Pipoquices - Humberto Werneck

©Pablo Picasso

Pipoquices

Certeiro no uso das palavras ao compor seus versos, meu amigo Pipoca (preservemos sua identidade por detrás do apelido de infância, pois é homem recatado) se atrapalha todo quando vai manejá-las na conversação. Quer dizer uma coisa e sai outra. Para você ter uma ideia: ao me abraçar, emocionado, no dia do meu casamento, limitou-se a um monossílabo carregado de involuntário mau agouro:

— Tchau!

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Homem sensível, o Pipoca viveu como perda pessoal o desaparecimento do dálmata da irmãzinha. Não só se incorporou ao choro da menina como, em segredo, botou anúncio no jornal.

No dia seguinte, uma catadupa de gozações desabou no telefone:

— É daí que sumiu uma zebra?

Zebra? — estranhou a família, e o ele, desolado, humildemente mostrou o anúncio, ao qual não faltara um pipocal equívoco ao descrever a pigmentação do dálmata: “Procura-se um cãozinho listrado…”

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Em Paris, numa roda de jovens casais, o Pipoca, revoltado, chegou contando a desfeita de que fora vítima minutos antes, da parte de um nativo de maus bofes, sem que tivesse podido responder, já que além de tímido lhe falta domínio da língua francesa. Não, sejamos justos: fala francês fluentemente (ele vai adorar a acidental aliteração), só que ninguém entende. Naquele episódio, nem isso, pois a grosseria congelou seu rarefeito vocabulário. Pipoca só foi estourar ali entre os amigos. Suprassumo da delicadeza, pediu: “Fechem os olhos, meninas!” — e, no português mais cru, entornou o caminhão de palavrões que em vernáculo não pudera endereçar ao agressor.

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Em outra roda, majoritariamente francesa, o poeta aventurou-se a contar o que acabara de presenciar no metrô parisiense: um velho, surtado, baixou as calças e se pôs a balangar os balangandãs. Como ao narrador sobrasse decoro e faltasse munição verbal, ninguém entendeu o que se passara. Ele tentou esclarecer, sem perder a finura jamais: o camarada tinha mostrado tous ses documents, sim, seus documentos, ses papiers — e aí a coisa se complicou de vez: seria como dizer, no Brasil, que o peladão mostrou o RG, o CPF, a carteira de motorista… Só a presença de um compatriota bilíngue pôde conferir sentido à narrativa pipocal.

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Na cidade onde morava, no sul da França, meteu-se ele um dia a preparar para os amigos, de variadas nacionalidades, o que anunciou, aliás num verso alexandrino, como sendo “a joia negra da cozinha brasileira”. Seus dotes culinários, a bem da verdade, iam pouco além dos ovos mexidos, o que de forma alguma lhe pareceu constituir problema. Problema, esse sim, foi achar os pertences da feijoada, a começar pelo feijão preto. Vá lá, deu de ombros, e, renunciando à negritude da joia, mandou embrulhar os grãos graúdos e branquelos do cassoulet. Paio também não havia, nem lombo defumado, muito menos carne seca (causou espécie ao pedir “viande sèche”). Couve e pimenta malagueta, então…

Você pode imaginar o desastre que foi a pálida feijoada do Pipoca, a partir do instante em que ele irrompeu no recinto com um formidando e fumarento caldeirão, evocador das tragicômicas bodas de Dom Ratão. Servidos os pratos — a que não faltou, como sucedâneo da malagueta, uma pimenta vietnamita só comparável, em poder de fogo, ao napalm que os americanos despejavam sobre os vietcongues —, baixou entre os comensais um silêncio ainda mais espesso que o conteúdo do caldeirão. Na tentativa de deixá-lo à vontade, a dona da casa teve a infelicidade de louvar a feïjoadá brésilienne do Pipoca, o que, por cima do orgulho de chef, lhe feriu brios nacionalistas:

— Não, madame, isso aqui não tem nada a ver, lá é totalmente diferente — tartamudeou ele, acrescentando ao desastre o ingrediente que faltava.

***

Em outra ocasião, morando ainda na casa dos pais, foi despertado com a notícia, ao telefone, da morte de um amigo da família, e por pouco não ficou sem palavras. Antes tivesse ficado, pois a única que lhe veio aos lábios foi:

— Oba!

***

E houve também o dia em que, num encontro casual, ele soube da morte do pai de um amigo.

— Não me diga! Eu nem sabia que ele estava doente!

— Não estava — contou o outro —, mas veio uma pneumonia e…

— Ah — respirou o Pipoca —, ainda bem que não foi nada grave!


— Humberto Werneck, crônica publicada originalmente na revista “Vida Breve”, em 30.05.2014.

Conversa telefônica - Clarice Lispector

©Duy Huynh


Conversa telefônica 

Uma grande amiga minha se deu ao trabalho de ir anotando numa folha de papel o que eu lhe dizia numa conversa telefônica. Deu-me depois a folha e eu me estranhei, reconhecendo-me ao mesmo tempo. Estava escrito: “Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro. Ou para uma desistência: levar uma vida mais humilde de espírito, ou então não sei em que ramo a desistência, não sei em que lugar encontrar a tarefa, a doçura, a coisa. Estou viciada em viver nessa extrema intensidade. A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto o maior desamparo.”

— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. Rio de Janeiro: Rocco, 1999


Saiba mais sobre Clarice Lispector:

Ferreira Gullar explica como criou 'Poema sujo'



Publicado originalmente em 1976, Poema sujo transformou a paisagem da poesia brasileira com sua torrente arrebatadora de versos, expressão máxima de uma subjetividade convulsa pela atmosfera sufocante da ditadura.

O poema foi escrito na Argentina, onde o autor se encontrava exilado. “Sentia-me dentro de um cerco que se fechava. Decidi, então, escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”, escreveu Gullar. “Imaginei que poderia vomitar, em escrita automática, sem ordem discursiva, a massa da experiência vivida - lançar o passado em golfadas sobre o papel e, a partir desse magma, construir o poema que encerraria a minha aventura biográfica e literária.” Quarenta anos depois, o poema continua atual como nunca.
Neste vídeo, Ferreira Gullar explica como criou o poema:



*Publicado originalmente no site da editora Companhia das Letras, em 25.10.2016.