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Flor, telefone, moça - Carlos Drummond de Andrade

©Xuan loc Xuan

flor, telefone, moça

Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga — bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores — ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
— Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
— Mas você não vai acreditar, juro.
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
— Era uma moça que morava na rua General Polidoro, começou ela. Perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores — por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstito até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar para passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça, pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!
— No interior isso não é raro...
— Mas a moça era de Botafogo.
— Ela trabalhava?
— Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir a certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear — ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões — sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.
— Que flor?
— Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz — não tem cheiro, como inconscientemente já se esperava —, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
— Alooô...
— Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:
— O quê?
Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.
— Alô.
— Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
— Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
— Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.
Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
— Vem buscar, estou te dizendo.
— Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.
— Mas quem está falando aí?
— Me dá minha flor, eu estou te suplicando.
— Diga o nome, senão eu não dou.
— Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.
O trote era estúpido, não variava, e a moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.
Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.
— Alô!
— Quede a flor...
Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada, voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:
— Olhe, vire a chapa. Já está pau.
— Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
— Esta é fraquinha. Não sabe de outra?
E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a ideia daquela flor, ou antes, a ideia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda... Você está vendo que a moça começou a ter medo.

— E eu também.
— Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno — admitindo que se tratasse de pessoa morta — ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.
A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam “a voz”.
— A voz chamou hoje? indagava o pai, chegando da cidade.
— Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.
Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a frequentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?
O rapaz começou a tocar para todos os telefones da rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia... Discava, ouvia o alô, conferia a voz — não era —, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto — o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça — e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.
Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem para as amigas. Então a “voz”, que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “você me dá minha flor”, mas “quero minha flor”, “quem furtou minha flor tem de restituir” etc. Diálogo com essas pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.
Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade — o fato é que não se apurou nada. Então, o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica...
— Mas é a tranquilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?
— Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranquilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.
Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando. Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque — já disse que era distraída — nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse...
O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas.
A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente, sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado — se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.
Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume — isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?
O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos eram impotentes, esses poderes, quando alguém quer alguma coisa de sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e essa flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?
— Mas, e a moça?

— Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Contos de aprendiz". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Biografia, entrevistas e poemas do poeta Drummond:

A salvação da alma - Carlos Drummond de Andrade

Crianças brincando, de Candido Portinari


A salvação da alma

Briga de irmãos... Nós éramos cinco e brigávamos muito, recordou Augusto, olhos perdidos num ponto X, quase sorrindo. Isto não quer dizer que nos detestássemos. Pelo contrário. A gente gostava bastante uns dos outros e não podia viver na separação. Se um de nós ia para o colégio (era longe o colégio, a viagem se fazia a cavalo, dez léguas na estrada lamacenta, que o governo não conservava), os outros ficavam tristes uma semana. Depois esqueciam, mas a saudade do mano muitas vezes estragava o nosso banho no poço, irritava ainda mais o malogro da caça de passarinho: “Se Miguel estivesse aqui, garanto que você não deixava o tiziu fugir, gritava Édison. Você assustou ele falando alto... Miguel te quebrava a cara”. Miguel era o mais velho, e fora fazer o seu ginásio. Não se sabe bem por que sua presença teria impedido a fuga do pássaro, nem ainda por que o tapa no rosto de Tito, com o tiziu já longínquo, teria remediado o acontecimento. Mas o fato é que a figura de Miguel, evocada naquele instante, embalava nosso desapontamento e de certo modo participava dele, ajudando-nos a voltar para casa de mãos vazias e a enfrentar o risinho malévolo dos Guimarães: “O que é que vocês pegaram hoje?”. “Nada.” Miguel era deste tamanho, impunha-se. Além disto, sabia palavras difíceis, inclusive xingamentos, que nos deixavam de boca aberta, ao explodirem na discussão, e que decorávamos para aplicar na primeira oportunidade, em nossas brigas particulares com os meninos da rua. Realmente, Miguel fazia muita falta, embora cada um de nós trouxesse na pele a marca de sua autoridade. E pensávamos com ânsia no seu regresso, um pouco para gozar de sua companhia, outro pouco para aprender nomes feios, e bastante para descontar os socos que ele nos dera, o miserável.
Vocês, criados em cidade grande, não se espantem com esse jeito de nossa infância do interior. Ah, no interior se briga muito. Até mesmo no meu Estado, símbolo de ordem e moderação, terra de bois pacíficos e de políticos suaves e bem-comportados... Há uma força acumulada querendo expandir-se, uma energia que sobrou do tempo da luta com os emboabas, não sei... Olhem: na minha terra damos grande apreço à cultura intelectual. Mas confiamos pouco em seus efeitos. O delegado de polícia, um bacharel gordo e de bigodes fornidos, lia Spinoza, tomava a boa pinga de Januária e não gostava de amolações; se as amolações apareciam, chamava o comandante do destacamento e mandava rachar a lenha. Com o pau cantando, ele voltava ao seu Spinoza. De resto, nas relações civis, em meio semirrural, o tapa, o murro, o pescoção e o cacete são recursos limpos de... polêmica. Só o punhal e a garrucha são proibidos; mas, em casos extremos, é lícito empregá-los. O povo não gosta de assassinos, embora inveje os valentes. Ai de quem apanha sem reagir, e isto nós sabíamos de sobra, porque papai o pregava ao almoço e ao jantar, ele que tinha uma vida agitada, no transporte de tropas para o Espírito Santo, negócio perigoso e de lucro incerto, por causa dos rios sem ponte, dos ladrões de estrada, dos camaradas bêbedos, das febres, do crédito a doze meses, dos compradores que fincavam pé no mundo e nunca mais davam as caras... O velho nos contava mais de uma história de noite dormida ao relento, em que ele e seu pessoal acordavam com os animais soltos no campo, aos relinchos, o fogo apagado, e vultos escuros remexendo os alforjes num canto... Pois em nenhuma dessas ocasiões precisou liquidar ninguém, nem permitiu que o fizessem. Tudo acabava com os ladrões amarrados e conduzidos à vila mais próxima, às vezes com algumas costelas quebradas, mas que diabo! o lombo carece sofrer um bocadinho. Por isso mesmo, um dia ou outro nós nos surrávamos a frio, sem qualquer motivo, porque o lombo carece sofrer, e há um certo prazer em curar ferida.
Assim crescíamos nós cinco, e a vida não era má. Um apenas participava pouco das aventuras arriscadas, e era a meiga Ester, que mesmo assim figurava amiúde nas brigas, ora como causadora, ora como anjo da paz. Na paz, Ester era nossa cliente; vendíamos-lhe estampas de decalcomania, pastilhas de hortelã e chocolate, caixas vazias de sabonete. Tinha um fraco pelas caixinhas, que eram utilizadas em laboriosas arrumações de pentes, dedais, laços de fita, caramelos, conchas, roupas de boneca, bolas de gude, lápis de cor e outras maravilhas. Explorávamos sordidamente sua boa-fé e, mais do que isso, sua facilidade em arranjar dinheiro com papai. Duzentos réis por uma caixinha de sabonete inglês era preço mais do que razoável, mas eu pedia quinhentos; e Ester, ignorando o valor das coisas, ou dando-lhes um valor especial, que nos escapava, estendia os quinhentos réis. Às vezes eu praticava uma torpe manobra: sob um pretexto qualquer, confiscava o objeto vendido; eram lágrimas e queixas, e afinal entrávamos em acordo; eu restituiria o objeto, mediante um suplemento de trezentos réis... Se Tito estivesse ali, a injusta combinação malograria. Porque Tito era contra a injustiça. Discutiria comigo, o sangue me subiria à cabeça, e eu acabaria perdendo... Eu perdia sempre.
Não tenho vergonha de confessar que perdia sempre, porque Tito era mais velho do que eu um ano, e tinha muito mais peito. Minha criação com leite condensado, meus resfriados contínuos, minha inapetência, tudo isso me condenava a um papel inferior nas lutas da família; mas tudo isso me fornecia também raiva suficiente para morder, unhar, cuspir, gritar, sempre que vergava a força do braço... Eu vivia em guerra com todos, precisamente porque era o mais fraco, e não raro essa fraqueza triunfava por um expediente de audácia extrema, ou apenas porque o mais forte, cônscio de seu poder, abandonara o campo ao desesperado. Se eu percebia que era por esta última razão, ficava profundamente humilhado; mas a cegueira da vitória não me permitia verificá-lo.
De todos, Tito era quem mais me batia; desvantagem de ser caçula... Éramos os mais próximos pela idade, e os outros dois, Miguel e Édison, sentiam vergonha de “sujar as mãos em mim”. Tito dizia sentir também essa vergonha, mas era mentira dele. Ao menor pretexto, estávamos no chão, embolados. Direi em seu louvor que nunca foi desleal. Combatia com aviso prévio, fazendo a necessária provocação e dando-me tempo suficiente para correr; mas eu não corria, e ele caía-me em cima. Por minha vez, eu gostava de provocá-lo. Tinha esperança de que, um dia, chegaria a vencê-lo. Estudava seu estilo de luta, comparava-o com outros estilos, treinava sozinho no quarto, diante do espelho, pedia a Miguel e a Édison que me ensinassem a maneira de desvencilhar-me do adversário deitado sobre mim no chão. Inútil. Ele desmoralizava todas as táticas. Era mais duro, mais ágil, mais controlado.
Eu tinha nove anos e estava farto de apanhar. Nenhuma perspectiva de mudança, entretanto. Tito me defendia contra os assaltos dos meninos no grupo escolar, mas às vezes, depois desses choques, ao chegar em casa voltava-se contra mim, acusando-me de haver provocado barulho sem ter força para sustentá-lo. O orgulho dos Novais repontava nessa recriminação, porque um Novais não podia apanhar, e se não fosse ele, Tito, eu, Augusto Novais Júnior, apanharia em público, para gozo dos Teixeira, dos Andrada, dos Guimarães e de outros clãs rivais. Insubmisso, mas desesperançado, ia-me deixando crescer. Quando tivesse vinte anos, nossos tórax seriam iguais, e eu derrubaria Tito, mas era longe, vinte anos. Criança tem pressa de viver, e não lhe prometam uma compensação no futuro, a necessidade é urgente, o bálsamo que venha já, amanhã será tarde demais...
Eu estava nessa melancolia quando Ester veio dizer que tinham chegado uns padres e que iam começar as “missões”. A família sentara-se nos bancos da sala de jantar, à luz do lampião. Papai lia jornal, mamãe cerzia meias.
— Chegaram em boa hora, só assim eu consigo que esses hereges se confessem, comentou mamãe, placidamente.
— Hmmm, resmungou papai, e continuou a ler as notícias do mundo.
A ideia de missões não era particularmente festiva, mas sempre importava em reuniões no adro da igreja, leilão em benefício do altar novo, muito foguete, liberdade de chegar tarde em casa, e outros prazeres. Era bom. Nenhum de nós se manifestou contra a ideia de confissão. “Herege”, na linguagem local, significava cristão displicente, de pouca reza e nenhuma prática, fugindo aos deveres do culto e limitando-se a vagas promessas mentais de oferecer um tostão às almas, diante de algum aperto. Nós quatro éramos hereges declarados, e somente Ester mantinha o equilíbrio entre sentimento e ação, amando Jesus e procurando segui-lo. Os outros iam à missa por obrigação penosa, se a manhã era clara e havia jogo de bola no campo da Fábrica. Rezávamos sem fervor e bocejávamos diante dos apelos dominicais do padre. Com grande mágoa de mamãe, que considerava sagrada a pessoa do padre, e de ouro as palavras de sua boca.
— Esses meninos não sabem uma palavra de catecismo. Louvado seja Deus! Quando crescerem, não sei o que será deles. Quem não está bem com Deus tem mau fim.
Papai resmungava, concordando. Mas nosso progresso em doutrina cristã era mínimo.
Novas notícias chegaram sobre os missionários. Eram estrangeiros — de que país mesmo, ninguém sabia, tão atrapalhado o português que falavam —, muito vermelhos, e “estavam dispostos a fazer uma boa colheita de almas para Deus”, no dizer da piedosa d. Antonina. E pregavam, pregavam. Todos os dias, de hora em hora, a partir das duas da tarde, um deles subia ao púlpito e narrava os horrores do inferno, os jardins do paraíso, a miséria da alma em pecado mortal, a traição de Judas, a aflição dos ricos no juízo final, a doçura de sofrer e ser humilhado, o perigo de casar somente no civil, a necessidade de contribuir para as obras pias, a loucura de lidar com maçons e espíritas... Nós escutávamos, pensando em outra coisa, com exceção de Tito, absorto, de olhos baixos.
Enquanto um pregava, os outros padres ouviam em confissão. Veio primeiro a gente dos distritos, que morava longe e carecia ser despachada depressa. Depois as pessoas gradas do lugar, autoridades, comerciantes, suas famílias. Em seguida os operários. E só no fim as crianças, que, já trabalhadas, ardiam no desejo de ajoelhar-se e contar suas faltas, tão contagioso é o exemplo das pessoas grandes, e porque, afinal, seria uma vergonha não ter pecados quando toda gente os tinha e vinha confiá-los ao padre vermelho.
Entramos os cinco, em fila, na sacristia escura. Mentiria se dissesse que não estávamos compenetrados — o tom era de respeito —, mas somente Ester se mostrava perfeitamente natural e apta para o misterioso colóquio com a divindade. Por isso mesmo, fizéramos questão que ela fosse conosco, deixando de lado o grupo das meninas, para que de certo modo suprisse nossa insuficiência e desse ao céu garantia satisfatória de nossas almas tão sujas.
Um a um, murmuramos nossos erros e recebemos nossas penitências. Os erros dos quatro homenzinhos eram comuns, e o preço do resgate não podia variar. Cinco padre-nossos e cinco ave-marias para cada um; e fé, perseverança e humildade para evitar nova queda nos pecados de ira, gula, cobiça e luxúria, em que nos refocilávamos. Ester certamente apresentou carga mais leve de erros, pois só teve três padre-nossos e três ave-marias, e não lhe foi feita a recomendação subsidiária.
Voltávamos para casa, quando Tito me puxou pelo braço, chamando-me a um canto. A tarde caía.
— Vamos dar uma volta?
— Pra quê?
— À toa. Amanhã não tem aula. A gente pode andar um mucadinho.
Sem motivo para recusar, concordei. Fomos andando. De uma só rua era feita nossa cidade, mas que variada! Essa rua tomava todas as direções, partia-se, recompunha-se; um pedaço subia o morro, outro margeava o córrego. E havia trechos de estrada sem casas nem chafariz, havia hortas, ranchos, palmeiras fora da linha, elas que são o próprio alinhamento, mil coisas que podem interessar uma criança disposta a viver. Mas a confissão infiltrara em nós seu óleo espesso e triste, e um desejo de nos pacificarmos, de atingirmos a bondade e a compreensão, nos tornava indiferentes à matéria cotidiana.
Foi Tito que rompeu o silêncio.
— Escuta uma coisa... Estou com vontade de mudar de vida.
— Eu também, secundei num abandono confiante.
— Acabar com certas coisas, sabe? Mudar mesmo de vida. Olha: de hoje em diante não brigo mais com você.
Apesar de contrito, mostrei-me incrédulo.
— Ora. Você diz isso à toa. Amanhã você implica outra vez comigo e me bate.
— Não bato mais não, pode acreditar. Juro por Deus.
— Você sabe que a gente não deve jurar, como é isso?
— Quando jura por bem, é diferente. Estou jurando por bem. Você não acredita?
Seria feio não acreditar. Mas que garantia me dava ele de sua firmeza em cumprir o juramento? Calei-me.
— Bem, se você não acredita, paciência. Não fico zangado por isso. Mas você vai ver. De hoje em diante a gente não briga mais. Está feito? Toque.
Toquei. Paz em nossos corações, paz na montanha onde a cidade era um sulco insignificante, e as cabras e as galinhas já dormiam. Ao aperto de mão, uma confiança absoluta nos propósitos pacifistas de Tito me invadiu, e vi à minha frente um futuro de honra e lealdade. Mas Tito queria ir mais longe, marcar com um acontecimento aquela mudança da alma.
— Escuta uma coisa... (A voz engasgava-se, de emoção e falta de costume.) Vou provar a você que sou seu amigo e não quero mais abusar de minha força. Diz uma coisa que eu possa fazer, mas uma coisa difícil, ruim mesmo, pra me humilhar diante de você... O que você quiser eu faço. Juro que faço.
— Tito, não estou te conhecendo hoje. Por que você diz isso?
— Já disse a você que quero mudar de vida... viver bem com os irmãos, ser um sujeito decente. Diz depressa uma coisa, quero mostrar que sou sincero, não estou enganando não. Você quer me dar um tapa na cara?
— Não.
— Quer me sujar a cara de barro?
— Não.
— Quer me entornar uma bacia de água suja na cabeça?
— Não.
— Quer rasgar minha coleção de Júlio Verne?
— Não.
— Então você não quer se vingar de mim de jeito nenhum?
— Não, Tito, de jeito nenhum. Eu acredito em você e basta. É melhor assim.
Mas Tito não se conformava. Como iniciar um novo rumo de vida sem expiar os erros antigos? Chegou a impacientar-se, embora de leve.
— Também você não ajuda, bolas!
— Ajudo sim, ora essa. Mas eu também não quero humilhar você.
Tito levantou a cabeça, encarou-me:
— Mas eu quero ser humilhado, tá ouvindo?
Trinta anos se passaram, e seu olhar e sua voz estão ainda intatos em mim, revelando a convicção profunda e ardente, de que se fazem os santos, os mártires políticos...
Ou seria ainda orgulho, orgulho de pisar o orgulho, que levara Tito a essa espantosa declaração?
Compreendi subitamente que era preciso atendê-lo, contribuindo para a purificação de sua alma. E embora eu, também ungido de suave arrependimento, não quisesse praticar nenhum ato mau, decidi-me a humilhar meu irmão. Chegávamos à parte inclinada da rua, de subida difícil, agravada pelo mau calçamento.
— Bem, se você quer mesmo isso... Eu não pedi nada, você sabe... Então vamos fazer uma coisa. Eu subo nas suas costas e você me leva até em casa, como um animal. Tá certo?
Ele não podia dizer que não. A ideia de ser montado — e por mim — não era das mais aprazíveis. Pensara em tapa no rosto, por ser a imagem costumeira entre nós, embora a mais cruel; mas servir de burro a alguém, e ir de passo pela rua onde havia outros meninos, gente que vinha da igreja... Era duro. Aceitou.
Exigi mais — e nisto acho que não foi simplesmente para atendê-lo, e sim por um começo de pecaminosa deleitação — que de cinquenta em cinquenta passos ele se detivesse, gritando: “Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim!”. Depois do quê, a marcha recomeçaria, até chegarmos em casa.
Tito pôs-se de quatro, eu montei-o, segurando nos ombros, e lá fomos rua acima, ele salvando a sua alma, e eu — sem querer — tirando a minha desforra. Ai, anos de humilhação e derrota, de gengivas sangrando e de braços roxos na poeira! Já não me pesava no peito aquele joelho de chumbo, epílogo de nossas batalhas; nem escutava aquela boca implacável, exigindo a confissão da derrota: “Diz que apanhou! Diz!”. “Apanhei...” Eu montava em meu irmão como num burro manso, e era ele que sujava as mãos na terra de esterco, que mãos? as patas que me levavam, na minha doce, gloriosa e pacífica reabilitação; e triunfando sem malícia e sem ódio, eu cumpria um desígnio de Deus. Passando-lhe a mão no pescoço, eu o acariciava, ao meu bom, meu querido Tito...
Mas, pouco a pouco, a ideia da facilidade desse triunfo começou a aborrecer-me. Antes de tudo, a posição do cavaleiro não era cômoda, como havia suposto. Tito fazia o possível para conduzir-me bem, mas os pés suplementares careciam de prática. E a cada momento, seus longos cabelos lhe caíam na testa, obrigando-o a afastá-los. Ele andava, andava, já estava suando...
— Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim!
Gostei de ouvir estas palavras, foi talvez a melhor sensação de tudo; mas a marcha, em si, não tinha as delícias imaginadas. E se eu estimulasse o animal? Talvez se ele apressasse a andadura — mesmo que para isso fosse preciso levantar-se, e então eu me agarraria mais ao pescoço, deitando-me nas suas costas e enlaçando-lhe os rins com as pernas — sim, talvez assim fosse melhor... mas eu não tinha esporas nem freios. Para estimular Tito, recorri a um golpe duplo de calcanhares; não calculei bem a intensidade do movimento, e fui atingir meu irmão na virilha.
Ele soltou um berro fulgurante, que exprimia a dor acima de todas as boas intenções e de todas as virtudes do coração. Senti que a noite, com suas escassas estrelas, se virava sobre nós. Rolou no chão e eu rolei com ele. Formamos um bolo confuso e inquieto, pernas, braços, cabelos, areia, roupas e pedras. Sempre tão seguro no ataque, Tito parecia cego de dor, pois nem me atingia em cheio nem me dominava, e eu fugia dele como um peixe, sentindo a violência de sua cólera e a vergonha do meu abuso. Mas no escuro, na confusão e na raiva, seus dedos afinal prenderam minha carne e me castigaram, esquecidos de toda bem-aventurança.
— Toma, desgraçado! Toma, cachorro! Toma! Era assim que você queria ajudar a salvar minha alma? Toma, bandido!
Não pudemos comungar no dia seguinte.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Contos de aprendiz". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


Biografia, entrevistas e poemas do poeta Drummond:

O murinho - Carlos Drummond de Andrade

Edvard Munch - The girls on the bridge
O murinho

A princípio, o território neutro do edifício Jandaia era ocupado por mamães e babás, capitaneando inocentes que iam tomar a fresca da tarde; à noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados civis e militares.
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples área pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era frequente. (Na parte da noite.)
Na área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta concebida em escala de anão.
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial, que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper. Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez, fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se renovava.
Os moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de suas casas?
Como não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação, raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” — comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho — nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais noturnos.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Liquidação - Carlos Drummond de Andrade

© Alenka Sottler
Liquidação

A X lhe disseram que devia guardar seu dinheirinho no banco. É simples, cômodo, garantido. Ele não tinha propriamente o que guardar, mas ordenado não se gasta de pancada; depositá-lo, assinar alguns pequenos cheques, deixar um saldo bruxuleante para o mês seguinte: isso lhe dava certo prazer bancário, que X ia cultivando. Resultado: no fim de algum tempo, tal o poder germinativo do capital, tinha o que se chama “dinheiro no banco”. Não muito, o bastante para viver quinze dias de barriga para o ar, contando nuvens.
Indo para o trabalho, contemplava o banco, sem volúpia de avarento, mas satisfeito: ali estava seu cobrinho, para qualquer emergência: viagem de pobre, operação, uma dessas máquinas americanas que a mulher sempre julga imprescindível adquirir e que vão secando o rio Paraíba.
Surpreso, certa manhã viu uma fila agitada em frente ao banco que cerrara as portas. No dia seguinte, uma sigla qualquer do Banco do Brasil, pelos jornais, anunciava a liquidação do estabelecimento e esclarecia que, pelo decreto tal, de tantos de tantos, os depositantes de menos de cem mil cruzeiros receberiam imediatamente seu dinheiro. Magnânimo decreto! X viu que a casa se reabrira, entrou.
— Dentro de sete dias o senhor será atendido.
Bem, não há prazo de funcionamento para os advérbios. Imediatamente, em linguagem bancária oficial, quer dizer: daqui a uma semana. Finda esta, imediatamente passou a significar quinze dias. E converteu-se em um mês, dois, regressou a quinze dias, oscilou algum tempo na zona indeterminada de “a qualquer momento” e estabilizou-se na acepção nebulosa de “não podemos informar”. O banquinho assumira feição kafkiana. Abria-se todos os dias, para nada. Os ex-empregados (dispensados e readmitidos a título precário) ocupavam suas carteiras, ficavam esperando. O quê? Não havia negócios, o cofre estava lacrado, os clientes queriam apenas receber, mas isso só se faria imediatamente, isto é, quando Deus fosse servido.
Como é difícil liquidar um banco! Quanto mais um país, meditava ele, e isso lhe dava conforto cívico, em outra sorte de preocupações.
Veio a “emergência” e X, com dinheiro no banco, teve de pedi-lo emprestado a outro. Um dia, a sigla chamou-o pelo jornal. Foi, assinou um documento em que declarava tudo aquilo que o banco estava farto de saber: nome, endereço, saldo da conta-corrente etc., e outras coisas que não lhe haviam perguntado ao abrir-lhe a conta: se era casado, em que regime etc.
— Agora vou receber?
— Daqui a dez dias.
O advérbio se esticou de novo, de novo chamaram X, deram-lhe uma ficha que o habilitava a reaparecer dentro de cinco dias e a assinar sete papéis com duas testemunhas e firmas reconhecidas. Carimbaram tudo e mandaram X ao Banco do Brasil.
No BB, deram-lhe um papelinho e um caderno de cheques.
— Que é isso?
— É a sua conta-corrente no BB.
— Mas eu não tenho conta aqui.
— O senhor assinou um instrumento de cessão de direitos em quatro vias, e não se lembra disso?
Como toda gente, em todo o mundo, X assinara sem ler, e agora estava preso ao BB, engrenagem que sempre lhe inspirara majestoso pavor. Perguntou timidamente se podia sacar quanto quisesse. Sorrindo, disseram-lhe que sim. Pela dúvida, X encheu logo um cheque na importância total do saldo, rasgou os demais, recebeu o cobre e saiu correndo, com duas noções adquiridas: lugar de dinheiro é debaixo do colchão, e decreto de governo é brincadeira com dicionário.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Feriados - Carlos Drummond de Andrade

Hibiscos branco e vermelho, Damião Martins
Feriados

Os feriados daquele tempo eram poucos e bons. 1º de janeiro, para se festejar a fraternidade universal, que não se sabia bem o que fosse, mas, no alvoroço de começar o ano, significava boa disposição geral; 21 de abril, que nos ensinava a morrer pela liberdade; 3 de maio, quando éramos descobertos, apesar das dúvidas que pairavam sobre a data certa, e que ninguém pensava em resolver; 13 de maio, e era uma vez o cativeiro; 14 de julho, viva a Queda da Bastilha!; íamos sossegados até 7 de setembro, quando nos transportávamos ao Ipiranga e, com Pedro i e Pedro Américo, sacudíamos o jugo lusitano; uma pausa, e verificávamos que, existindo como país, não fôramos ainda descobertos como continente, e a 12 de outubro dávamos marcha a ré até Colombo; detínhamo-nos a reverenciar os mortos em 2 de novembro, logo depois era forçoso proclamar a República, e, ainda bem não era proclamada, escolher-lhe uma bandeira, tudo isso num mês excepcionalmente rico: três feriados! E daí, mais nada, acabou-se o que era doce. O resto eram festas de igreja, em que o Estado não se metia, ou datas pessoais, que encorajavam o menino a falhar à escola, o funcionário à repartição, o trabalhador ao trabalho — sob as penas da lei, está visto.
Com serem poucos, os feriados se envolviam numa aura de prestígio e encantamento, que os fazia longamente esperados e agudamente saboreados em sua polpa de descanso ou excursão. E como também as distrações fossem raras, ninguém tinha o problema de hesitar entre elas, ou se queixava porque o tempo fosse insuficiente para degustá-las todas. Ir ao cinema constituía uma aventura pouco menos que maravilhosa, para não dizer logo impossível; porque o cinema não funcionava durante o dia, salvo em grandes e pecaminosas cidades, como o Rio de Janeiro; nas pequenas cidades, tínhamos de esperar a noite de domingo, quando, depois de molhada convenientemente a tela, e tocada várias vezes a campainha, a imagem trêmula começava a projetar-se de cabeça para baixo, e era um custo reconduzi-la à posição exata. Não havia mesmo distração nenhuma durante o dia feriado, salvo o próprio feriado e nossa capacidade de fruí-lo. Alguma bola jogada a esmo, na cabeça ou na vidraça do próximo, até que se organizassem os primeiros times de futebol vadio, e o mais era o ar livre, com todas as suas sugestões. A tarde caía antes que o primeiro peixe fosse pescado; contudo, nossa pescaria fora tão cheia de peixes, anzóis, iscas, discussões, caminhadas, cismas, que voltávamos para casa com a fartura e o cansaço de expedicionários na África.
Depois, as coisas mudaram. Há duas explicações para isso. Primeira, que nos tornamos homens, isto é, bichos de menor sensibilidade. Segunda, o governo, que mexeu demais na pauta dos feriados, tirando-lhes o caráter de balizas imutáveis e amenas na estrada do ano. O Vinte e Um de Abril foi proscrito, porque já não fazia sentido morrer pela liberdade, era preferível viver sem ela; em seu lugar, houve o ensaio do Dezenove de Abril, que não entoou; o Quinze de Novembro, se não feneceu de todo, chegava a passar despercebido, e as trombetas, para substituí-lo, anunciaram o Dez de Novembro, de enfadonha biografia; também se experimentou o Três de Outubro, como edição nacional do Catorze de Julho, enquanto esse ia dormir no cemitério da história. Nada disso aprovou. Surgiram ainda os “dias”, consagrados a classes, e que eram feriados particulares, ou nem isso, de tão anódinos; multiplicaram-se os feriados enrustidos, ou dispensas de ponto e de aula, e perdemos, afinal, o espírito dos feriados.
Por ser precisamente um dos feriados extintos, o Dezenove de Novembro faz lembrar hoje, aos marmanjos do começo do século, não só a bandeira como a própria infância, tão perdida quanto esse feriado. O “salve, lindo pendão da esperança” (que era pendão?) canta ainda no íntimo de pessoas que desaprenderam cantar ou jamais o souberam. São feios, são bonitos os hinos aprendidos na escola? Eles aderem à nossa substância, eis tudo. E cantam dentro de nós, absorvidos pela alma dos feriados, em que se misturavam heroísmo e far niente, lutas, flâmulas, espadas, princípios, sol, passarinhos, banhos de riacho, frutas, caramelos… Alma dos feriados antigos, que eram fixos, poucos e belíssimos.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

O principezinho - Carlos Drummond de Andrade

Gustave Caillebotte
O principezinho

Estava o principezinho sentado, com as mãos e a cabeça sobre os joelhos, e dormia. A seu lado, brinquedos esperavam: a boneca de plumas, o lhama, a bolsa contendo pequeninas coisas. O sono era tão mineral que o principezinho se deixou carregar por dois estranhos, e se naquela postura estava, naquela postura ficou. Desceram-no e depositaram-no, com seus objetos, ao pé da escarpa.
Pessoas experimentadas inferiram que ele se perdera na montanha, e adormecera com fome. Outras vislumbraram no rosto semidescoberto uma expressão de medo — como a de menino que presenciasse um bombardeio aéreo —, e sua atitude seria a de quem se protege contra perigo iminente. Mas, observando bem, sentia-se a paz daquele sono, que nem a picareta dos homens batendo na rocha viera perturbar, aquele sono que envolvia todo o menino numa peculiar camada de silêncio, e o tornava indiferente ao desconforto da posição e ao frio da altura.
Sua condição de príncipe ressaltava das vestes e adornos, que eram nobres, e se confirmava no lavor de ouro dos brinquedos. Cingia-o um colar de pérolas; a boneca tinha o ombro traspassado por um grande alfinete de prata.
Alçaram de novo o principezinho e levaram-no para a cidade grande, onde é hoje objeto de pasmo geral. Continua dormindo. Jornais cinematográficos espalharam pelo mundo sua imagem. Agora, chega uma revista com a fotografia do principezinho, sempre dormindo, sempre enrodilhado, e tão distante de nossa curiosidade como dos asteroides minúsculos que o seu colega, imaginado por Saint-Exupéry, gostava de percorrer.
Todo o barulho da terra não faria essa criança acordar. Dorme há quinhentos anos, desde o dia em que os pais a colocaram a uma altura de cinco mil metros, protegendo-lhe o sono com amuletos. É um príncipe da nação dos Incas, e maravilhoso acaso foi esse, de gente rústica, há trinta anos à procura de um tesouro, deparar com o seu pequeno túmulo congelado.
O gelo conservara pois, por sua simples virtude, no alto de um pico chileno, uma criança nascida quando não existiam nem Pizarro, nem Chile, nem Brasil, nem América. Foi-se o glorioso Império dos Incas, com sua pompa, e nos deixou apenas formas artísticas, modeladas por arquitetos, escultores, joalheiros e tecelões, ou simples palavras, incorporadas às línguas em uso; o ser humano contemporâneo dessas formas e símbolos, este se despedira para sempre, e nos tristes quíchuas de hoje não erra mais que o seu reflexo longínquo. Mas o menininho, acocorado e dormindo o mesmo sono iniciado há cinco séculos, aí está agora, a cativar-nos com o seu mistério.
Envelhecemos depressa. O tempo de uma criança dormir, e Maias e Incas desaparecem, e o Império Espanhol na América se inaugura e se faz em escombros, e o português também: ela ainda não acordou, e já nascem e morrem Camões, Cervantes, Shakespeare, Racine, São Vicente de Paulo, Newton; e vêm os direitos do homem, e surgem teorias novas, e novas guerras. Em seu sono infinito, o menino passou pelos homens e suas obras, por instituições, ideias, sonhos, vidas e mortes, sempre dormindo em postura humilde, cercado de ídolos, cachos de cabelos, dentes de leite. Nada mudou para ele. O mundo é talvez um sonhar acordado. Dorme, menininho, dorme.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

A fabulosa renda - Carlos Drummond de Andrade

© Jacek Yerka
A fabulosa renda

Sr. Prefeito:
Como dizia a v. ex.a, paguei a multa; e paguei-a com tanto maior satisfação quanto a prefeitura, que a impôs, propôs simultaneamente um negócio: se eu pagasse, não ao fim de oito anos de ação judicial, mas em oito dias, levava o desconto de trinta por cento. Ora, quem, nos dias que correm, despreza um abatimento desse vulto? Percebi que era do meu interesse pagar, e entendi mais: que se a prefeitura assim me seduzia para não retardar a quitação, era porque, mediante um sistema inteligente de sanções a quem tenha a audácia de limpar o passeio de sua casa, procurava reanimar as combalidas finanças municipais.
Ao sair de casa, munido dos setenta cruzeiros, notei que os detritos se acumulavam à porta do meu tugúrio e das habitações vizinhas. Cônscio de que o governo nada mais é do que delegação do povo, e sendo povo eu mesmo, deliberei exercer pessoalmente as funções delegadas; e, pensando sempre na situação da prefeitura, multei em mil cruzeiros, por quadra, o chefe do serviço, e em quinhentos cada um de seus fiscais, porque não mandavam remover os detritos. Mentalmente, ouvi a justificação de que não havia vassouras de piaçava no almoxarifado, porém mantive a multa, estendendo-a à Diretoria de Compras, que deixara esgotar-se o material sem renová-lo. Das entradas de serviço dos edifícios exalava-se um odor característico, e os porteiros me informaram que o caminhão de lixo andava em férias. Multei cada porteiro em oitocentos cruzeiros, porque não enterrava o lixo, uma vez que a municipalidade não estava em condições de retirá-lo, e os servidores desta, porque não estavam em condições nem tomavam providências para estar. As calçadas apresentavam buracos de maior ou menor diâmetro e profundidade, cavados há meses para mudança da rede de água e esgoto ou pesquisa de petróleo; como oferecessem perigo à vida dos populares, multei os dirigentes do Serviço Municipal de Buracos, em quantias proporcionais ao volume das crateras. E, muito satisfeito com os primeiros resultados, cheguei à 12a cf, junto ao teatro Follies, para pagar minha multinha.
Não a paguei logo, pois, ao exibir meu papel, me deram outro, mandando-me à rua Siqueira Campos. Impunha-se multar em cinco mil cruzeiros a Comissão de Planejamento e Racionalização, que, para cobrança de uma só multa, cria duas agências; também multei o Serviço de Higiene do Trabalho, porque deixava a 12a cf, como tantas outras repartições cariocas, funcionar em sede imprópria, com paredes descascadas e sujas, má iluminação e nenhum conforto; os funcionários, por sua vez, tiveram multas menores, porque se deixavam prejudicar. Tentei atravessar a rua e tomar um lotação, mas a cortina espessa de fumo, escapando-se dos ônibus, me vedou a vista e a passagem. Tive de multar em três mil cruzeiros cada empresa de transportes, por veículo enfumaçado, o Departamento de Concessões, porque os deixava trafegar nesse estado, e a Secretaria de Saúde, que vê a população intoxicar-se.
Em Siqueira Campos, onde afinal paguei minha própria multa, consultei o relógio: gastara uma hora, pelo que multei modestamente em cinquenta e cinco cruzeiros e cinquenta e cinco centavos o secretário das Finanças, valor esse de uma hora de meu trabalho no escritório a que sirvo. Saí de alma leve, porque cumprira o meu dever. À porta, mulheres passavam com latas d’água à cabeça. Senti a conveniência de ato mais severo, e multei o diretor do Departamento de Águas, o secretário de Obras, v. ex.a (desculpe) e a Câmara dos Vereadores, num total de dez bilhões de cruzeiros, por falta à obrigação milenar de servir água ao povo mediante pagamento da respectiva pena, porque a pouca água distribuída é rica em teor microbiano, e ainda porque não foi suspensa a cobrança da taxa, apesar de suspenso o abastecimento. Atravessei o túnel e dei com a favela do Pasmado: multa de cinquenta milhões ao Departamento de Urbanismo, por permitir aquela miséria exposta, e multa simbólica de cinquenta centavos a cada miserável, que assim se deixa expor.
Já na cidade, apreciei a onda de pó que, desprendendo-se do aterro da Guanabara, ia pintar de vermelho escritórios, lojas e repartições, e ainda o corpo e a alma de seus ocupantes. Lembrei-me do art. 505 (hora de pouco trânsito, sem levantar poeira) e saquei mais uns milhões dos engenheiros, fiscais e executantes da obra. Finalmente, multei em duzentos bilhões de cruzeiros, sem desconto, a população em peso do Distrito Federal, porque, vivendo em tais condições, e ainda achando graça na vida, é justo que pague um pouquinho. E cheguei feliz ao serviço, tendo obtido de momento, para a prefeitura, a fabulosa renda de trezentos e cinquenta bilhões, novecentos e noventa e quatro milhões, cinquenta e cinco cruzeiros e cinquenta e cinco centavos, que ora ponho à disposição de v. ex.a, para restauro dos cofres municipais, pagamento do abono ao funcionalismo e — se sobrar — alguns melhoramentos.
Atenciosamente.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

O pintinho - Carlos Drummond de Andrade

© Francis Kilian
O pintinho

Foi talvez de um filme de Walt Disney que nasceu a moda de enfeitar com pintinhos vivos as mesas de aniversário infantil. Era uma excelente ideia, no mundo ideal do desenho animado; conduzida para o mundo concreto dos apartamentos, também alcançou êxito absoluto. Muitos garotos e garotas jamais tinham visto um pinto de verdade, e queriam comê-lo, assim como estava, imaginando ser uma espécie de doce mecânico, mais saboroso. Houve que contê-los e ensinar-lhes noções urgentes de biologia. As senhoras e moças deliciaram-se com a surpresa e gula dos meninos, e foram unânimes em achar os pintos uns amorecos. Mas estes, encurralados num centro de mesa, entre flores que não lhes diziam nada ao paladar, e atarantados por aquele rumor festivo e suspeito, deviam sentir-se absolutamente desgraçados.
Como a celebração do aniversário terminasse, e ninguém sabia o que fazer com os pintos, pareceu à dona da casa que seria gentil e cômodo oferecer um a cada criança, transferindo assim às mães o problema do destino a dar-lhes. O único inconveniente da solução era que havia mais guris do que pintos, e não foi simples convencer aos não contemplados que aquilo era brincadeira para guris ainda bobinhos, e que mocinhas e rapazinhos de nível mental superior não se preocupam com essas frioleiras.
Os pintos, em consequência, espalharam-se pela cidade, cada qual com seu infortúnio e seu proprietário exultante. O interesse das primeiras horas continuava a revestir-se de feição ameaçadora para a integridade física dos recém-nascidos (se é que pinto produzido em incubadora realmente nasce). Um deles foi parar num apartamento refrigerado, e posto a um canto da copa, sobre uma caixinha de papelão forrada de flanela. Semeou-se em redor o farelinho malcheiroso que o gerente do armazém recomendara como alimento insubstituível para pintos tenros, e que (o pai leu na enciclopédia) devia ser, teoricamente, farinha de baleia. A ideia da baleia alimentando o pinto encheu o garotinho de assombro, e pela primeira vez o mundo lhe apareceu como um sistema.
O pinto sentia um frio horroroso, mas desprezava a flanela, e a todo instante se descobria, tentando fugir. Procurava algo que ele mesmo não sabia se era calor da galinha ou da criadeira. À falta de experiência, dirigiu seus passinhos na direção das saias que circulavam pela copa. As saias nada podiam fazer por ele, senão recolocá-lo em seu ninho, mas o pinto procurava sempre, e piava.
O garoto queria carregá-lo, inventava comidas que talvez interessassem àquele paladar em formação. Não, senhor — explicou-lhe a mãe:
— Não se pode pegar, não se pode brincar, não se pode dar nada, a não ser farelo e água.
— Nem carinho?
— Meu amor, carinho de gente é perigoso para bicho pequeno.
Mas o pinto, mesmo sem saber, estava querendo era um palmo sujo de terra, com insetos e plantas comestíveis, o raio de sol batendo na poça d’água caída do céu, e companhia à sua altura e feição, e, numa casa assim tão bonita e confortável, esses bens não existiam. E piava.
A situação começou a preocupar a dona da casa, que telefonou à amiga doadora do pinto: que fazer com ele?
— Querida, procure criá-lo com paciência, e no fim de três meses bote na panela, antes que vire galo. É o jeito.
Não virou galo, nem caiu na panela. No fim de três dias, piando sempre e sentindo frio, o pinto morreu. Foi sua primeira e única manifestação de vida, propriamente dita.
O menino queria guardá-lo consigo, supondo que, inanimado, o pinto se transformara em brinquedo, manuseável. Foi chamado para dentro, e quando voltou o corpinho havia desaparecido na lixeira.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Diário - Carlos Drummond de Andrade

Tarsila do Amaral - Rio de Janeiro
Diário

(Dedicado ao atual e aos futuros prefeitos do Distrito Federal)

1941, março, 22 — Mudamo-nos para o Posto 6. Casa grande, com vista para o mar e a montanha. Uma beleza. Os garotos se emporcalharam no quintal, mas um bom chuveiro lhes restituiu o aspecto primitivo. Todos adoraram este primeiro dia em Copacabana.
Abril, 1o — Acordei de madrugada, com um barulho fortíssimo. Era a água caindo na caixa do pavimento superior, como todas as noites, mas dessa vez parecia cachoeira. Para que tanta pressão? Não gosto de exageros.
Setembro, 7 — Aproveitando o feriado, meu primo da Tijuca veio com a família tomar banho de mar. Éramos quinze pessoas. Na volta, fizemos fila no banheiro, e minha patroa e eu, na extremidade, sobramos.
1942, janeiro, 10 — Estão construindo um edifício em frente. Acabou a vista da montanha.
Julho, 4 — Hóspedes em casa. Com água caindo dia sim dia não, sem força para subir, interditamos o banheiro de cima. Os meninos se esquecem, e tenho carregado baldes para remediar a situação. Que escada!
1943, dezembro, 25 — O diretor de Águas deu entrevista dizendo que água existe em abundância, mas a população é mais abundante ainda. “Todavia, dentro de seis meses a situação estará normalizada.” Feliz Natal!
1944, novembro, 15 — Faz um ano que tomei meu último banho de imersão, em homenagem à República. Os de chuveiro terminaram na Páscoa. Entramos no regime de cuia. Acabou a vista do mar: edifício aos fundos.
1945, fevereiro, 3 — O vizinho aconselhou-me a construir um depósito subterrâneo, para armazenar água. Arrasamos o quintal, e surgiu a soberba cisterna de dez mil litros, que custou cinco contos e levou sete dias a encher. Estamos felizes.
Outubro, 9 — Será o hidrômetro que não regula bem? Depois de cada vistoria, passa menos água. Retirei-o, melhorou um pouquinho.
18 — Multado por falta de hidrômetro. Ameaçaram-me de cortar a água.
1946, maio, 2 — Bobeei. Todo mundo na rua instalou bombas de sucção, sem me contar. Notei que não se carregavam mais baldes, enquanto todo o meu pessoal era mobilizado para pedir água às obras. À noite, ouvindo um ruído estranho em casa do vizinho, colei o ouvido ao muro, e percebi. Hoje amanheci na cidade para comprar uma eletrobomba: quatro contos e quinhentos. Instalação, um e quinhentos. Mas resolve!
Junho, 8 — Acidente na adutora. O diretor disse que em quarenta e oito horas o abastecimento estaria regularizado, passou-se uma semana, e não há esperança.
24 — Multado pela bomba. “O senhor não vê que está furtando água de seus semelhantes?”
1947, agosto, 6 — “O que lhe falta é um aparelho elevatório, com automático”, disse-me seu Narciso. “Boto-lhe um, e a água sobe como foguete.” Maravilha! Oito contos, mas é um conforto recuperar a banheira, usada como depósito de roupa suja.
1948, março, 15 — Inaugurada festivamente a nova adutora. A situação piorou. Assaltamos o registro da rua, fomos presos e autuados. Fiança. Processo.
Abril, 5 — A prefeitura iniciou o fornecimento de pipas a domicílio. É telefonar e esperar uma semana. Água de graça; vinte cruzeiros ao motorista. As mangueiras estão rotas, e o jato esguicha na sala. Foi-se o tapete de dez contos. Que pena, perder tanta água!
1949, janeiro, 2 — Seu Narciso orçou nova caixa-d’água, à flor da terra, para vinte mil litros. São doze contos e oitocentos. Acabo com o quintal, mas resolvo o problema da estocagem. Moramos numa caixa-d’água cercada de quartos.
1950, março, 30 — O prefeito adverte a população contra o desperdício d’água: “O carioca tem a doença da limpeza”.
1951, agosto, 1o — Fracassando a eletrobomba, instalei um superejetor, capaz de extrair água da rocha. Todos na rua fizeram o mesmo. Resultado: a água não apareceu. Custo, vinte contos. A pipa passou de cinquenta a cem cruzeiros, com preferência para o psd.
1953, novembro, 8 — Paguei com multa a conta de água da prefeitura.
1954, 5a-Feira Santa — Um advogado assassinou um public relations, no edifício ao lado. Um acusava o outro de subornar o porteiro para obter mais água.
1955, outubro, 8 — Votei em Ademar, que prometeu água em minha rua. Juscelino mora no Posto 5, e não se apiedará de nós. E agora?
1956, julho, 7 — Conselho de um engenheiro da prefeitura amigo de infância: “A solução, meu velho, é furar um poço no quintal. Não serve para beber, mas dá para a limpeza”. Abri (trinta mil cruzeiros): tenho água no subsolo! A vizinhança já fizera o mesmo. Quantos meses durará meu lençol subterrâneo?

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Cor-de-rosa - Carlos Drummond de Andrade

Casarios de Itanhaem,  Alfredo Volpi - déc. 1940
Cor-de-rosa

O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas. Esta providência dá margem a algumas divagações que aqui se transmitem ao leitor, nosso companheiro.
O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua existência.
De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão.
A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.
Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.
Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário, isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita nããão, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem derruba minha casinha!
De cor-de-rosa e de azul-claro ele pintou sua casa, de azul-claro e de rosa devíamos todos revestir uma fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la completamente de cores tão puras.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


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