Exposição 'Êxodos' de Sebastião Salgado em Recife

©Sebastião Salgado - Êxodos
Exposição 'Êxodos' de Sebastião Salgado
De 1º de setembro a 16 de outubro de 2016 
na Caixa Cultural de Recife


"É uma história perturbadora, pois poucas pessoas abandonam a terra natal por vontade própria"
- Sebastião Salgado (Êxodos)

Imagens feitas por Sebastião Salgado começam a ser exibidas nesta quinta-feira (1º) na Caixa Cultural, no centro do Recife. A mostra retrata e faz refletir sobre as questões políticas, sociais e econômicas enfrentadas pelas pessoas que foram obrigadas a deixar sua terra natal. Salgado viajou por quarenta países durante seis anos para fazer as fotografias que fazem parte da coleção.

Intitulada Êxodos, a exposição estará disponível até 16 de outubro e tem entrada gratuita. Ao todo, a mostra contém 60 pôsteres divididos em cinco temas centrais: África;,Luta pela Terra, Refugiados e Migrados; Megacidades, e Retratos de Crianças. O material foi doados pelo fotógrafo e sua esposa, Lélia Wanick, ao Instituto Terra, fundado pelo casal em 1998.

Formado Economia, Sebastião Salgado é um dos mais renomados fotógrafos brasileiros. Fez parte das agências Sygma, Gamma e Magnum e tem diversos slivros publicados, dentre eles Outras Américas (1986), Sahel, l’Homme en détresse (1986), Trabalhadores (1993) e Perfume de Sonho (2015), fruto de uma viagem ao mundo do café. 

Algumas fotos da exposição


©Sebastião Salgado - Êxodos

©Sebastião Salgado - Êxodos

©Sebastião Salgado - Êxodos


©Sebastião Salgado - Êxodos

SERVIÇO
Exposição fotográfica: “Êxodos” – Sebastião Salgado
Período: de 1º de setembro a 16 de outubro de 2016
Horário: das 10h às 19h, de terças-feiras a domingos
Local: CAIXA Cultural Recife - Av. Alfredo Lisboa, 505 – Recife-PE
Entrada franca
Fonte: Diário de Pernambuco/ Caixa Cultural Recife


Biografia e outras imagens de Sebastião Salgado

Pequenas epifanias - Caio Fernando Abreu

©Vin Ganapathy


Pequenas epifanias
  
Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — “Tentação” — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível.” Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele para. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia a dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

O Estado de S. Paulo, 22/4/1986


— Caio Fernando Abreu, no livro "Pequenas epifanias". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.


Biografia do autor

Exposição A mão do povo brasileiro

Exposição 'A Mão do Povo Brasileiro' (1969) - foto: Hans Gunter 
Acervo Instituto Moreira Salles e Luiz Hossaka, Masp
exposição: 'a mão do povo brasileiro'
até  29 de janeiro de 2017
no MASP


"A arte dos pobres apavora os generais"
- Bruno Zevi, L’ Espresso, Roma, 14.3.1965


A mão do povo brasileiro foi a mostra temporária inaugural do MASP na avenida Paulista em 1969, apresentando um vasto panorama da rica cultura material do Brasil — cerca de mil objetos, incluindo carrancas, ex-votos, tecidos, roupas, móveis, ferramentas, utensílios, maquinários, instrumentos musicais, adornos, brinquedos, objetos religiosos, pinturas e esculturas. A mostra, concebida por Lina Bo Bardi com o diretor do museu, Pietro Maria Bardi, o cineasta Glauber Rocha e o diretor de teatro Martim Gonçalves, era um desdobramento de outras mostras organizadas pela arquiteta do MASP em São Paulo (1959), Salvador (1963) e Roma (1965), onde foi fechada por ordem do governo militar brasileiro, suscitando o artigo do arquiteto Bruno Zevi intitulado “L’arte dei poveri fa paura ai generali”.


Exposição 'A Mão do Povo Brasileiro' (1969)
Ao valorizar uma produção frequentemente marginalizada pelo museu e pela história da arte, o MASP, conhecido por sua coleção de obras-primas europeias, realiza um gesto radical de descolonização. Descolonizar o museu significava repensá-lo a partir de uma perspectiva de baixo para cima, apresentando a arte como trabalho. Nesse sentido, tanto uma pintura de Candido Portinari quanto uma enxada são consideradas um trabalho — uma noção que supera as distinções entre arte, artefato e artesanato. 

Em sua nova fase, o MASP busca restabelecer e aprofundar sua relação com essa produção, tomando como ponto de partida a reencenação de uma de suas exposições mais icônicas. A mão do povo brasileiro se insere em um histórico de muitas outras exposições no MASP (inclusive a pioneira Arte popular pernambucana, em 1949). Aqui, ela é tomada como um objeto de estudo e um precedente exemplar da prática museológica descolonizadora. É, sobretudo, uma oportunidade para expor ao público um pouco dessa produção, para estimular a reflexão e o debate sobre seu estatuto e context no museu e na história da arte, e as contestadas noções de “arte popular” e “cultura popular”. A questão central da mostra (e possivelmente subversiva aos olhos dos generais do gosto) é: de que maneira podem ser reconstruídas, relembradas e reconfiguradas as histórias sobre a arte e a cultura no Brasil, para além dos modos, gostos e ofícios das classes dominantes?

Uma reconstrução perfeita de A mão do povo brasileiro é impossível, e optamos por seguir o espírito da curadoria original com alguns ajustes. Não encontramos uma lista de obras completa, mas listagens de colecionadores e museus, que novamente procuramos, recolhendo trabalhos similares e respeitando as tipologias de objetos. A arquitetura da exposição segue a de 1969, também com adaptações. Optamos por não atualizar a mostra—e os objetos reunidos foram feitos, até onde sabemos, antes de 1970—mas articulamos diálogos em torno do trabalho e do popular com mostras de artistas de diferentes gerações: Candido Portinari, Jonathas de Andrade, Lygia Pape e Thiago Honório. Interessa-nos aqui compreender o significado desse momento histórico e inaugural do museu, para encontrar novos rumos e reforçar a presença da mão do povo no MASP.


Exposição A mão do povo brasileiro (2016/2017) - foto: Danilo Verpa/Folhapres

'Bom Jesus de Pirapora' - Exposição A mão do povo brasileiro (2016/2017)

Exposição 'A Mão do Povo Brasileiro' (1969) - foto: Hans Gunter
Acervo Instituto Moreira Salles e Luiz Hossaka, Masp

Exposição 'A Mão do Povo Brasileiro' (1969) - foto: Hans Gunter 
Acervo Instituto Moreira Salles e Luiz Hossaka, Masp

Exposição 'A Mão do Povo Brasileiro' (1969) - foto: Hans Gunter 
Acervo Instituto Moreira Salles e Luiz Hossaka, Masp

Exposição 'A Mão do Povo Brasileiro' (1969) - foto: Hans Gunter 
Acervo Instituto Moreira Salles e Luiz Hossaka, Masp

SERVIÇOS
EXPOSIÇÃO "A MÃO DO POVO BRASILEIRO, 1969/2016"
Abertura: 1 de setembro, 20h
Data: ... até 29 de janeiro de 2017
Local: 1º andar do MASP
Endereço: Avenida Paulista, 1578, São Paulo, SP
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: terça a domingo: das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h30); quinta-feira: das 10h às 20h (bilheteria até 19h30)
Ingressos: R$25,00 (entrada); R$12,00 (meia-entrada)
O MASP tem entrada gratuita às terças-feiras, durante o dia todo.
AMIGO MASP tem acesso ilimitado e sem filas todos os dias em que o museu está aberto.
O ingresso dá direito a visitar todas as exposições em cartaz no dia da visita.
Estudantes, professores e maiores de 60 anos pagam R$12,00 (meia-entrada).
Menores de 10 anos de idade não pagam ingresso.
O MASP aceita todos os cartões de crédito.
Saiba mais no site oficial: MASP
Fonte: MASP


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