Homenagem ao Sr. Bezerra - Rubem Braga

Veleiros, de Damião Martins
Homenagem ao Sr. Bezerra

O incorporador é um Sr. Bezerra. Não chega a ser um bonito nome, é verdade, mas para mim é simpático, pois conheci vários cidadãos agradáveis com esse nome, quase todos do Nordeste, especialmente do Rio Grande do Norte — os Bezerra Dantas, por exemplo. A ideia fundamental do Sr. Bezerra parece ter sido esta: tirar a minha vista do mar. Imagino que o Sr. Bezerra seja meu leitor e notou que muitas vezes começo minhas crônicas falando do mar que vejo de minha varanda; é verde aqui, azul ali, nordeste semeando espumas, o raivoso e frio sudoeste, e barcos passando, e o farol da ilha e não sei mais o que — e o Sr. Bezerra se encheu. Imaginou então construir um edifício bastante largo e alto para me tapar a paisagem e o assunto. Deve ter gasto um bom dinheiro para prestar esse grande serviço às letras nacionais, pois na esquina da praia havia uma sólida casa revestida de pedras e rodeada de um parque. Uma grande equipe de trabalhadores desmantelou a casa e cortou as árvores, inclusive um belo pé de magnólia e um casal de pinheiros que há muitos anos faziam parte de minha paisagem. Sim, era alguma coisa minha que eles estavam derrubando — mas o advogado me disse que a lei não reconhece esse direito de propriedade visual e sentimental.
Erguido um grande tapume — onde seu nome brilha em uma tabuleta na qualidade de incorporador —, o Sr. Bezerra mandou fazer um imenso buraco, cavando a terra e a areia, para as fundações. Depois não sei o que aconteceu, com certeza alguma dificuldade de financiamento; sei que os operários se foram, ficando apenas um melancólico vigia, cuja função é olhar com tristeza aquele buraco.
Toda manhã, quando vou à praia, vejo o nome do Sr. Bezerra na tabuleta — e fico a imaginar com certa delícia que deve ser um senhor de meia-idade, muito bem-falante e de sotaque potiguar, que prometeu entregar o edifício prontinho em tantos meses e agora coça a cabeça e dá desculpas, falando em Banco, na Caixa, no Instituto, que faltam certas formalidades, houve dificuldades imprevisíveis, de qualquer modo ele deseja evitar um reajustamento, aliás acredita que no mês próximo as obras poderão ser reiniciadas, o senhor compreende a culpa é dessa política estúpida do governo, etc., etc.
Dois outros edifícios iniciados muito antes já estão quase prontos, mas o prédio do Sr. Bezerra é apenas um sonho pairando sobre um buraco. À medida que as outras obras progridem, o Sr. Bezerra deve coçar a cabeça com mais raiva, o que estimo sinceramente. Há casos de obras que ficam paradas anos e anos, e esse pensamento me parece encantador. É verdade que no caso do Sr. Bezerra ainda não se pode falar propriamente em obras, mas em desobras, pois ele não fez nada, só desfez. Talvez o Sr. Bezerra passe à história como um emérito construtor de buracos, título a que vários estadistas nossos fazem jus.
Enfim, enquanto o Sr. Bezerra estiver mal, tudo irá bem. Ele me roubou as árvores, mas me deixou um pedaço de mar com brisa e ondas. Os cavalheiros que entraram com dinheiro adiantado para ter um apartamento devem estar com raiva do Sr. Bezerra; eu, entretanto, desejo de todo o coração ao Sr. Bezerra uma excelente saúde, muitas alegrias, bons vinhos e boas mulheres — e um encalacramento financeiro prolongado e sutil, que entretenha com fúteis esperanças, anos a fio, o coração dos ex-futuros condôminos.
Um encalacramento que se prolongue através dos tempos e se torne tão crônico e dramático que acabará comovendo a todos, e só terminará no dia em que o Sr. Bezerra for enterrado (homenagem especial) no buraco enorme que ele abriu ali na esquina.


Rio, maio, 1958.

— Rubem Braga, no livro “Ai de ti, Copacabana”. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Saiba mais sobre o autor:

Michel Deguy - poemas

Vincent van Gogh - green wheat fields - 1890
poemas de michel deguy (edição bilíngue)

[…]
“Um poeta nunca está totalmente ausente”, ouvi dizer. Eis a questão. E substituo poeta por poema para propor a questão: um poema pode em algum momento estar totalmente ausente?
O que faz a chuva, por exemplo? E não falo do “fenômeno meteorológico”, mas da chuva que molha, aquela que recebe o astrofísico sem capa de chuva na saída do observatório em um certo dia. Falo de seu papel e de sua função dentro da peça, de seu efeito em nosso drama, in hoc theatro mundi.
Ela cola, cola a saia ao corpo, os cabelos ao crânio, a pele ao osso; ela encolhe, tira a maquiagem, denuncia a mímica; ela desincha, reduz, localiza; sob a chuva, o aparecer coincide com aquilo que aparece. Também não falo da idéia da chuva, mas daquilo que chamei, em outro momento, de figurante da encenação geral. O poema pega as coisas no ato, na circunstância, e testemunha sobre o que nos fazem.
[…]
.

(fragmento de L’énergie du désespoir)

[…]
« Un poète n’est jamais tout à fait absent », ai-je entendu dire. C’est la question. Et je substitue poème à poète pour faire la question: un poème peut-il être jamais tout à fait absent ?
Que fait la pluie par exemple? Et je ne parle pas du «phénomène météorologique» mais de la pluie qui mouille, celle que reçoit l’ astrophysicien sans imper à la sortie de l’observatoire ce jour -là. Je parle de son rôle et de sa fonction dans la pièce, de son effet dans notre drame, in hoc theatro mundi.
Elle colle, elle colle la jupe au corps, les cheveux au crâne, la peau à l’os ; elle retrousse, elle défarde, elle dénonce la mimique, elle dégonfle, elle réduit, elle localise ; sous elle l’ apparaître coïncide à ce qui apparaît. Je ne parle pas non plus de l’idée de la pluie mais de ce que j’ai appelé ailleurs un figurant de la mise en scène gênérale.Le poème prend les choses sur le fait, dans la circonstance, et témoigne de ce qu’elles nous font. »
[…]
- Michel Deguy, {tradução Marcos Siscar}. em "A rosa das línguas". [organização e tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro, 7 Letras; 2004.

§

O metrônomo
Quem bate
Uma frase de língua
Ao vento do jogo

Neuma do metro
O balancim confia
O tempo à dicção

Ritmo limiar é preciso
Que uma porta de palavras
seja aberta e fechada

Longa breve e pausa
O tempo passa
Ele repassará

Há como no ser
Um ar de família um ar de nada

A corrente de ares
vira as páginas
isso não faz um vinco
mas cinco

Só mais um momento
Senhor leitor
O tempo de uma palavra nua
Entre duas viradas

O que me canta
.......dobra-se
Aos calibres das cores
.

Le métronome
Qui bat là
Une phrase de langue
Au vent du je u

Neume du mètre 
Le balancier confie 
Le temps à la diction

Rythme seuil il faut 
Qu'une porte en mots 
soit ouverte et fermée

Longue brève et pause 
Le temps passe 
Il repassera

Il y a du comme dans l'être 
Un air de famille un air de rien

Le courant d'airs 
tourne les pages 
ça ne fait pas un pli 
mais six

Encore un instant 
Monsieur le lecteur 
Le temps d'un mot nu 
Entre deux tournes

Ce qui me chante
se plie
Aux calibres des couleurs
- Michel Deguy, em "A rosa das línguas". [organização e tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro, 7 Letras; 2004.

§

O amor é mais forte que a morte vocês diziam 
Mas a vida é mais forte que o amor e
A indiferente mais forte que a vida — A vida 
Minha ou sua e nossa de alguma maneira
É em conjunto a única seqüência de 
                              metamorfoses 
(O neotênico converte-se em herói sexuado
Depois no barrigudo careca que apodrece como 
                              um deus) 
E banhos-duchas no Letes todos os meses
Lutos laqueados, renascimentos frágeis, 
                              amnésias 
E um velho mudo dentro de nós há tanto 
                              tempo 
Sobrevive sem dor ao ossuário das crianças

    (45° Oeste 60° Norte)
.

L'amour est plus fort que la mort disiez-vous
Mais la vie est plus forte que l'amour et
L'indifférente plus forte que la vie – La vie
Mienne ou tienne et nôtre en quelque manière
Est ensemble la seule séquence de 
                              métamorphoses 
(Le néoténique se mue en héros à sexe
Plus tard en ventru chauve pourrissant comme 
                              un dieu) 
Et bains-douches au Lhété tons les mois
Deuils laqués, renaissances frêles, amnèses
Et un vieillard muet en nous depois longtemps
Survit sans douleur au charnier des enfants


     (40° Ouest 60° Nord)
- Michel Deguy, {tradução Marcos Siscar}. em "A rosa das línguas". [organização e tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro, 7 Letras; 2004.

§

Os dias não estão contados
Saibamos formar um cortejo de deportados
...........................................................[que cantam
Árvores com flancos de preces
Ofélia no flutuar do tempo
Assonâncias guiando um sentido ao leito do poema
Como designar aquilo que dá o tom?
A poesia como o amor arrisca tudo nos
..........................................[signos
.

Les jours ne sont pas comptés
Sachons former un convoi de déportés qui
................................................................[chantent
Arbres à flancs de prières
Ophélie au flottage du temps
Assonances guidant un sens vers le lit du poème
Comment appellerons-nous ce qui donne le ton?
La poésie comme l'amour risque tout sur des
..................................................[signes
- Michel Deguy, {tradução Marcos Siscar}. em "A rosa das línguas". [organização e tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro, 7 Letras; 2004.

§

Lançados…
Lançados se entrelaçam o amor e a comparação!
O amor compara a comparação que ama elogiar
com anáforas
……..e a lira sáfica tece
……..a incomparável beleza das bordas
……..à contraluz de um eclipse do Ser
(ora, afastando-me de barca da ilha-hotel
— aurora que você saudava à janela de Udaipur —
— não tínhamos saído do conto
mas estávamos protegidos, edificados até
por uma constante de Propp mais bela
do que os troféus fotoscópicos)
………………………………………….. …..Será
sempre cedo demais sempre tarde demais
portanto, é agora …………………… ……. …o
tardio demais e demasiado prematuro adeus
.

Élancés…
Elancés ils s’enlacent, l’amour et la comparaison!
L’amour compare la comparaison qui aime louer
avec des anaphores
……….et la lyre saphique tisse
……….l’incomparable beauté des bords
……….à contre-jour d’une éclipse de l’Être
(or m’éloignant en barque de l’île-hôtel
—aube que tu saluais à la fenêtre d’Udaïpur —
nous n ’étions pas sortis du conte
mais protégés, édifiés même
par une constante de Propp plus belle
que les trophées photoscopiques)
…………………………………..Ce sera
toujours trop tôt toujours trop tard
donc c’est maintenant….. ………..le
trop tardif et trop prématuré adieu
- Michel Deguy, {tradução  Paula Glenadel}. em "A rosa das línguas". [organização e tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro, 7 Letras; 2004.

§

Sorriso…
Sorriso
Quando cruzo com ela no seu rosto
No seu rosto assim como nos nossos
Nos rostos deles há
Restos daquele encontro precedente
.

Sourire…
Sourire
Quand je la croise sur son visage
Sur son visage comme sur les nôtres
Sur leur visages il y a
Des restes de la rencontre precedente
-  Michel Deguy, em "Poetas de França hoje. 1945-1995. [organização e tradução Mário Laranjeira]. São Paulo: Edusp, 1996.


BREVE BIOGRAFIA
Michel Deguynasceu em Paris, em 1930. É conhecido como poeta, filósofo e professor de literatura. Foi membro dos grupos responsáveis pelas revistas Poésie, Critique, Les Temps Modernes. Presidiu o Collège International de Philosophie e a Maison des Écrivains. Recebeu na última década dois dos mais importantes prêmios literários franceses, o Grand Prix national de la poésie e o Grand Prix de Poésie de l'Académie Française. Uma antologia de seus poemas foi publicada no Brasil, com tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar, na coleção Ás de Colete, dirigida pelo poeta carioca Carlito Azevedo. Contemporâneo exato da geração brasileira que presenciou o nascimento e maturidade poética de Haroldo de Campos, Hilda Hilst, Ferreira Gullar, Mario Faustino, o poeta francês Michel Deguy publicou, entre outros, os livros Les Meurtrières (1959), Poèmes de la Presqu’île (1961), o maravilhoso Ouï dire (1966), Poèmes 1960-1970, Abréviations usuelles (1977), La Machine matrimoniale ou Marivaux (1982), Choses de la poésie et affaire culturelle (1986), L’Énergie du désespoir, ou d’une poétique continuée par tous les moyens (1998), entre outros.
:: Fonte: revistamododeusar

O murinho - Carlos Drummond de Andrade

Edvard Munch - The girls on the bridge
O murinho

A princípio, o território neutro do edifício Jandaia era ocupado por mamães e babás, capitaneando inocentes que iam tomar a fresca da tarde; à noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados civis e militares.
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples área pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era frequente. (Na parte da noite.)
Na área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta concebida em escala de anão.
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial, que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper. Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez, fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se renovava.
Os moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de suas casas?
Como não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação, raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” — comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho — nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais noturnos.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro "Fala, amendoeira". São Paulo: Companhia das Letras, 2012.