar os efeitos da mudança? Como acontece entre mulheres, quase de imediato se formou um clima de diálogo e cumplicidade. Algumas mais tímidas, outras extrovertidas, mais reservadas ou expansivas, rapidamente passaram a dirigir elas mesmas os debates, por vezes em tom confidencial, outras, verdadeiras discussões. Lágrimas, risadas. Espanto: "Nossa! Pensei que só eu fosse assim. Achei que ninguém tinha esse problema." Nada de particularmente íntimo, apenas manifestações que provocaram muita reflexão nossa aos sairmos dos encontros. Certamente aprendemos com essas mulheres, que ali faziam o melhor que se pode fazer por si mesmo: querer entender, querer mudar, querer ser mais feliz.
Suas idades variavam de 40 a 80 anos, a maioria na casa dos 50.
Profissionais liberais ou "donas-de-casa" de mente inquieta indispensável para qualquer debate. Eram da geração de pioneiras que somos todas nós: não temos padrões anteriores para imitar nem mesmo para infringir, uma vez que o universo de nossas mães está em alguns aspectos tão distante do nosso que não há como comparar. O mais difícil era observar o quanto, não importava a profissão, ainda nos valorizávamos pouco. Insegurança parecia ser a nossa marca, incerteza quanto ao que valíamos e podíamos (não só "devíamos") fazer de nós mesmas. Anos, décadas, séculos de preconceitos culturais ainda nos prendiam apesar de todas as inovações. Do que estávamos precisando?
Primeiro, de discernimento. As emoções eram confusas. Havia inquietação e descontentamento, mas a gente nem se permitia elaborar isso com mais clareza. Um desconforto moral trouxera todas àquela sala. Como agir em relação a ele? Era importante defini-lo melhor. Falando, como acontece - pois dizendo o nome das coisas começamos a ter controle sobre elas -, foram-se delimitando espaços de interrogação, clareando contornos.
Apareceram as formas do nosso mal-estar. Uma das mais importantes foi como era imprecisa a linha entre amor e servidão. Entre generosidade e autoaniquilamento. Entre adaptação e automutilação. Para qualquer mudança é necessário compreender o que há de errado em nossa relação amorosa, em nossa casa, trabalho… em nós. Em que fomos vítimas, quanto colaboramos para essa situação. O que posso fazer, como posso, será que posso ainda?
Uma palavra pronunciada, um texto lido podem nos fazer enxergar o que devia ser evidente mas não é: por ser inquietante demais é melhor que fique embaixo de todos os tapetes de nossa resignação. Íamos nos conscientizando de que amor não deve ser servidão. De que em qualquer idade podíamos apostar em nós. Era possível abrir novas portas e se preciso derrubar algumas em torno e internamente. Devíamos assumir decisões, instaurar uma nova ordem pessoal, rever contratos e firmar acertos. Muito disso nem seria falado, mas tácito. Muito teria de ser discutido, eventualmente batalhado na família ou seja onde for. Era possível uma nova maneira de existir, e isso perturbava. Houve quem questionasse se não seria preferível tudo permanecer como estava antes daquelas reuniões: na mornidão do cotidiano aceito e do sonho podado. "E agora, o que é que a gente faz?", expressavam, entusiasmadas ou assustadas. Cada uma faria ou não faria o que fosse melhor, mais sensato, viável. Para algumas a única possibilidade seria deixar tudo ficar como estava. Para todas, porém, nada mais seria o mesmo: questionar o estabelecido, ainda que eventualmente não pudesse ser modificado, era um modo de se sentirem vivas.
A questão central era sempre a relação amorosa. Com pais para algumas, com filhos para muitas, para praticamente todas a convivência com o parceiro. Mulheres que se desperdiçam em relações que as inibem ou solapam seus talentos foram educadas para agradar, não para exercer ternura, mas cumprir papéis e deveres. Base bem precária para uma interação positiva com colegas, amigos, marido ou filhos. A mãe sempre disponível e a mulher submissa, até o colega ou funcionário eternamente solícito geram nos outros culpa e hostilidade. Vive-se numa dupla solidão: a de quem se submete e de quem até sem querer subjuga.
Conviver não se torna diálogo nem parceria, mas um frustrante monólogo a dois. Mudar isso seria quase um milagre para muitas pessoas. Porém residem aí possibilidades de realização nunca antes imaginadas para cada um, ou para os dois parceiros juntos. Alterar qualquer coisa, ainda que seja o cabelo ou o lugar habitual da mesa, é difícil. Para alguém mais desestruturado pode ser uma batalha com muitos ferimentos de parte a parte. Sentir-se injustiçado machuca, mas conformar-se pode ser tentadoramente confortável: "Não há nada a fazer, comigo é assim. Meus pais, meu marido, o destino foram carrascos. Agora é tarde." Os males que outros nos causaram - ou nós nos causamos - são sentinelas acusadoras diante de nossa porta. O jeito é tentar assumir o controle sobre esses espectros para que não nos manipulem. Alguns desconsertos se arrumam com uma boa conversa, ainda que com anos de atraso, e nos surpreenderíamos vendo quantas vezes o causador desse sofrimento nada percebeu.
Outras marcas são inapagáveis, queimaram mesmo, nos deformaram. Para essas é preciso bondade, doçura consigo mesmo, sabedoria e aceitação (não usei o termo "resignação" porque não gosto dele). Muitas lamentavam o que tinham feito ou deixado de fazer anos atrás: as escolhas erradas, as omissões, a resignação e a subserviência. Insegurança, incertezas.
Casamentos infantis, decisões graves tomadas sem refletir, primeiras responsabilidades sérias quando ainda se era tão imaturo. Uma deixara de trabalhar porque vieram os filhos, e o marido não queria que ficassem com uma babá. Outra desistira de fazer mestrado porque os filhos reclamavam de sua ausência em casa. Outra ainda nem chegara a entrar na universidade porque o pai queria as filhas em casa. Uma delas teria podido fazer doutorado em outro estado, mas nem se animara a mencionar esse desejo pois o marido "ficaria furioso". Uma confessou que não queria filhos pois se sentia pouco maternal, seu desejo verdadeiro era brilhar na profissão que a apaixonava mas que só agora, filhos adultos, conseguia realmente exercer com satisfação. Então por que tivera filhos, três na verdade? Ora, porque era o que as moças faziam, o que os maridos e pais esperavam. Era assim. Relatando esses fatos antigos pareciam meninas apanhadas em falta só porque tinham ousado ter tais desejos. Uma ou outra sorriu, sacudindo a cabeça: "Meu Deus, como eu fui boba." Eram modelos das boas e dedicadas mulheres que numa relação são - mais que amantes/amigas - meninas submissas de modelos masculinos tão estereotipados quanto elas. A solidão dos seus homens certamente era vasta na medida dessa desigualdade Sugerimos que fizessem, cada uma a seu modo, uma revisão daqueles processos. Porque tinham agido de um modo ou de outro? O que podiam, agora, tantos anos depois, fazer a respeito? "Não posso fazer nada, ora, reagiu uma delas, pois passou há vinte anos, acabou, não tem jeito." A tendência é ficar arrastando esses pequenos cadáveres, os "ah, se eu tivesse.., se ele tivesse… " Posso contornar esse fosso fingindo que não há problema; deitar-me à sua beira, chorando; enterrar-me dentro dele com minhas qualidades e esperanças; disfarçá-lo com folhas, ramos, tábuas, fingindo que nada aconteceu. Tentar preencher esse saldo negativo com alguma coisa positiva, que em cada caso será peculiar.
Indagar: por que naquele momento agi daquele modo? Foi por ignorância, covardia, impulso de autodestruição? Na relativa lucidez da maturidade veremos que a maior parte desses "buracos" se tornam menos funestos quando se constata: "naquele momento, naquela circunstância, eu fiz o melhor que podia." Quase sempre havia um motivo: os filhos pequenos, problemas do companheiro, real dificuldade em se afastar concretamente da casa ou da cidade, a pressão social ou familiar, havia.., nem sempre coisas negativas. Apenas realidades com as quais se tentou lidar como se podia àquela altura. Aos poucos enfrentavam-se velhos problemas com mais lucidez: naquela ocasião eu fiz o melhor que podia, embora hoje, na maturidade, veja que podia ter agido diferente. Naquela fase, imatura ainda, eu não podia, meus pais não entendiam, meu marido não sabia.
Amadurecer serve para isso: o novo olhar, na lucidez de certo distanciamento, permite compreender aspectos nossos e alheios antes obscuros. Por vezes promove-se uma espécie de anistia. Partindo dela podem-se reconfigurar padrões. Gosto de usar a palavra anistiar - melhor que perdão, pois não tem conotação religiosa, nem dá a ideia de que somos bonzinhos perdoando alguém. Nem a nós mesmos.
Um dia sugeri que falássemos diretamente sobre o que nos dava raiva. A princípio ninguém se animou: todas com marido maravilhoso, filhos ótimos, pais uns santos, proibido sentir raiva. De repente uma, que raramente falava, começou baixinho: "E tenho raiva. Eu tenho muita raiva." Sua raiva era da mãe inválida que a atormentava com a tirania dos fracos, de alguns doentes e das crianças muito mimadas. Outra então disse ter raiva dos sacrifícios que fazia pelos dois filhos adultos que ainda moravam com ela, sempre insatisfeitos e grosseiros. Uma censurava-se por sentir raiva do marido que não lhe dava atenção nem importância. ("Para ele parece que eu nem existo, nem sou humana.")
Outras sentiam muita raiva de escolhas feitas na juventude, de que falei acima. A lista foi longa e animada. Começamos a descobrir que ter raiva (não rancor) pode ser saudável e necessário. Nunca ter raiva - não se falava de ódio ou ressentimento - é mentir para si mesmo.
Muitos desses motivos de raiva podiam ser vistos sob outro enfoque: submeter-se a filhos grosseiros é resultado de todo um processo, desde o nascimento ou antes, em que a mãe precisava sentir-se vítima, a boazinha - a sofredora. Perder as estribeiras, descer das tamancas (ou do pedestal) pode provocar uma transformação admirável numa relação.
Certamente marido e filhos deviam sentir um misto de raiva e culpa em relação àquela esposa-mãe-mártir. Quando as coisas parecem muito ruins, ensinou-me uma amiga, pode-se indagar: "é tragédia ou é apenas chateação?"
Na grande maioria das vezes é chateação. A conta atrasada, o patrão estúpido, o colega invejoso, o filho malcriado, o marido calado, a velha mãe descontente, cinco quilos a mais, as próprias frustrações. Chuva demais, sol demais. Muito frio, muito calor: de repente, cada vez que respiramos, o mundo parece acabar. Uma boa faxina nos armários do coração traz grande alívio: botamos fora as chateações ou as deixamos de lado por um tempo, e vamos lidar com as coisas graves. Aos poucos descobrimos que respiramos melhor. Podemos até mesmo sonhar. A autoestima reduzida, companheira da insegurança e do medo, nos indicara muitas escolhas erradas na juventude. A muitas de nós aprisionava ainda agora num padrão fadado a causar mal-estar no ambiente familiar, e um constante sofrimento pessoal. Se nos valorizamos pouco não só tendemos a manter as coisas como estão (ruim o que conheço, pior o que ignoro), mas tomamos - ou não tomamos - decisões por medo. Medo da solidão, de sermos incapazes de decidir sozinhas, medo da opinião dos outros, medo. Quem se subestima precisa de alguém ao lado para confirmar sua validade como pessoa. Nessa situação não se dialoga, pois o equilíbrio da balança está demais prejudicado. É surpreendente a dificuldade de mulheres, mesmo competentes, para se sentirem justificadas, validadas por si sós. "Não me sinto inteira sem um companheiro, sem poder ao menos pensar e dizer "eu tenho alguém" disse-me uma advogada. Também nas mulheres bem-sucedidas pessoal ou profissionalmente vive aquela que tem medo de ficar sozinha, que viceja melhor à sombra do outro e considera sua verdadeira vocação a de servir, de agradar, de providenciar: a gueixa.
Essa que resiste a todas as inovações e conquistas de nosso tempo.
"Homem gosta de mulher que não sabe escolher no cardápio ou finge que não sabe e deixa ele decidir", disse-me uma jovem numa fase (passageira) de desilusão. Mas quem sabe nós é que não somos muito boas em escolher o companheiro, mesmo de um jantar? E quem disse que um homem com esse gosto saberá nos valorizar, portanto será que ele nos interessaria?
Cuidado: o homem apreciador da gueixa de falinha infantil e prato preferido dele sempre à espera pode ser másculo e prepotente, mas corre o risco de tornar-se um eunuco - nas emoções, que ficarão muito limitadas.
Embora a ambiguidade nossa torne tudo mais interessante pela multiplicidade de opções e interpretações, por outro lado nos aprisiona na gangorra da indecisão. Sofremos essa divisão entre o "querer" fazer e o que pensamos "dever" fazer. Realizamos em nós a frase da nossa infância, que incansavelmente ouvi: Criança não tem querer. Permanecemos, em algumas coisas, crianças - saboreando os privilégios e sofrendo os limites dessa condição. Quem conviver conosco, marido ou filhos, vai carregar um fardo a mais, que o lisonjeia ou o deixa solitário: ter ao lado a eterna menina em quem não pode se apoiar, com quem não pode realmente partilhar a vida. Dinheiro e instrução não nos liberam facilmente da secular lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o preconceito (a "cultura") nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos para mostrar o quanto somos dedicadas. Em suma, precisamos provar que merecemos afeto. Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que decidirá - e terá de gerir, ainda que lhe custe - o nosso futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos, e dos netos. Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais. Atrás de nós, o terror do tempo que passa devorando uma existência que nunca aprendemos a administrar - pois jamais nos pertenceu. Pior: possivelmente nem a queríamos administrar, porque isso significaria sair da protegida resignação para o susto das decisões. Enfrentar obstáculos e exercer enfim o tão desejado - e temido - poder sobre nós mesmas. Quando aquele Anjo viesse bater à nossa porta oferecendo a chance de ainda não nos levar caso pudéssemos dar três bons motivos para isso… o que teríamos a lhe dizer além dos pretextos habituais: "marido e filhos precisam de mim, e mas eu ainda nem arrumei a casa", ou "preciso fazer as compras e preparar o jantar?" Não se iludam: isto de que estou falando não acontecia só no começo do século passado, nem ocorre, hoje, apenas entre mulheres mais desinformadas ou simples. Embora tenha evoluído muito, a situação de homens e mulheres - pois se falo de uma, fatalmente estou envolvendo o outro - está em plena mutação. Muito resta a cumprir para se poder falar em verdadeira parceria. Ela exige equilíbrio: entre servo e senhor não existe diálogo.
Uma das queixas repetidas em nossos encontros era - nada original - não haver diálogo com maridos e namorados. "Mas você tentou dialogar, alguma vez tentou conversar com seu marido, seu namorado, até seu filho?" "Ah, não adianta… homens não gostam de falar… têm dificuldade com palavras, não têm jeito com elas… fogem da emoção.., são uns covardes. É da natureza deles." Será mesmo?
Ou nós impedimos os nossos homens de falar porque exigimos demais, exigimos que sejam como nós, que falem a nossa língua - se eles sempre falarão na linguagem dos homens? Nós realmente lhes abrimos espaço ao nosso lado, nós de verdade os estimulamos, e os escutamos, somos parceiras - ou quando chegam em casa despejamos em cima deles uma tonelada de queixas sobre a casa, a empregada, as crianças, o trânsito, os preços do supermercado… como se esta, a nossa imediata, fosse a única realidade? Não é impossível pessoas que falam idiomas diferentes se entenderem: com mímica, expressão, olhar, entonação de voz, alma e corpo e um gostar-se que dispensa tudo isso. Não houve apenas um desfiar de dores e queixas, mas vivenciamos muitos momentos de riso e bom humor. Falou-se na importância do bom-humor para conviver, para viver, para saborear positivamente as transformações todas: "em certos momentos não é o amor que nos salva", me dizia um amigo, "é o humor". O bom-humor é uma qualidade atraente e uma atitude sábia. Não se trata de sarcasmo, de divertir-se à custa dos outros, mas de rir de si mesmo na hora certa, respeitar-se e amar-se, mas não se julgar sempre injustiçado e agredido. Pode ser um último recurso: "Ou tento sorrir, até de mim mesma, ou corto os pulsos", me disse alguém com razões para se desesperar. E sorriu para mim, como quem diz: eu vou conseguir, a gente vai conseguir, afinal vale a pena. Não posso fazer piada quando perco um amante ou amigo, quando descubro que estou doente ou fico sem meu emprego.
Bom-humor não significa piadas: é o sorriso afetuoso, o silencio carinhoso, o colo acolhedor aberto ao outro e para mim mesma. Nossa evolução, as imposições do nosso grupo e cultura, nossos próprios fantasmas, exigem muita energia, vontade e uma pitada de bom-humor para serem domados - e não nos devorar sem cerimônia e sem compaixão.
Pretendíamos um trabalho breve só com mulheres. Mas ao fim de quase um ano de sucessivos grupos, quando já pensávamos em suspender o trabalho por excesso de outros compromissos, havia uma lista de dez homens que desejaram participar. Fizemos então um último grupo, desta vez só de homens. "Por que não misturaram?", sempre nos perguntam. Porque não tínhamos ideia da dimensão que aquilo tomaria. De nossa vontade de reunirmos um ou dois grupos, apenas porque eu queria tomar o pulso das mulheres, chegamos a mais de dez. Nunca tive intenção de juntar homens e mulheres, pois tínhamos apenas quatro encontros cada vez, e não haveria tempo de se instalar a desejada espontaneidade. Eu estava curiosa pelo que diriam homens sobre o assunto das perdas e ganhos do amadurecimento.
Pois o grupo masculino teve resultados comoventemente parecidos com os das mulheres: questionavam suas escolhas, ressentiam-se do envelhecimento, sofriam com o medo de perder a potência (também a econômica e a autoridade), de perder a saúde e a forma física.
Aborreciam-se pois, ainda que exaustos, lhes parecia impossível parar ou reduzir o ritmo de trabalho: mulheres e filhos dependiam demais deles. Eram onerados pela preocupação pelos filhos e culpa por achar que haviam falhado na família: podia ter havido mais diálogo, dedicação e tolerância. Muitos sentiam-se isolados dentro da própria casa. O laço singular entre mãe e filhos os deixava de fora. "Os filhos só vêm até mim para pedir dinheiro", lamentou um deles, "quando querem amizade, contar coisas pessoais, procuram a mãe." O não coração dos filhos, mesmo rapazes, era um terreno onde conseguiam andar direito. Haviam-lhes ensinado, aliás desde cedo, que no território de mãe e filhos o homem era um intruso.
"Cuidado, você vai deixar o bebê cair! Homem não tem mesmo jeito com criança. Deixa que eu mesma cuido disso, você pode ler seu jornal, ver seu futebol." Não são frases que fabriquei agora mas pronunciadas por muitas de nós mesmas àqueles que mais tarde acusaríamos de serem "distantes" dos filhos. Quem sabe agimos assim para sermos as únicas donas daquele que julgamos nosso único verdadeiro bem, nosso "objeto" mais pessoal, produto nosso, saído de nós - o "nosso" filho? Mulheres levantam paredes em torno da sua relação com o filho e deixam o homem de fora. Naturalmente passarão a vida queixando-se de que ele não se interessava pelo bebê, não sabia o que fazer com os filhos.
A solidão dos homens me pareceu mais árida do que a das mulheres, que têm outros tipos de laços afetivos: família, amigos, até mesmo sua casa.
"Os rapazes, meus colegas" dizia uma universitária, "quando conversam entre si contam vantagens, falam de dinheiro, futebol, política e mulher. Nós, as moças (algumas eram já casadas), quando nos reunimos, trocamos confidências ou nos queixamos (das mães, das empregadas, dos filhos, dos deveres em casa, ou… dos homens)." Entre o papo superficial com os amigos e o receio de decepcionar ou assustar (ou irritar?) as mulheres com sua própria fragilidade, com suas preocupações mais íntimas ou seus dramas, os homens silenciam. Com suas mulheres muitas vezes queixosas, obsessivamente encerradas na sua maternidade, consumindo-se nos cuidados domésticos ou em uma excessiva futilidade, resta-lhes o papel de provedor. A necessidade de ter alguém com quem dialogar, com quem realmente se abrir, era quase uma constante em seus comentários: "Com meus amigos, falo dessas coisas que homem fala: política, futebol… com a mulher, não quero me abrir porque ela logo fica nervosa, e me cobra mil coisas… e aos filhos, ah, esses eu tenho de proteger, não é?" Quase sempre há coisas a melhorar, e quase sempre podem ser melhoradas. Não é proibido questionar, esclarecer, explicar. Não é vergonhoso realizar o sonho de estudar, de abrir uma loja, de fazer uma viagem, de mudar de profissão. Mudar um relacionamento. Mais fácil é a resignação: morrer antecipadamente.
Velhos casais ressentidos ou jovens casais solitários dentro de casa são terrivelmente tristes e terrivelmente comuns.
"Quando estou deprimido, levantar da cama (e não me arrastar pela casa) já é um ato heroico", comentou alguém. Viver é um heroísmo, viver bem um longo amor é mais heroico ainda. Viver sozinho se meu amor fracassou é uma batalha por mera sobrevivência. Porém, só manter a cabeça à tona d'água num casamento, é suficiente? Um amigo disse no aniversário de sua mulher uma das coisas mais bonitas que ouvi: "Todos os dias de nosso casamento (de uns 40 anos), eu te escolhi de novo como minha mulher." O casal mais feliz haveria de ser aquele que não desiste de correr atrás do sonho de que, apesar dos pesares, a gente a cada dia se olharia como da primeira vez, se enxergaria - e se escolheria novamente.
Um dia me pediram para escrever sobre "o casal perfeito": bom para quem gosta de desafios. Minha primeira providência foi cercar com aspas o vocábulo "perfeito". O que justificaria o rótulo sobre o qual eu devia escrever? Imediatamente ocorreu-me que parceiros de um casal "perfeito" precisam se querer bem como se querem bem os bons amigos, e temperar esse afeto com a sensualidade que distingue amizade de amor. Duas pessoas que compreendem, sem ressentimento nem cobranças, a inevitável dose de peculiaridades do ser humano e sua dificuldade de comunicação.
Em última análise, toda a sua complicação. A melhor parceria deve ser aquela em que um aceita o outro sem ter de se submeter a qualquer coisa pelo outro; em que um aprecia e admira o outro, mas tem por ele ternura e cuidados.
Sobretudo aquela em que um parceiro não investe no outro todos os seus projetos, à primeira decepção passando de amor a rancor. Se o outro servir de cabide para os nossos sonhos mais extravagantes de perfeição, o primeiro vento contrário derruba o pobre ídolo que não tem culpa de nada. No casamento saudável, há um propósito geral: quero passar com você o melhor de meus dias, construir com você uma relação gostosa, importante e definitiva. É importante não correr para os braços do outro fugindo da chatice da família, da mesmice da solidão, do tédio. E essencial não se lançar no pescoço do outro caindo na armadilha do "enfim nunca mais só!", porque numa união com expectativas exageradas decreta-se o começo do exílio. Amor bom, além do mais, tem de suportar e superar a convivência diária. A conta a pagar, a empregada que não veio, o filho doente, a filha complicada, a mãe com Alzheimer, o pai deprimido, ou o emprego sem graça e o patrão grosseiro. Quando cai aquela última gota - pode ser uma trivialíssima gota -, a gente explode.
Quer matar e morrer, e nos damos conta: nada mais em nossa relação é como era no começo. Não é nem de longe como planejávamos que fosse. Não queremos continuar assim, mas não sabemos o que fazer. Ou sabemos, mas nos parece inexequível. Na verdade, na parceria amorosa como em tudo o mais recomeçamos tudo todos os dias. Então podemos tentar começar diferentes também aqui e agora. O cotidiano conforta, os seus pequenos rituais são os marcos de nossa vida mais segura, mas também traz desencanto e monotonia. 78 Precisamos de criatividade num relacionamento amoroso, dizem. O problema é que quando se fala em "criatividade" numa relação a maioria pensa logo em inovações no sexo, como se a solução estivesse em novas posições, outro perfume, artifícios exóticos. Transar bem é resultado, não meio.
Como deveriam ser os filhos: fruto de um afeto vivo, não instrumento para consertar o que está falido. Passada a primeira fase de paixão (desculpem mas ela passa, o que não significa tédio nem fim de tesão), a gente começa a amar de outro jeito. Ou a amar melhor; ou: aí é que a gente começa a amar; a querer bem; a apreciar; a respeitar; a valorizar; a mimar; a sentir falta; a conceder espaço; a querer que o outro cresça e não fique grudado na gente. "Se você ama alguém, deixe-o livre", estava escrito no bilhetinho que foi um dos maiores presentes que me deu alguém entre tantos muitos outros bens. Um pouco de lucidez e um bocado de maturidade (ah, que boa coisa, o tempo) há de mostrar se - e o quê - pode ser ainda conquistado a dois. Isso entendido, chega o momento da definição: e agora, o que fazer? Investir, se há mais possibilidades do que vazio. Como a gente não desiste fácil - porque afinal somos guerreiros ou nem estaríamos mais aqui, e porque há os filhos, os compromissos, a casa, a grana e até ainda o afeto - "vamos criar um jeito de reconstruir o que parece esfarelado. Isto é: quando há vontade, afeto, quando resta interesse. Desde que seja uma reinvenção a dois, não a submissão de um e o exílio de outro. Pois o espaço entre opressor e oprimido é um vazio. Mas e quando realmente nada mais resta de positivo?
Laços podem ser reconstituídos, remendados ou cortados. O corte se faz com mais ou menos generosidade, carinho ou hostilidade e raiva - sempre com dor. Porém nenhuma união deveria ser a sentença definitiva de aniquilamento mútuo dentro de uma jaula.
Como invento histórias, gosto de fábulas. Trabalho com elas, pois são o espelho da realidade. E porque gosto de histórias de anjos, aqui vai mais uma. Esta fala de amor, de parceria no amor, de encontrar quem possa ser nosso cúmplice, muito além e acima de convenções, receitas e "modas". Era um homem, um homem comum, que um comum destino parecia controlar inteiramente. Um animal doméstico bem treinado. Um dia sentiu um incômodo nos dois ombros, distensão muscular, má posição no trabalho… Foi piorando e resolveu olhar-se no espelho, de lado, inteiro e nu depois do banho: não havia dúvida, duas saliências oblíquas apareciam em sua pele abaixo dos ombros. Teve medo mas decidiu não comentar com ninguém, e como não transava frequentemente com a mulher, conseguiu esconder tudo quase um mês. Fez como via fazer sua mulher: pegou de cima da pia um espelho redondo no qual ela ajeitava o cabelo, e passou a analisar todo dia aquele fenômeno que, em vez de o assustar, agora o intrigava. Curioso mas sem sofrer - pois não doía -, foi observando aquilo crescer. E pensava: Nem adianta ir ao médico, porque se for um tumor (ou dois) tão grande, não tem mais remédio, é melhor morrer inteiro do que cortado. Certa vez, quando se masturbava no banheiro, na hora do prazer sentiu que elas enfim se lançavam de suas costas, e viu-se enfeitado com elas, desdobradas como as asas de um cisne que apenas tivesse dormido e, acordando, se espojasse sobre as águas. Ficou ali, nu diante do espelho, estarrecido. Ora ele não era apenas um homem comum com contas a pagar, emprego a cumprir, família a sustentar, filhos a levar para o parque, horários a cumprir: era um homem com um encantamento. Eram umas asas muito práticas aquelas, porque desde que usasse camisa um pouco larga acomodavam-se maravilhosamente debaixo das roupas. Em Certas noites, quando todos dormiam, ele saía para o terraço, tirava a roupa e varava os ares. Sua mulher notou alguma coisa diferente no corpo de seu marido. Estava ficando curvado, tantas horas na mesa de trabalho. Nada mais que isso. Embora a mãe lhe tivesse dito que "com homem é sempre melhor confiar desconfiando", daquele seu homem pacato ela jamais imaginaria nada muito singular. - Você vai acabar corcunda desse jeito, aprume-se - ela dizia no seu tom de desaprovação conjugal. As coisas se complicaram quando, já habituado à sua nova condição, o homem-anjo olhou em torno e, sendo ainda apenas um homem com asas, sentiu-se muito só. E começou a pensar nisso. E olhou em torno e se apaixonou. Na primeira noite com sua amante, esqueceu o problema, tirou a roupa toda, e quando ela começava a apalpar-lhe as costas o par de asas se abriu, arqueou-se unindo as pontas bem no alto por cima dele, na hora do supremo prazer.
Mas essa mulher/amante não se assustou, não se afastou. Apertou-se mais a ele, e dizia: vem comigo, vem comigo, vem comigo… E abriu suas asas também. (Histórias do tempo, 2000)
Amor é tarefa complexa além de tudo porque para amar preciso primeiro me amar. Dentro e fora são reflexos mútuos, como dois espelhos em lados opostos. Vou procurar um amor bom para mim - no qual me reconheço e me reencontro, me refaço e me amplio, me exploro, me descubro - se minha imagem interior me levar a isso. O amor mais que tudo nos revela: manifesta nossas tendências, o que preferimos e escolhemos para nós.
Quero, mereço ser e fazer feliz ou preciso me punir e castigar ao outro; mereço e posso crescer ou me aniquilar.., e ao outro comigo? "Escolha" amorosa pode parecer contradição. Antigamente falava-se em "escolher marido, escolher esposa". Sempre tive quanto a isso grandes reservas.
Hoje penso que é uma escolha, sim, mas não aquela a que tais conselhos se referiam: trate de escolher bem seu marido, sua mulher. A ideia, explícita ou não, era: que o marido te dê segurança econômica, que a mulher seja virtuosa e cuide bem da casa e dos filhos. Isso fala de arranjos e conveniências, de modelos rígidos impostos de fora. Amor é outro tipo de escolha. O homem com asas deparou com sua amante alada, aparentemente por acaso: foi na verdade sua escolha mais vital de uma parceria. Esse encontro se dá no escuro do desconhecimento mútuo. É em parte consciente, segundo nosso agrado e necessidades, o projeto que tínhamos, o modelo que queremos. Mas é bastante inconsciente, brota dos impulsos mais primários daquele nosso eu dissimulado sob muitas máscaras. Essa é a opção mais grave: nasce de toda a perspectiva interior. Na escolha do parceiro opto pelo que julgo merecer. E aí é que podemos apunhalar o próprio peito. Escolho conforme minha saúde emocional ou minha doença, meus desejos mais obscuros, meus movimentos inconscientes em direção de afirmação ou destruição. Nosso lado mais oculto sente, fareja: aqui devo investir minha emoção, aqui conseguirei me doar, aqui há alguém com quem posso pensar em construir um relacionamento.
No amor pensamos viver finalmente o mito da fusão com o outro. Queremos perder a identidade nas mãos daquele que de momento é "tudo" para nós. A paixão inicial quer ver e mostrar. É compulsão de nos abrirmos com o outro e mergulharmos nele, revelando os menores detalhes de nosso corpo e alma, incansáveis relatos do passado, trocas que parecem levar à sonhada união total. Sabemos cada momento do seu horário, com quem fala, onde esteve e pretende ou sonharia estar a tal e tal hora - maneira de estarmos sempre juntos, confirmação de afeto e interesse. Porém uma ligação amorosa é uma longa elaboração: enfrenta toda uma série de transformações de parte a parte. Mudamos e os parceiros não mudam necessariamente no mesmo ritmo, com a mesma intensidade ou no mesmo sentido.
O instinto e o afeto é que fazem com que os bons casais, os casais amorosos, usem dessas fases de crise para se renovar e crescer, se possível juntos. Desde que o instinto seja saudável, o afeto seja bom, a personalidade aberta. Não há receita. Não há escola. Não há manual. Um dos parceiros fatalmente envelhece antes, adoece mais. Pode ter reveses financeiros, pode ter fracassos profissionais. Pode evoluir com a idade e as circunstâncias, ou ficar atrás em relação ao outro. Instala-se entre ambos o jogo de poder em que o mais fraco tiraniza aquele que (nem sempre as mulheres) se submeteu mais, abdicou de mais coisas. Sendo vulneráveis e culpados essenciais, aquele que está em vantagem (o que quer que isso signifique) pode ceder a chantagens, podar suas asas e truncar seu destino para não "humilhar" o parceiro. Se for mulher, mais complexo o drama. Porque é convenção nossa (quem sabe ainda legado primitivo das cavernas) que o homem seja o forte e a mulher a frágil, o homem o dono do dinheiro (= poder) e a mulher a que vive de mesada.
Conheço mulheres de sucesso que a cada fim de mês entregam o dinheiro para que o marido o administre, porque se sentem incapazes, ou pior: temem que serem capazes deixe o marido inseguro e agressivo. Uma terapia dos dois, ou a dois, de um deles ao menos, um aconselhamento que seja, pode ser uma excelente ferramenta. Férias longe de trabalho e filhos, oportunidade de reencontro e conversas honestas. Mas frequentemente aquele que poderia dar o passo decisivo e consertar sua vida - mesmo dentro dessa relação - não se permite isso. A culpa não deixa. O medo de perder o parceiro não permite. O receio da solidão, pior ainda. Tudo fica como está: por baixo das aparências corre o rio turvo do lento e tácito suicídio a dois, físico ou moral. É a morte das alegrias e da ternura, um acordo fatal no qual a esperança fica revogada. A culpa, disse alguém, é como uma mala cheia de tijolos, peso inútil que carregamos de um lado para outro sem objetivo algum. Haveria só uma solução: jogá-la fora inteira ou ao menos parte dela. Mas regras autoimpostas, acordos nunca verbalizados, ajustes aparentemente necessários para evitar um conflito que poderia ser salutar - nem falo da guerra surda que se desenrola tão seguidamente entre casais -, ou comodismo, nos impedem de agir. Levantam aquelas intransponíveis colunas de Hércules que serão derrubadas algum momento mais tarde com violência e dor, ou serão o monumento em honra de duas existências boicotadas.
Escrevendo sobre amor não posso falar apenas de mulheres submissas.
Conheço maridos tão controlados pela parceira que não sobra espaço para novas amizades, nem para simples troca de idéias e estímulos - ainda mais se for com outra mulher. Numa casa que frequentei em mocinha, o marido e os filhos homens ao chegar na porta de entrada precisavam tirar os sapatos: havia chinelos à espera dos pobres. "Não entrem na minha casa com seus sapatos sujos!", esbravejava o general de saias que comandava, mais que uma casa, uma jaula.
A personalidade esmagada sonha com uma saída. Eventualmente, se ela aparece e é mais atraente, ocorre uma ruptura sob o infalível comentário de quem está de fora: "Mas, como? Pareciam se dar tão bem!" Aqui vale um PS: a atração fora do laço de uma união que se tornou mortal não precisa ser "outra pessoa", mas uma oportunidade de crescer, de viajar, de estudar, de sair do emprego, de travar nova amizade. Poder ser alegre, poder respirar. Poder confiar. Não se sentir fiscalizado ou ignorado.
Mas a gente pode optar por deixar tudo como está: é assim. Às vezes realmente não há maneira de escapar. Nesse caso, se aquele anjo da sombra ou da luz batesse à porta, não saberíamos dar nem ao menos uma boa razão, só nossa, para que ele não nos levasse, encerrando algo que na verdade já estava cancelado.

— Lya Luft, no livro "Perdas e ganhos". Rio de Janeiro: Record, 2006.
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